Blast Battle

Bioshock Infinite vs. The Last of Us, uma comparação entre os candidatos a jogo do ano

Um homem com a missão de escoltar uma garota através de um país devastado (em conflito). Entre os dois personagens nenhuma relação de pare... (por Marcelo Alonso em 08/07/2013, via PlayStation Blast)

Um homem com a missão de escoltar uma garota através de um país devastado (em conflito). Entre os dois personagens nenhuma relação de parentesco (ou não?). Ao longo da jornada os personagens evoluem e passam a ter uma relação de afeto, mudando também a relação entre os jogadores e eles. A jornada termina muito mais sombria e profunda do que começou e ficará marcada na mente daqueles que ousaram aceitar o desafio.

Não são somente estas as semelhanças entre Bioshock Infite e The Last of Us, os dois são os candidatos absolutos a jogo do ano e conseguiram surpreender toda a comunidade gamer através da narrativa bem trabalhada, enredo cativante e jogabilidade divertida. Essas semelhanças dão origem a discussões infindáveis sobre qual jogo é melhor que o outro, entre outras coisas. Mas vamos parar um pouco e pensar: será que os dois são realmente tão parecidos assim? Ou foi apenas a coincidência de terem seus lançamentos tão próximos um do outro? É preciso dizer que este texto contém SPOILERS, portanto, se não terminou nenhum dos dois jogos, recomendo que deixe para ler este texto depois.

Começando pelas personagens


Joel e Dewitt são homens diferentes, porém, ambos foram endurecidos pelos sofrimentos que passaram em suas vidas, além de terem como voz o mesmo dublador, Troy Baker. Joel vive em uma cidadezinha rural no Texas com sua filha Sarah. Fica claro ao longo da jornada que Joel já teve uma mulher, mãe de Sarah, porém o que aconteceu a ela não é dito em nenhum momento, mesmo assim é evidente que algo traumático aconteceu e Joel carrega sozinho o peso de cuidar da pequena Sarah. Até ai, muito parecido com Booker que, além de carregar uma consciência pesada por atos cometidos na batalha de Wounded Knee (evento real da história americana), perdeu sua mulher durante o parto de sua filha, Anna.

Nesse caso, Booker pode ser considerado um sujeito com um problema um pouco mais complexo nas mãos (ou na cabeça), já que ele pode muito bem culpar a criança da morte de sua mulher, o que pode ter influenciado sua decisão mais tarde de vendê-la (Eu avisei que tinha spoilers, não avisei?). O verdadeiro sofrimento de Joel começa na noite da pandemia quando, tentando escapar do caos e proteger sua filha, acaba falhando e a mesma morre pelas mãos daqueles que deveriam estar ajudando-os. Joel perde a esperança não só nele mesmo (como acontece com Booker) mas na humanidade também, enxergando-os como algo tão terrível quanto os zumbis.


Elizabeth é uma garota aparentemente nos seu 20 anos, que está completamente fora de sua realidade (tipo, de verdade, ela é de outra realidade MESMO, saca?). Com parte do seu dedo mínimo deixado na sua realidade de origem, ela adquire o poder de abrir e criar fendas entre realidades alternativas e por isso é trancada em uma torre que limita seus poderes. Esse sentimento de deslocamento e ao mesmo tempo aprisionamento é a força motriz da jovem. Sem outra alternativa, Elizabeth estuda tudo o que pode sobre o mundo de dentro de sua gaiola, em sua biblioteca pessoal. Ao mesmo tempo, muitas dessas informações disponíveis a ela foram manipuladas para esconder suas origens e evitar questionamentos. Portanto, quando Elizabeth é libertada por Booker, sua curiosidade e inocência têm origem naquilo que ela só viu em livros. Ela tem esperança de ver o mundo ao vivo e sentir e experimentar tudo aquilo do qual ela era privada em seu aprisionamento e no processo descobrir a si mesma.

