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Análise: Gran Turismo Sport (PS4) possui jogabilidade gostosa em um pacote incompleto

O mais novo exclusivo do PS4 oferece boas corridas online, mas carece de uma experiência solo satisfatória e com sensação de progresso verdadeira.


Beleza não põe mesa. Esse ditado segue me acompanhando por muitos anos, e em muitas ocasiões pude usá-lo para descrever um game. De certa forma pude usá-lo novamente com Gran Turismo Sport (PS4), o novo capítulo da franquia de simulador de corrida da Polyphony Digital lançado exclusivamente para o console da Sony.

Começando pelo básico: o modo Campanha


Gran Turismo Sport, desde seu anúncio, ficou carregado de ceticismo de seus fãs por ter uma proposta voltada para um ambiente online competitivo, podendo, assim, vir a prejudicar uma experiência solo que há muito tempo se solidificou como uma das mais completas nos jogos de corrida. Infelizmente, os medos dos fãs se concretizaram e muito do que tornava Gran Turismo uma jornada prazerosa de se jogar sozinho se foi. O que temos agora são três modos principais para uma Campanha: a Escola de Pilotagem; o modo Missões e o modo Experiência de Circuito.

A Escola de Pilotagem serve como introdução aos conceitos básicos e intermediários de direção, introduzindo o jogador ao mundo dos veículos automotores de maneira didática, detalhada e, por vezes, desafiadora. Aceleração, frenagem, curvas fechadas e muitas outras lições são passadas ao jogador para que ele entenda e aprenda a dirigir em diversos tipos de pistas e pilotando carros diferentes. O modo Missão, por sua vez, consiste em objetivos variados que ocorrem em pistas e carros de categorias diferentes. Tais desafios podem ir de simples ultrapassagens de carros até finalizar uma corrida em uma determinada posição, e quanto mais alta for a categoria, mais difícil o desafio será. Já o modo Experiência de Circuito oferece a chance de buscar os melhores tempos nos setores de uma pista e, por fim, buscar bater os melhores tempo de volta na pista inteira. É a principal forma de conhecer uma pista de maneira completa, e é a oportunidade do jogador de estudá-la e dominá-la para então buscar vitórias e disputar de maneira igual contra outros jogadores.



Embora os três modos de jogo citados oferecerem uma gama de conteúdo respeitável e desafiador, o senso de progresso obtido em tais modos não se compara a uma campanha mais, digamos, tradicional. Iniciar uma carreira em categorias de carros mais fracas, obter vitórias para ganhar mais dinheiro e subir de nível pode ser visto como algo “clichê” talvez, mas é tão divertido que faz uma falta absurda aqui. E mesmo que para obter as medalhas de ouro em todos os eventos possa levar uma boa quantia de horas (entre 15-25 horas, aproximadamente, pois é altamente dependente da habilidade do jogador), tais medalhas me soaram mais como um mérito do que como um progresso verdadeiro.

O espírito esportivo

Para poder competir no modo Sport, o principal modo online do game, é preciso assistir dois vídeos que falam um pouco sobre o automobilismo como esporte e competição e sobre lições de etiqueta para corridas. Temos aqui o que o jogo mais prega: o espírito esportivo. “Dirigir é para todos”. Se é para todos, então é claro que teremos todos os tipos de jogadores competindo contra nós: veteranos e novatos; passivos e agressivos. Para que a corrida aconteça de maneira saudável, dependemos altamente do comportamento de todos os jogadores. Para isso, temos um medidor de comportamento do piloto dentro do game, chamado Classificação Esportiva (CE) e quanto melhor nos comportarmos, sem causar acidentes e tocar em outros carros, melhor nossa classificação será e seremos colocados contra jogadores de comportamento semelhante. Minhas primeiras corridas online foram repletas de pilotos que não freavam em curva fechadas e simplesmente passavam como um míssil, me empurrando para fora da pista e fazendo o jogo creditar mau comportamento a mim.

