Perfil

O Acidental herói Laguna (Final Fantasy VIII)

"Qual seu personagem preferido do jogo?" indagava o, hoje quase esquecido na memória, amigo. "Laguna", foi a resposta.... (por Pedro Vicente em 24/07/2013, via PlayStation Blast)

"Qual seu personagem preferido do jogo?" indagava o, hoje quase esquecido na memória, amigo. "Laguna", foi a resposta. "Mas ele nem faz parte da party?" disse, ao que respondi "Laguna", novamente. Entre as memórias do jogador e das personagens, Final Fantasy VIII conseguiu tecer relações importantes. Não apenas por ser um ótimo jogo, sucessor de um estrondoso sucesso, mas sim por ser um título que conseguiu cativar e conversar com as emoções daquele jovem e tímido rapaz. E falando de memória, talvez seria estranho afirmar que me lembro muito mais de Laguna do que daquele amigo, talvez seja algo amedrontador preferir a representação à realidade. O fato é que, independente da gravidade do assunto, Laguna Loire persiste em minhas lembranças. Porque fui ele durante algum tempo, e porque me identificava de alguma forma com ele. "Ei, qual é seu personagem preferido de Final Fantasy VIII?".

Observação: este texto contém spoilers do jogo.

Olhos em mim

Frequentemente nos jogos, somos convidados a fazer parte de uma história a partir da perspectiva de um grande herói, forte e seguro de si, destemido e extrovertido. Laguna não era quase nenhuma dessas coisas, e talvez por isso tornou-se uma referencia para mim. Era um soldado de Galbadia e em sua juventude, a região estava em guerra com o todo poderoso país ultra-tecnológico, Esthar. Entre uma missão e outra, a parada obrigatória era o bar do hotel da cidade. E foi lá que ele a conheceu, e foi lá que eu o conheci.

O acidental herói desenvolveu, entre um drinque e outro, uma admiração pela jovem pianista do bar do hotel, Julia. Noite após noite ele sentava em sua habitual cadeira para vê-la se apresentar. Seus olhos fixavam-se nela, e seu coração batia mais rápido. Com um empurrãozinho de seus amigos Kiros e Ward, o jovem Laguna decidiu se declarar. Apenas para sentir uma câimbra na perna e voltar humilhado para a mesa antes de conseguir falar com a moça. Só que de repente ela mesma veio falar com ele e convidou-o para conversar com ela em seu quarto.

É, acho que ele "vai estar aceitando"
Lembramos, eu e Laguna, de tudo o que aconteceu naquele quarto. Da conversa que teve com Julia e de tudo o que dividiram. O guerreiro, entretanto, foi chamado para ir a combate, nunca mais retornando para o bar daquele hotel, nunca mais retornando para Julia, mas deixando-a com a inspiração e coragem necessárias para compor suas canções e canta-las.

A canção tema do jogo, Eyes on Me, é uma composição de Julia para Laguna. A letra da música conta os momentos, da perspectiva da moça, que viveram juntos naquelas noites. Coincidência ou não, essa música embala o romance dos filhos deles, Squall e Rinoa.

O tio e o pai

Na época não sabia, mas a vida é feita de amores que ficam e de amores que vão. Laguna e Julia foram separados pela guerra, porque o nosso herói acabou se envolvendo em inesperados acontecimentos, afastando-se de Galbadia e chegando à pequena cidade de Windmill, onde refez sua vida. Entre a melancolia da separação e a esperança na vida, o bondoso e tranquilo soldado se tornou o "tio Laguna".

Vivendo com Raine e a pequenina Ellone, Laguna descobriu outras coisas da vida. A sorte de um amor e de uma vida tranquila, junto com suas queridas mulheres. Conheceu o amor novamente, se declarou a Raine e viveu com ela por um tempo. Mas a vida de um herói não é fácil, e teve de se afastar de sua amada, de sua "filha" e de seu filho que estava para chegar. A primeira, nunca mais veria.

Com vocês, o senhor Presidente

Das cadeias de Esthar, onde Laguna ficou detido, surgira um novo líder para o movimento de resistência contra a nefasta bruxa Adel. Da maneira mais aleatória e acidental possível, o simpático e tenro homem cativou os prisioneiros e acabou se tornando referencia da luta. Participou do plano contra a temida bruxa e virou o presidente da mais avançada nação que o mundo já conheceu.

Uma das coisas mais legais de FFVIII é ter uma cidade-continente, Esthar
Mesmo com a dor da perda de dois grandes amores, Laguna teve forças para seguir em frente e ajudar aqueles que necessitavam. A impressão que fica é que o "acidental" herói, que foi caindo quase que sem querer em várias situações e nunca procurara ser esse grande nome, é justamente um dos mais verdadeiros heróis dos jogos. Guiado apenas pela vontade de ajudar, acabou cativando a todos com seu jeito e se tornando um dos homens mais poderosos daquele mundo.

A dor e a delícia de viver

Laguna cativou não por ser um poderoso guerreiro que massacrava os inimigos com sua sub-metralhadora, mas sim por ser amigo, atencioso, carinhoso, cheio de esperança e de amor. Ao ver o final do jogo, na primeira e nas outras vezes, o momento em que mais me emocionei não foi o dos acontecimentos envolvendo o parvo Squall e a bela Rinoa, mas sim aquele com a cena de Laguna diante do túmulo de um de seus grandes amores. A dor do olhar tímido do homem que viveu as mais incríveis experiências. A tristeza de ver partir aqueles a quem se ama. Ainda assim, um olhar sereno consegue surgir. Viver é a maior e mais bonita aventura. Estranho é aprender e sentir essas emoções em um videogame?


Revisão: Samuel Coelho 
Capa: Sybellus Paiva
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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