Bem diferente de Ellie, que nasceu já em um mundo devastado pela pandemia. E, bem mais nova que Elizabeth, foi forçada a amadureçer muito rápido por conta da brutalidade da realidade em que vive (não, aqui é só uma realidade mesmo e não existe como escapar dela). Nada sabemos sobre os pais de Ellie, mas provavelmente tiveram o mesmo triste fim de outros muitos pais, filhos, parentes e amigos de muitos outros sobreviventes, como a própria Ellie declara quando questionada sobre seus genitores. Além disso, a inocência de Ellie tem outra origem, não de um aprisionamento ou de uma sensação de deslocamento, mas simplesmente porque nunca conheceu (e nem irá conhecer) o mundo como nós o conhecemos. Isso gera situações engraçadas em alguns momentos, porém tristes em outros, pois fica evidente a parte dessa inocência que foi perdida, tomada por um mundo violento onde só sobrevive o mais forte. Além disso, Ellie carrega uma responsabilidade muito grande por talvez ser “a cura” (olha aí o spoiler de novo) e só é possivel imaginar quantas pessoas ela foi obrigada a ver morrer por conta de uma epidemia que não a afeta. Fica claro, porém, no final do Inverno, que Ellie, assim como Elizabeth, não se conhece por completo e fica horrorizada ao ver um lado seu que preferiria não ter conhecido.


Vencedor: Empate

Sobre a jornada

A jornada de The Last of Us se concentra em nos mostrar o que o mundo se tornou, e em consequência disso, que transformações sofreram as pessoas que ainda o habitam e o modo como elas se relacionam. Durante todo o game é difícil estabelecer quem são os vilões e mocinhos da história, afinal estão todos tentando sobreviver e mesmo que os métodos sejam questionáveis, somos capazes de perceber que a moral é muito mais flexivel por conta da situação desesperadora em que todos se encontram. Até mesmo os zumbis, diferente dos que estamos acostumados, não são pessoas que morreram e voltaram à vida por conta da infecção e sim apenas pessoas que ficaram doentes e não têm mais controle sobre o próprio corpo, tornando até mesmo o ato de matar um zumbi algo moralmente questionável.

A jornada pessoal de Joel e Ellie não é de autodescoberta e redenção, mas de descoberta do mundo e o que ele se tornou. São as pessoas que eles encontram durante a jornada que alteram a percepção que eles têm desse mundo e de como lidar com ele.

Diferente, portanto, de Bioshock Infinite, que aparenta ser muito mais pessoal. Booker, quando acorda no barco, não tem plena consciência de tudo o que aconteceu até ali (ao contrário de Joel e Ellie que são assombrados por um passado recente e têm mais consciência disso do que gostariam), transformando sua missão de salvar a mocinha em uma jornada para a autodescoberta. Somente no final do jogo é que Booker alcança a plena consciência de si mesmo, suas origens e as consequências disso; e o mesmo vale para Elizabeth, que apesar de todo seu estudo e conhecimento adquirido através de livros, desconhece uma parte de sua própria história. Por isso o jogador, ao terminar o game, se vê refazendo todos os seus passos até ali, tentando juntar as peças desse quebra-cabeças que é Booker e sua história, procurando algo que dê alguma esperança de que tudo ficou bem. A história de Bioshock Infinite, inclusive, abre espaço para milhares de interpretações de seu final e, de tão belo que é, há espaço até para a metaliguagem (“There’s always a man, a lighthouse and a city”). Mas de certa forma Booker, no fim, consegue sua redenção, através de Elizabeth, que afogando-o livra o mundo do causador de toda a confusão, o alter ego Comstock.

Essa redenção não existe em The Last of Us, não existe espaço para isso nesse mundo, apenas para sobrevivência. Joel, salvando Ellie da morte, condena a humanidade (até onde sabemos, ela é a única que possui algo que pode levar a uma cura), e por mais que isso possa parecer uma redenção (já que ele salvou a figura da filha, condenando aqueles que a haviam matado em primeiro lugar), não o é, pois ela só existe através da mentira e da culpa, com as quais ele terá que lidar. E, por tabela, ele também a priva de uma redenção (salvar todos aqueles que morreram por conta de algo que não a afetava), já que tira dela a escolha de sacrificar-se por uma cura.


