Blast from Japan

Phantasy Star generation:1 (PS2) retornou a uma nova Algol

Reviva a experiência do clássico RPG para Master System com uma dificuldade acessível junto belos gráficos. Uma pena que não saiu do Japão.



Se você gosta de RPGs futuristas como Shadowrun, Fallout ou Mass Effect deve muito à franquia Phantasy Star, da SEGA. Ela foi importante para que o gênero RPG saísse do escopo medieval, demonstrando que a ficção científica também podia ser um tema a ser explorado. E se você for um leitor mais velho, deve ter boas memórias da primeira versão para Master System, assim como eu. A Tec Toy (hoje Tectoy) fez um ótimo trabalho na época ao traduzir todo o conteúdo do jogo para português, algo raro até então.


Boxart da versão lançada no Japão
O primeiro jogo teve uma excelente aceitação, brigando com o então popular Dragon Quest e o recente lançamento de Final Fantasy na época. Isso abriu caminho para diversas novas interações pela SEGA e criou uma enorme base de fãs. Mas nem todos sabem é que em 2003 a mesma SEGA juntamente à D3 Publisher lançou no Japão um remake do jogo para PlayStation 2, com gráficos melhorados e diversas adições na história e jogabilidade. Inicialmente também planejaram trazê-lo ao Ocidente, porém uma briga de direitos impediu que ele fosse lançado fora do Japão. Isso não impediu seus fãs ocidentais de conhecê-lo.

De volta à Algol

Você não se lembra da história ou precisa de um pequeno lembrete? Tudo começa no sistema solar de Algol, onde fica o planeta Palma. E logo de cara nos apresenta com uma cena impactante. Alis assiste a seu irmão sendo assassinado por soldados do rei Lassic e decide partir em busca de justiça e vingança pela morte de seu irmão. Pouco a pouco, novos integrantes se juntam a sua jornada, que se estende também pelos mundos vizinhos de Motavia e Dezoris. Serão diversas cidades, planetas e calabouços para trazer a paz à população de Algol. O enredo é simples, porém muito bem explorado.
Logo na tela inicial você já vê diferenças do original.


Pouco após a introdução, ao navegar pela cidade inicial ou o mapa-múndi, vemos o que quiseram alcançar com esse jogo. Quem não conhecia a versão original pode imaginar que o jogo era para Mega Drive e não Master System, já que seus gráficos lembram bastante os jogos feitos na era 16-bits. Mesmo com a qualidade e poder de processamento do PS2, a ideia foi de manter o espírito e jogabilidade originais, mantendo a visão superior em terceira pessoa em 2D. A ideia inicial da SEGA era utilizar gráficos no estilo SD (super deformed), o que deixava os personagens mais caricatos. Reclamações dos fãs por essa versão inicial os levaram ao estilo de desenho mais sério.
Essa era a versão beta que acabou recusada. Os personagens SD não agradaram.


Já os combates e calabouços ficaram muito melhores nessa versão, aproveitando bem o poder gráfico do PS2. Em ambos a visão do jogo se alterava para primeira pessoa. Os combates ficaram muito melhores, já que a versão original não conseguia exibir muitos inimigos ao mesmo tempo, te dando a impressão que você estava matando a mesma coisa quando encontrava um grupo grande de inimigos. Já os calabouços te passam uma sensação maior de imersão, já que tanto a iluminação quanto os corredores são mais realistas. O jogo original simulava um efeito 3D nos corredores utilizando perspectiva e visão em primeira pessoa para tentar alcançar o mesmo efeito.
É bem mais fácil planejar suas ações quando você vê todos os inimigos na sua frente!

Contando de maneira diferente

A história base não foi alterada, e novamente teremos Alis, Myau, Odin e Noah lutando contra a opressão do rei Lassic e seus servos. Porém, muita coisa de como ela flui foi alterada. Tudo continua acontecendo lhe apresentando imagens fixas enquanto o texto desenvolve as ações, assim como na versão de Master System, porém com as imagens muito mais bonitas. Todas as cenas foram retrabalhadas, dando um toque mais bonito e muitos mais detalhes a elas.
Fica muito legal acompanhar a história com as cenas criadas para essa versão.

Uma das adições mais legais e interessantes ao jogo é a opção de conversa no menu principal. Ao escolher essa opção, os personagens do grupo conversam entre si sobre os últimos acontecimentos e o que deve ser feito na sequência. Isso é bem útil para te posicionar no que você deve fazer agora caso tenha esquecido ou perdido parte da história. Também é interessante para conhecer mais dos personagens e seu relacionamento, dando mais profundidade à historia.
Assim como ver o grupo conversar entre si te mostra a personalidade de cada um.

