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Análise: 007 Blood Stone (PS3) é ambicioso, mas não empolga

Os jogos baseados no mais icônico agente secreto dos cinemas sofrem sempre do mesmo problema: o fantasma de GoldenEye 007, lançado em 1... (por Gabriel Vlatkovic em 25/08/2013, via PlayStation Blast)


Os jogos baseados no mais icônico agente secreto dos cinemas sofrem sempre do mesmo problema: o fantasma de GoldenEye 007, lançado em 1997 para o saudoso Nintendo 64. E não é para menos, já que com seu robusto jogo a Rare conseguiu revolucionar a forma com que se viam os jogos de tiro em primeira pessoa para consoles de mesa, seja pela sólida campanha single player ou pela introdução do inovador multiplayer split screen para até quatro jogadores. Assim, sempre que um game de James Bond é anunciado, todos voltam a perguntar se finalmente chegou o momento em que GoldenEye será superado.


Um filme interativo?

Infelizmente, as baixas expectativas quanto ao lançamento não eram equivocadas. Não que Blood Stone seja um jogo ruim, mas não consegue nem chegar perto de representar todas as características e peculiaridades do universo de espionagem criado por Ian Fleming. A Bizarre Creations, famosa pela excelente série de corrida Project Gotham Racing, ficou a cargo da produção do título, e o resultado final é um hibrido entre third-person shooter e pilotagem, mas com diferenças substanciais de qualidade entre as duas partes.

My name is Bond. James Bond
Quando Bond está no comando de veículos, o jogo surpreende com um visual fenomenal e uma intensa sensação de velocidade, o que torna a experiência digna do que se vê nos melhores filmes do agente, colaborando muito para a imersão do jogador. Já nas fases de tiroteio, o game não passa de uma mistura genérica de boas ideias, porém apresentando gráficos pobres, com texturas em baixa resolução e arte sem inspiração. Nesses momentos, o jogador só se lembrará que o jogo se trata do espião britânico graças ao rosto de Daniel Craig no papel do personagem principal e das intromissões da sempre brilhante Judi Dench no papel de M. O elenco ainda conta com a cantora Joss Stone, que é responsável pela música tema e assume o papel da Bond Girl da vez, Nicole Hunter.

O jogo tenta passar o clima dos filmes a todo instante
A história é muito rasa e clichê: Bond deve investigar e destruir os planos de uma organização terrorista que está planejando um ataque biológico em centros econômicos mundiais, e para isso deverá viajar por diversas localidades exóticas, como Bangkok e Grécia entre outras. O jogo é previsível no roteiro e em sua execução, pois as reviravoltas que ocorrem durante a curtíssima aventura são todas muito manjadas para quem é minimamente familiarizado com o universo de Bond. Entretanto, as localidades escolhidas por Bruce Feirstein (roteirista reponsável pelo título e já consagrado pela elaboração do roteiro de GoldenEye) são espetaculares e fiéis à franquia, sendo bem variadas, interessantes, exóticas e elegantes, estando à altura do legado da série.

Oito ou oitenta

Como já dito, a jogabilidade de Blood Stone é um hibrido entre pilotagem e tiroteios. Infelizmente, os momentos de tiroteio, mesmo sendo o ponto central, são bem medianos. A jogabilidade é bastante travada e há um abuso de clichês, como covers, barris explosivos, e todos os fatores presentes na cartilha de jogos de tiro em terceira pessoa. Bond se movimenta muito lentamente e muitas mortes são causadas em razão da dificuldade para a realização dos comandos.

Apesar de belo, Blood Stone não possui boa jogabilidade
Logo na primeira missão já se pode perceber que a Bizarre Creations se influenciou por sucessos lançados na época, como Batman Arkahm Asylum (Multi) e Splinter Cell Conviction (X360/PC). Bond possui um smartphone que funciona como os sentidos do Cavaleiro das Trevas em Arkham Asylum, que pode ser ativado quando o jogador desejar. Com o equipamento, é possível se antecipar em relação aos inimigos durante os combates e também saber a todo momento a localização de seu próximo objetivo graças à visão raio-x que o celular possui. Com isso, o smartphone possibilita abordagens stealth nos inimigos, o que é bastante útil, pois cada inimigo abatido por Bond sem o uso de armas lhe garante um "Focus Kill", habilidade que quando usada paraliza a cena para o que jogador possa mirar em todos os inimigos da tela e matá-los instantaneamente (sistema similar ao de Splinter Cell Conviction).