Outro ponto interessante a ser comparado entre os dois games são as histórias paralelas que acontecem durante as aventuras. Bioshock obriga o jogador a participar e conhecer as histórias secundárias que surgem durante a trama, seja ajudando os Vox Populi (que até poderíamos traçar um paralelo com os Firefly e sua líder Marlene de TLoU, extremamente parecida com Daisy Fitzroy) ou enfrentando os homens de Cornelius Slate. Isso torna Bioshock um pouco mais “arcade” no sentido que se apoia em uma mecânica clássica de jogos (vá até o ponto B, obtenha o obejto x do personagem y, para voltar para o ponto A e abrir a porta z).

TLoU deixa tudo isso mais sutil e realista. Suas personagens nunca entregam toda sua história e o jogador acaba juntando as peças sozinho. Além disso, as situações e objetivos mudam conforme as adversidades aparecem. Prestando atenção, nota-se que Joel e Ellie desistem de chegar na tal torre de comunicação que Henry menciona depois do mesmo cometer suicídio, por exemplo.


Vencedor: The Last of Us

 Narrativa e gameplay

Neste aspecto os dois games são bem distintos. TLoU conta com uma perspectiva em terceira pessoa com elementos de games stealth e de jogos de tiro com aquela mira por cima do ombro, permitindo assim a aplicação de cutscenes em CG, o que dá um aspecto mais cinematográfico para a experiência. Bioshock é todo contado através de uma perspectiva em primeira pessoa e tudo relacionado à história é mostrado dessa maneira.

Se por um lado o game ganha mais facilidade de imersão, já que todos os personagens secundários falam diretamente com o jogador, perde por outro, pois é difícil determinar o que o personagem principal está sentindo ou pensando. Tudo isso só pode ser contado com o personagem se expressando pela fala, o que tira um pouco do realismo, já que ninguém fica conversando consigo para saber o que está sentindo. Além disso, Bioshock ficou com uma cara de shooter tradicional, não inovando muito suas mecânicas e, por mais que existam os Vigors, eles não se fazem tão necessários assim, sendo possivel passar o jogo inteiro utilizando apenas o arsenal de armas de fogo disponíveis. Não quer dizer que Bioshock seja menos divertido, mas nos faz pensar se essa não seria uma história a ser contada de outra forma que não em FPS.


TLoU pega tudo que já conhecíamos em termos de jogabilidade e evolui isso de tal maneira a sentirmos, através dos controles, o que o personagem está sentindo, seja medo, raiva, apreensão ou tristeza, algo não muito comum nos games. Harmonizando esse esquema de jogabilidade com a narrativa, a Naughty Dog conseguiu uma fluidez que parecia impossivel até então.


Vencedor: The Last of Us

Considerações finais

Levando em conta todos esses aspectos, fica claro que TLoU realmente merece o primeiro lugar, até agora, de jogo do ano. Não que Bioshock Infinite não mereça destaque, é um game excelente, mas não fossem sua história emocionante e personagens cativantes, seria apenas mais um entre muitos shooters genéricos do mercado atual. TLoU consegue, sem mudar os aspectos aos quais já estamos acostumados, elevar a experiência a algo nunca visto e é obrigatório a qualquer dono de PS3. Ponto para a Naughty Dog.

Vencedor do Blast Battle: The Last of Us
Revisão: Vitor Tibério
Capa: Vitor Nascimento

Marcelo Alonso é formado em Cinema pela Faap. Seu sonho é que a linha entre cinema e videogames fique cada vez menos perceptivel. A vontade de discutir sobre o assunto o levou a escrever textos para o Blast. Pode ser achado no Facebook e no Twitter.

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