Algumas partes da jogabilidade e avanço da história também foram alteradas, mudando a ordem, ou com quem você necessita falar para avançar no jogo. Isso acontece logo de cara em uma parte que você precisava comprar um passe de maneira ilegal. No original, você precisava conversar com o vendedor e escolher um item listado como secreto. Após insistir algumas vezes, ele aceitava lhe vender. Aqui não existe o item na lista de produtos do vendedor, e só depois de voltar algumas vezes na loja o item aparece na lista de produtos a serem vendidos.Parece pouca coisa, mas pode ser estranho para quem se acostumou com o enredo original.

Reajustando a dificuldade

Phantasy Star era um jogo difícil, que pedia uma enorme dedicação do jogador. Tanto que não estranho morrer diversas vezes, mesmo no começo da história. A cada nova área os monstros ficavam bem mais fortes, então era necessário acumular níveis antes de prosseguir. E proceder nos calabouços podia virar uma enorme dor de cabeça, já que eram grandes e não possuíam um mapa. Ou você desenhava num papel os corredores ou dependia de alguma versão impressa de uma revista ou guia, ou jogava tanto até memorizar, na base da tentativa e erro.
Nada de morrer para as moscas no começo. Mas os escorpiões ainda são perigosos!

Muito mudou aqui, já que logo de cara um jogador veterano repara que os monstros não são tão fortes como antes. Os personagens tiveram seus valores de força, defesa e magia reajustados para cima, algumas habilidades ficaram mais fortes, e ganhar níveis ficou mais rápido no geral. Até dinheiro inicial melhorou, já que você começa com mais de dez vezes que o original, podendo comprar equipamentos e itens logo de cara. E explorar calabouços ficou mais fácil com ajuda de itens que gravam um mapa automaticamente enquanto você o explora. Nunca mais se perca e fique preso dentro deles!
Um mapa com marcações ajuda muito por aqui!

A briga com a SCEA

Mesmo com Phantasy Star sendo um clássico que marcou a infância de muita gente nas Américas e Europa, o remake nunca chegou nesses continentes oficialmente. E isso se deu principalmente por uma atitude ruim da SCEA (Sony Computer Entertainment America), seu braço norte-americano, na época de seu lançamento. Segundo a própria, lançar títulos com gráficos 2D não era compatível com a imagem que a empresa tentava passar de que o PlayStation 2 possuía o melhor processamento gráfico e portanto ela não autorizava a publicação de jogos assim para seu sistema.

E mesmo assim tentaram encontrar uma solução. A SCEA costumava deixar passar coletâneas com diversos jogos, então iriam lançar um pacote com os remakes de Phantasy Star, Phantasy Star II e Phantasy Star IV para o Ocidente. Tanto que assinaram um acordo com a empresa Conspiracy Entertainment para distribuir a coletânea deste lado do globo. O problema é que o remake de Phantasy Star IV nunca foi lançado, ao ponto de o acordo de distribuição feito com a Conspiracy ter vencido no mínimo desde 2009. Atualmente, a SEGA teria o direito de distribuir tanto o remake de Phantasy Star como de Phantasy Star II no Ocidente, mas nunca o fez.

Isso tudo ainda levanta algumas questões: Por que a SEGA precisaria de uma empresa para distribuir o jogo, sendo que ela possui estrutura e distribui diversos jogos no Ocidente? E por que a SEGA não considerou lançar os remakes no Ocidente até hoje, mesmo vendendo as versões originais via coletâneas ou lojas online como o Virtual Console do Wii? Essas dúvidas acho que nem o tempo vai saber responder.
No Japão tanto o remake do primeiro como segundo Phantasy Star estão disponíveis via PSN para usuários do PS3 desde agosto de 2014. Uma pena que só por lá

Um trabalho bem feito

Diferente de outros remakes como Final Fantasy IV e Chrono Trigger para DS, não houve adição de mini-games ou atividades que fogem totalmente da história original. O foco aqui foi revisitar a experiência vivida em Phantasy Star e isso foi realizado de uma bela maneira. Alguns fãs não gostaram da dificuldade mais simples ou de versões remixadas das músicas originais apresentadas aqui. Mas é difícil negar que essa versão é um ótimo modo de contar ou começar sua experiência por Algol. Até a barreira do idioma é possível de ser quebrada, com diversos guias e até mesmo um grupo tentando traduzir o jogo do japonês para português. Uma pena que tenhamos que depender de lançamentos dos fãs para aproveitar um ótimo jogo.




Revisão: Alberto Canen 
Capa: Wellington Aciole

Vinicius Eleno é formado em Administração de Empresas pela USP, e mestre em cultura inútil pelas experiências de vida. Desde 1993 gosta de explorar o mundo dos games em seu tempo livre. Pode ser encontrado reclamando da vida no Facebook e Twitter.

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