O drama de perder o filho no shopping e a tentativa de Heavy Rain de ser um fenômeno misto entre cinema e jogos

Heavy Rain se tornou um jogo icônico em parte por seu potencial dramático. Na época de seu lançamento era comum ser chamando de "... (por Lílian Moreira em 25/09/2013, via PlayStation Blast)



Heavy Rain se tornou um jogo icônico em parte por seu potencial dramático. Na época de seu lançamento era comum ser chamando de "filme interativo" por alguns entusiastas. O trabalho da Quantic Dream se direciona muito para trazer uma experiência emocional junto com o jogo, e essa tentativa é através da busca do máximo de realismo nos personagens, cenários, história etc. Desse modo, é normal que a empresa use e abuse de recursos cinematográficos em seus títulos.

Como muitos já sabem a história gira em torno do desaparecimento do segundo filho do protagonista, sequestrado por um assassino serial, o Origami. Mas antes disso somos apresentados à sua bela família: uma esposa linda e dois filhos alegres. Todos vivem em uma casa grande, com um quintal enorme e luxuosas portas de vidro. O pai é um arquiteto e podemos até trabalhar em um de seus projetos, no seu escritório. Interagimos com cada membro da família e vemos como tudo é colorido e feliz. Nesse dia nos preparamos para o aniversário de dez anos do filho que parece ser o mais velho. A primeira cena do jogo ensina os controles ao mesmo tempo em que faz uma apresentação inicial dos personagens, como a introdução de um filme.

Casal feliz

Passeio desastroso


A segunda cena começa igualmente alegre, com o núcleo família-modelo indo ao shopping junto, crianças brincando ao redor da mãe, pai carregando um dos pequenos em cima da cabeça, sorrisos para todos os lados. Mas sabemos o tempo todo que mais cedo ou mais tarde algo ruim vai acontecer, afinal é uma história sobre um sequestrador assassino. Ficamos o tempo todo à espera de um desastre, só não sabemos qual é.  

A mãe então resolve comprar sapatos para o mais novo e pede ao pai que cuide do outro, e que "não o deixe sair de perto". O menino some nos primeiros segundos, mas tudo bem, ele só queria ganhar um balão. Está parado em frente ao palhaço vendedor de bolas coloridas e ignora a bronca do pai que o avisa para não sair de perto. Neste momento a interpretação estereotipada e artificial do menino pedindo um balão para o pai "por favor, por favor" e a sua alegria desproporcional por escolher o vermelho quase encerram o drama da cena e a tornam uma comédia por alguns segundos.

Ele quer MUITO um balão!

Os controles de Heavy Rain são um tanto especiais. Com o objetivo de trazer uma imersão maior pelo controle de cada movimento do personagem, cada ação, mesmo que pequena, leva movimentos simulados da realidade. Enquanto o protagonista paga os balões, o filho já sai andando, e ele tem que procurar o dinheiro pelos bolsos, um por um, mexendo o direcional pra lá e pra cá, até acertar. No último, claro.

Com essa demora, o filho sumiu. Procuramos por um baixinho com um balão vermelho no alto da cabeça. A música fica tensa e ouvimos o rítmo de batidas aceleradas do coração. O botão que mostra o pensamento do personagem tem apenas uma opção: gritar o nome do filho o tempo todo. Podemos entrar em lojas, esbarrar nas pessoas, mudar de andar... Se não fosse o pequeno desespero que o jogo impõe poderíamos apreciar o quanto aquele cenário é grandioso, com várias lojas que não são apenas um plano pintado, mas lojas completas que podemos entrar e ver produtos diversos. Além da multidão de pessoas com rostos e roupas diferentes.

Avistamos um balãozinho vermelho no primeiro andar, perto dos brinquedos, corremos e nos deparamos com o filho de outra pessoa. Vemos o balão real então do outro lado, o menino resolveu sair do shopping. Corremos atrás dele e vemos a cutscene.

Jason, um menino de dez anos, atravessou a avenida sozinho e pelo visto não tinha muito discernimento. Assim que viu o pai desesperado na porta saiu correndo e atravessando a avenida com várias faixas e foi imediatamente atropelado. O pai salta para tentar salvá-lo, a mãe aparece do nada e grita seu nome desesperada. Corta para o balão vermelho subindo, como a alma de uma criança ascendendo aos céus.

A cena que muda tudo


Todo o drama da família se desenvolve à partir desse acontecimento, pois logo em seguida nos deparamos com o cotidiano de dois anos depois: uma expressão péssima no rosto do protagonista, uma casa muito inferior à outra (e sem a esposa), um relacionamento terrível com o segundo filho. Nada é explicado didaticamente, mas somos levados a crer que todos culpam o pai pelo desastre, até ele mesmo.



A cena do shopping marca uma transição fundamental no jogo, saímos de uma casa feliz para um mundo sombrio; de um universo claro e colorido para uma cidade chuvosa e ocre. É através dessa cena que conhecemos o drama do personagem principal e justificamos sua personalidade. A intensidade dramática da narrativa dá seu tom à partir dela. Porém, em Heavy Rain somos bombardeados com cenas intensas e questionadoras o tempo todo, conseguindo até transformar esta em apenas um probleminha inicial. Quem se transfere facilmente para o universo ficcional tem que se preparar para emoções fortes. 

Há quem critique a cena do shopping e pinte-a como uma tentativa falha de se fazer drama. Há quem ache que se ganha muito em imersão e realismo. Tendo a achar que tudo é uma questão do quanto a pessoa se entrega à experiência, além de gostos pessoais, etc. Mas o fato é que David Cage, o diretor da obra, quis causar emoções no jogador, e pretende fazer isso mais vezes.

Leitores, o que acham da cena do shopping? Se emocionaram? Foram pegos de surpresa? Acharam bem feita ou está mais para uma banalidade clichê?

Revisão: José Carlos Alves
Capa: Leonardo Correia 
Lílian Moreira é graduada em Letras e mestranda em Comunicação. É redatora do PlayStation Blast e TechTudo. Quando não está escrevendo nem jogando passa seu tempo lendo, traduzindo e tocando. Às vezes aparece no Twitter ou Google+.

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