Automobilismo não é um esporte de contato e foi GT Sport que me disse isso (apesar de ser óbvio). Para mim, as corridas online se tornaram uma oportunidade de aproveitar a acessível e deliciosa jogabilidade do game. Mesmo que eu quisesse ganhar as corridas, minhas ações dentro das partidas foram todas voltadas para o respeito aos outros corredores. Algumas vezes deixei que de ultrapassar ou que me ultrapassassem apenas para evitar que meu carro colidisse com de outro piloto. Meus prêmios em dinheiro foram menores, mas ao menos me diverti, buscando melhorar meus tempos dentro das partidas e finalizá-las na melhor colocação possível.

O modo Sport 

O modo Sport oferece corridas competitivas online diárias e a chance de participar em campeonatos mundiais oferecidos em parceria com a Federação Internacional de Automobilismo (FIA), a Taça das Nações e a Taça de Montadoras.

Três opções de corridas diárias são oferecidas, cada uma ocorrendo em um circuito diferente. Elas acontecem em horários pré-definidos, contando com um período de inscrição de 15 minutos antes do início de cada evento. Na versão de testes beta, as corridas diárias aconteciam de 20 em 20 minutos, mas aqui, o início se dá de cinco em cinco minutos, oferecendo um tempo menor de espera entre um evento e outro. Todos os dias recebemos uma meta de quilometragem diária a ser cumprida, e finalizá-la nos recompensa com um veículo. E acabou. Sim, abrupto, não? GT Sport nos dá apenas uma meta diária a ser cumprida, e a mesma pode ser finalizada em pouco tempo. Onde está a variedade nisso? Não faz sentido. É preciso expandir o número de objetivos diários para convencer os jogadores a retornar.



Os campeonatos mundiais online, as Taças de Montadoras e das Nações, ocorrem em datas específicas programadas pelos desenvolvedores e são a chance de permitir que o jogador desfrute de competições reais. As corridas premiam os jogadores com pontuações que vão para o ranking mundial e darão a chance dos melhores de competir nas semifinais e, consequentemente, as finais e disputar a taça de campeão. As corridas são divididas em três etapas: Treino Livre, Treino Classificatório e Corrida. Minha primeira corrida foi extremamente satisfatória, com uma pole position e uma vitória em uma experiência tranquila e fluida, sem corredores agressivos que ficavam batendo em meu carro por qualquer razão.

Eu gostaria de poder ter selecionado qual nação eu defenderia durante a Taça das Nações, mas infelizmente minha “nacionalidade” é decidida a partir do país de origem da minha conta cadastrada na PlayStation Network. Logo, eu defendi os EUA, e 80% dos corredores contra quais pilotei também “eram” americanos. Nada problemático, mas o game poderia oferecer uma chance de decisão única para o jogador selecionar qual país ele gostaria de defender.

Seleção de veículos

Os 162 veículos de GT Sport são divididos em categorias, que vão das categorias básicas N100 e N300, passando pelas Gr.4, Gr.3 e Gr.1 e chegando a Gr.B e Gr.X. As categorias “N” oferecem os veículos mais básicos presentes em GT Sport; Gr.4 é a categoria de iniciantes e Gr.3 a categoria principal, baseada na categoria GT3 da FIA; Gr.1 é onde encontraremos os carros mais velozes e que comumente disputam provas como as 24 horas de Le Mans, e também são conhecidos na vida real como veículos protótipos. A categoria Gr.B oferece a chance de pilotar veículos em provas de rally e a Gr.X. que compreende veículos que não se encaixam nas outras categorias, como karts.

Nota-se uma diminuição pesada do número de veículos, mas há um motivo plausível para isso. Os veículos de GT Sport foram construídos e planejados originalmente no PlayStation 4, utilizando todo o poderio da máquina da Sony. O que temos aqui são 162 veículos minimamente detalhados e magnificamente belos, fidedignos de uma maneira não antes vista em Gran Turismo. Em iterações de GT no PS3, por exemplo, tínhamos uma mescla de carros de PS2 com de PS3, criando uma disparidade entre a qualidade visual de alguns veículos.

