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Análise: Collar X Malice (PS Vita) — crimes e mistérios na medida certa

Visual Novel traz uma boa trama de investigação e personagens bem construídos.

Quando peguei Collar X Malice para jogar com o intuito de escrever essa análise, confesso que não fazia muita ideia do que esperar. Seria minha primeira visual novel “raiz”, em um estilo ao qual não sou muito familiar. Já escrevi sobre Tokyo Twilight Ghost Hunters, mas ele tem uma pegada bem diferente. Particularmente, gosto desse tipo de situação, pegar algum jogo ao qual não está na minha zona de conforto, conhecer novos ares. Apesar de novels ainda não serem meu estilo favorito, encontrei aqui um título bem interessante que conseguiu prender minha atenção.



Um dos principais pontos fortes de Collar X Malice é sua trama e a forma como a narrativa é conduzida. Tudo se passa no distrito de Shinkuju, na cidade de Tóquio. Desde o mês de abril um grupo terrorista que clama por limpar o Japão da injustiça passa a cometer assassinatos para demonstrar que os culpados pagarão por seus crimes. Ao mesmo tempo, cada incidente é uma contagem até o X-Day, dia que supostamente seria o ponto da virada para esses terroristas.

Após três meses seguidos sem qualquer suspeita de quem seriam os criminosos, e motivados pelo maior ataque do grupo até então (várias pessoas foram assassinadas em dias e pontos específicos), o governo instituiu quarentena no distrito, ninguém mais sairia ou entraria de lá até que os crimes fossem solucionados. Ao mesmo tempo, uma lei emergencial foi criada permitindo que todos os cidadãos maiores de idade pudessem portar uma arma de fogo para defesa pessoal (vale lembrar que no Japão existe uma lei que proíbe que pessoas comuns tenham uma arma).


Passa o tempo e estamos no começo de dezembro, faltando um mês para o X-Day. A protagonista da história é a policial novata Ichika Hoshino. Após um chamado, ela acaba sendo capturada por esse grupo terrorista, que coloca em Hoshino um colar equipado com um veneno letal. Para se safar, a policial deveria investigar descobrir a verdade, mas sem jamais contar sobre isso para a polícia, ou então seria sumariamente executada. Aí você se pergunta “ué?”, por que uma organização criminosa ameaçaria uma pessoa para investigar seus atos? Tentar encontrar uma solução para todos esses crimes e mistérios é o que torna o jogo tão cativante.

Além de uma história interessante, os personagens centrais de Collar X Malice também são um ponto do jogo que merece destaque. Em sua maioria carregam dúvidas, inseguranças e convicções que dão vida a eles, os tornam reais e fica fácil se importar com eles. A começar pela própria Hoshino, que está bem no meio do turbilhão de fatos que acontecem ao mesmo tempo e que tem que lidar com problemas de confiança — tanto saber em quem confiar, como mostrar que ela mesma tem seu valor —, família e relacionamentos. Ainda assim, ela não é somente um agente passivo, se arriscando e eventualmente até batendo de frente com outros personagens, algo que no começo você não acha possível.


Collar X Malice faz parte do selo Otomate da sua desenvolvedora Idea Factory, o que o enquadra dentro das visual novels do estilo otome: jogos com público alvo primário feminino e que geralmente trazem uma protagonista que terá alguns potenciais interesses românticos ao longo da história ao mesmo tempo que a trama principal se desenvolve. No nosso contexto os potenciais “husbandos” são um grupo de policiais e ex-policiais que está investigando os crimes por conta própria, cada um com seus motivos.

Inicialmente todos parecem mais estereótipos clichês do gênero: o líder, o bobalhão, o malvado (leia: tsundere), etc. Porém, conforme você interage com cada um do grupo, vai os conhecendo melhor e percebendo que há mais camadas de personalidade não perceptíveis no primeiro momento. E provavelmente você vai encontrar aquele que faz mais o seu estilo ao mesmo tempo em que tenta resolver esse mistério.

Falar muito mais sobre eles talvez seja entregar alguns spoilers e parte da graça é exatamente desvendar essas outras pessoas, quais suas relações com os terroristas e saber a verdade por trás de tudo. E digo mais: não é porque o jogo está no grupo de “otome games” que deve ser desmerecido para quem não é fã da categoria: existem várias passagens muito interessantes, principalmente quando os dramas pessoais são colocados sobre a mesa. Não tem nada de “novela da Globo” aqui e sim uma história de suspense e mistério muito bem feita.

Minha única reclamação quanto ao jogo é que por vezes ele te pega muito pela mão, perdendo a chance de dar opções ao jogador em alguns momentos, somente seguindo em frente com o diálogo. Por algumas vezes quando a protagonista é questionada de algo, Hoshino já responde na hora, mesmo em momentos nos quais seria interessante dar ao jogador a opção de qual rumo seguir naquela situação.


Desvendando o mistério

Collar X Malice é uma ótima Visual Novel, com uma história interessante e que vai aos poucos se mostrando ainda mais instigante, conforme suas escolhas e como os outros personagens respondem às suas decisões. Se agradou a mim, que mal conheço do gênero, acredito que deve ser uma boa pedida para quem está mais familiarizado com o estilo. De acordo com o desenvolvedor, o jogo tem de 30 a 40 horas de duração, então é material para bastante tempo. Com ótimas ilustrações, só peca por perder algumas oportunidades de dar a escolha na mão do jogador, tornando alguns trechos de diálogos mais extensos do que deveriam.

Prós

  • Narrativa instigantes;
  • Protagonista carismática;
  • Desenvolvimento de personagens;
  • Artes muito bonitas.

Contras

  • Algumas oportunidades perdidas de tomadas de decisão.

Collar X Malice — PS Vita — Nota: 8.5

Revisão: Ana Krishna Peixoto

Flávio Augusto Priori é formado em design de jogos e tenta ganhar a vida com esse negócio chamado video game. Para ele Metal Gear é a melhor série já feita e ainda acredita na volta da SEGA. Escrevia para o saudoso Minha Tia Joga LoL e hoje pode ser achado no Facebook e no Twitter.

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