As lutas não empolgam nada
Apesar de bem implementadas, as funções denotam a falta de inspiração da equipe na criação de mecanismos de jogo mais originais, justamente em uma série em que as possibilidades são praticamente infinitas. Falando nisso, mais uma decepção fica por conta da ausência dos famosos dispositivos criados por Q, pois durante todo o game, Bond utiliza apenas seu limitado "Batphone", deixando de lado todos os diferenciais de jogabilidade que os equipamentos do agente poderiam adicionar ao game.


As fases de pilotagem são incríveis!
Nas passagens de pilotagem, a história muda completamente e a Bizarre mostra que sua fama na criação de jogos de corrida não é por acaso. Os cenários e veículos são muito detalhados, e em conjunto com a incendiária trilha sonora, só completam mais a abordagem cinematográfica dessas fases, que geralmente são marcadas por extensas e emocionantes perseguições. De forma similar a como ocorre em Split Second (Multi) ou Motorstorm Apocalipse (PS3), as corridas são roteirizadas e o jogador dirige enquanto o caos toma conta do cenário. Assim, Bond deve se preocupar não apenas com seus inimigos, mas também com explosões, prédios desabando e civis espalhados pelo caminho, o que exige do jogador reflexos apurados e decisões muito rápidas. É uma pena que a produtora não se focou mais no desenvolvimento de fases nesse estilo e nem conseguiu manter o alto nível desses estágios nos momentos de tiroteio.


Se não houvesse um russo para perseguir, não seria 007
O som do jogo se destaca, apresentando efeitos sonoros de qualidade e músicas envolventes que variam de acordo com as situações em que Bond se encontra durante a jornada. Entretanto, o tema clássico da franquia toca apenas nos momentos finais do jogo, o que para alguns pode ser bastante frustrante. A dublagem, como já era de se esperar, é excelente. Daniel Craig e Judi Dench provam mais uma vez que sabem muito bem personificar os dois personagens pelos quais são responsáveis. A ironia tipicamente britânica presente nas falas de Bond e M é brilhantemente interpretada pelos dois atores. Mesmo participando menos que Craig e Dench, Joss Stone também faz um bom trabalho, não tão minucioso como o dos dois já veteranos na franquia, mas não deixa a desejar (a música que a cantora interpreta também casa muito bem com o game).

Sem motivos para retornar

A campanha é bem fácil e curta, e dura cerca de cinco horas, sem apresentar muitos motivos para que os não aficionados por troféus retornem à aventura. Blood Stone também possui um modo multiplayer online, mas frente à profundidade dos modos multiplayer de jogos como Call of Duty, é muito limitado. Possuindo apenas três modalidades (Deathmatch, Last Man Standing e Objective), o game é totalmente centrado nas passagens de tiroteio da campanha single player, deixando de lado todo o esforço da produtora em criar experiências fenomenais com o uso de veículos. Mesmo com sistema de níveis e obtenção de novas skins e habilidades, o modo é tão simples que a impressão que fica é a de que ele foi incluído às pressas para constar apenas como mais um aparente atrativo para os compradores em potencial.


Blood Stone é uma grande decepção para quem esperava um jogo digno da consagrada franquia. Entretanto, o game garante algumas horas de diversão descompromissada para fãs de jogos de ação. Blood Stone não é totalmente ruim, só é genérico demais para uma série que merece muito mais esmero na produção de seus produtos licenciados. Vale no máximo uma locação.

Prós

  • Fases de pilotagem são incríveis;
  • Em alguns momentos o jogo recria bem o universo do espião;
  • Dublagem de primeira;
  • Jogabilidade funcional.

Contras

  • Apesar de funcional, a jogabilidade não apresenta nenhuma inovação;
  • História rasa e mal escrita;
  • Qualidade gráfica oscila muito durante o jogo.



Blood Stone 007 – PS3 – Nota 5.0
Revisão: José Carlos Alves
Capa: Diego Migueis 
Gabriel Vlatkovic é economista formado pela Unicamp. Trabalha como Analista de Finanças e joga videogames há quase vinte anos. Adora ouvir música, assistir a filmes e seriados e discutir a Timeline de Zelda. Quando não está trabalhando, está no Facebook.

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