Scapes: brincando de fotógrafo

Possivelmente um dos melhores modos de fotografia que veremos em um game. Scapes oferece a chance de mesclar os carros criados com os gráficos do jogo com as paisagens e pontos turísticos fotografados especialmente para o game. São inúmeras paisagens, indo do centro urbano de Shibuya, no Japão, aos cânions americanos, nos EUA. Cada cartão postal possui uma descrição própria com informações e curiosidades sobre o local. É possível editar a composição da foto, desfoque de movimento, efeitos de luz, exposição, coloração, dentre outras opções. Dependendo de como editamos a foto, é possível criar imagens que nos fazem acreditar que aquele veículo digital é, de fato, parte da realidade. É simplesmente lindo.



Beleza e defeitos que saltam aos olhos

Não se engane: Gran Turismo Sport é um jogo belíssimo. Pistas e carros se mesclam em um nível altíssimo de detalhes, indo desde os reflexos nos veículos até à torcida na arquibancada. Passamos por circuitos famosos como Nurburgring, Interlagos e percorremos o centro urbano de Tokyo, e seja de dia ou de noite, é prazeroso correr em alta velocidade por cada curva presente no game. Ainda assim, toda qualidade gráfica, principalmente de texturas, reflexo e iluminação não chegam sem um custo. Sombras e detalhes de objetos que surgem apenas quando estamos bem próximos não é algo incomum, e chegou a tirar minha atenção em alguns momentos por seu algo bem visível; serrilhados nos veículos durante as corridas também são facilmente notáveis e, apesar de não prejudicarem a ponto de estragar a qualidade visual geral do game, eles estão ali. Em compensação, o game roda a 60 frames por segundo sem qualquer problema, mesmo em pistas com quantidade máxima de 24 jogadores. É válido ressaltar que o game foi testado em um PS4 Pro em conjunto com uma tela 4K.



Gran Turismo Sport foi concebido como uma experiência online. Não posso dizer que fui enganado, pois de fato o game é voltado para sua experiência no modo Sport, com todos os outros modos servindo apenas de complemento, inclusive o modo Arcade e multiplayer em tela dividida. Ainda assim, não é esse tipo de experiência que a série está acostumada a entregar. Precisava ser mais completo, principalmente quando pensamos em seus modos solo, que não oferecem exatamente muito ao jogador, evitando um senso de progressão comum em outros jogos da série. Além disso, para se divertir é preciso seguir o “espírito esportivo” e contar que os outros jogadores também sigam, e todos sabemos que não é exatamente ideal depender de outros para nossa diversão.

A jogabilidade, por outro lado, é ótima e facilmente adaptável para novatos ao mesmo tempo em que oferece uma boa dose de liberdade e customização para veteranos e aficionados por carros. A qualidade gráfica é de alto nível mesmo contendo alguns tropeços, mas que podem ser ignorados graças à experiência fluida oferecida durante as corridas e eventos. Este não é o Gran Turismo perfeito, e talvez nem mesmo almejasse ser. Não oferece a experiência de um jogador que eu gostaria que oferecesse, mas cumpre, ao menos em partes, a promessa de ser uma experiência online competitiva e satisfatória, ainda que haja espaço para melhoras.

Prós

  • Qualidade gráfica dos veículos e das pistas, ambos com níveis de detalhes absurdos;
  • Fluidez das corridas;
  • Jogabilidade suave e prazerosa;
  • Corridas online divertidas quando ocorrem entre jogadores respeitosos;
  • Acessível e complexo ao mesmo tempo.

Contras

  • Sensação de progresso limitada;
  • Pop-ins de sombras e detalhes de objetos, além de serrilhados nos carros durante as corridas. são pequenos tropeços gráficos;
  • Baixa quantidade de veículos quando comparado a outros games da série;
  • Motivos para retornar ao game diariamente para competir ainda são poucos.
Gran Turismo Sport – PS4 – Nota: 7.0
Revisão: Ana Krishna Peixoto 


Francisco Camilo é formado em Serviço Social pela PUC-MG e até hoje não entende a verdadeira razão de ter feito tal curso. Apaixonado pelo mundo dos jogos eletrônicos, tem em sua mente um futuro ideal cuja existência é incerta e o leva a questionar se o que imagina é parte de um sonho ou ilusão. Pode ser encontrado aqui principalmente em análises e buscando troféus na PlayStation Network.

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