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Análise: God of War (PS4) supera expectativas com uma brilhante evolução da franquia

O novo e esperado capítulo de Kratos tem mais profundidade, novas mecânicas e uma total reinvenção da série!

A espera finalmente terminou! Um dos jogos mais aguardados do ano chegou com toda a glória e a responsabilidade de retomar uma franquia que, desde 2010, não tinha mais caminhos futuros. Com isso, temos em mãos God of War (PS4), o retorno de Kratos em uma aventura que, além de ter o peso de continuar uma história que supostamente já havia terminado, também tem o peso de modificar várias mecânicas que eram a raiz do jogo. Será que foi possível dar conta de tanta responsabilidade e peso?


Pois bem, sem lugar para fortes emoções (pois o jogo já garantiu todas elas) deixo aqui que sim, o novo God of War supera todas as expectativas. Com mecânicas sólidas e a adição de narrativas que antes não existiam na série, o novo capítulo da saga de Kratos faz muito mais do que apenas reviver a franquia, ele expande, acrescenta, inova e, sem dúvidas, melhora tudo que já havia sido feito antes. Sempre com respeito aos fãs e à obra original. Mas vamos mais devagar e falar melhor sobre o game.


God of War 1 ou 4?

Uma dúvida que assolou muitos era onde se encaixaria este novo God of War. Até muito próximo ao lançamento não era exatamente claro se este Kratos barbudo era um personagem mais velho ou uma entidade paralela ao Kratos espartano. Entretanto, eis que temos o fato de que o novo God of War segue a história à  risca do que aconteceu na trilogia original.

Aqui, anos após a queda do Olimpo, Kratos vive entre mortais muito mais ao norte. Somos apresentados a seu filho, Atreus, logo no início da jogatina, onde presenciamos o funeral da mãe do garoto. God of War é ao mesmo tempo uma continuação e um recomeço. Isso é o ponto mais brilhante de sua narrativa e, por isso, seu título abandonou qualquer tipo de numeral.

Aqui, temos um Kratos mais velho, mais sábio e muito menos impulsivo. O Deus da Guerra começa a não só ter o peso da idade nas costas, mas também o peso de todos os erros que já cometeu. Sem muita didática ou apresentações exageradas, começamos então a nos envolver com a história através de mecânicas de jogo muito bem boladas. Atos simples como cortar um tronco de árvore ou guiar um barco começam a nos inserir na história paulatinamente.

Menos combos, mais RPG

God of War sempre foi conhecido por seus aspectos Hack and Slash. Muitos inimigos, combos rápidos se acumulando e sangue para todos os lados. Entretanto, uma das inovações do novo capítulo da série foi reformular completamente este sistema de combates. Portando o Machado Leviatã, temos mais controle do que fazemos durante os combates, bem como ficamos muito mais imersos neles, como o novo sistema de câmera bem mais imersivo.



Para além das mecânicas práticas de combate, temos todo um sistema de níveis, habilidades e runas que dão ainda mais complexidade para os combates. Se antes acumulávamos pontos para liberar novos combos ou habilidades de Kratos, agora fazemos isso e mais um pouco. Runas liberam habilidades opcionais para cada arma, assim como temos também toda a árvore de habilidades de Atreus, que serve como um suporte muito útil para Kratos durante os combates.

Os anões ferreiros da mitologia nórdica também se encaixam muito bem com a mecânica de evolução das armas e equipamentos. Os irmãos separados por uma briga auxiliam sempre com melhorias para nossas armas, liberam armaduras novas para Kratos e Atreus e possibilitam um sistema de comércio nunca antes visto na série. Com isso, abre-se a oportunidade de incluir itens coletáveis no mapa próprios para acumular experiência e recursos. Tudo funciona muito bem em conjunto, como uma balança perfeitamente equilibrada que deixa a experiência da luta muito mais complexa, personalizada e divertida.


Foco total na narrativa

Nunca antes em toda a série de God of War vimos uma construção de personagens tão boa como vemos agora no reinício da série no PS4. Mesmo que jogos anteriores como God of War: Chains of Olympus (PSP) ou God of War: Ghost of Sparta (PSP) tenham melhorado um pouco a narrativa da série contando mais detalhes do passado de Kratos, sempre vimos o personagem como um guerreiro brutal assolado por seus erros do passado e em constante busca frenética por vingança.

Entretanto, o início da saga nórdica do espartano apresenta já nos primeiros minutos de jogo uma profundidade do personagem nunca antes vista. Aqui podemos ver claramente que o Santa Monica Studio fez seu dever de casa e teve influências consideráveis de jogos como The Last of Us (PS3) e até Hellblade: Senua’s Sacrifice (Multi). Ao mesmo tempo que a ambientação nórdica é belíssima em seu visual e sons, a relação entre Kratos e Atreus é, sem dúvidas, comparável a Joel e Ellie, do game da Naughty Dog.



Claro que temos também o peso das animações feitas por captação de movimento. A performance do personagem é muito mais humana, com expressões faciais que traduzem claramente seus sentimentos, o peso de suas falas e de seus conflitos. Mas tem algo mais, um trato mais apurado com a história em si que deixa toda a experiência muito mais profunda. A Sony entendeu que os jogadores que conheceram Kratos lá em 2005 com o primeiro God of War (PS2) cresceram e amadureceram. Chegou a hora então da história amadurecer junto e isso foi um acréscimo excelente para a franquia como um todo.

Mundo aberto? Nem tanto assim

É verdade que o novo God of War possui mecânicas de mundo aberto que dão muito mais liberdade para os jogadores. Além disso, diversas missões opcionais e até bosses estão presentes por todo o mapa do jogo, juntamente com colecionáveis e easter-eggs secretos. Entretanto, o game não é tão aberto como alguns podem vir a pensar.



A ambientação do jogo lembra bastante o esquema de jogos como The Legend of Zelda: Ocarina of Time (N64), que possuía um grande mapa todo interligado que apresentava diversos desafios e missões secundárias passíveis de serem executadas ou não pelo jogador. Entretanto, o mapa era muito bem delimitado e estruturado, sem opções de sair andando na direção que você quiser, além de ter espaços destravados só após determinados acontecimentos do jogo.

É exatamente assim que o mundo de God of War se estrutura também. Não vá jogá-lo esperando algo como The Witcher 3: Wild Hunt (Multi) ou The Legend of Zelda: Breath of the Wild (Wii U/Switch). Aqui temos sim bem mais liberdade de por onde ir e o que explorar do que nos games anteriores da série, tirando boa parte da linearidade pela qual a franquia era bem conhecida. Porém, não podemos chamar essa ambientação de um mundo aberto.



Isso porque você não pode pular de qualquer lugar para ir até o lago, não consegue cortar caminhos, armar emboscadas ou coisa parecida. Nem de queda você morre, basicamente. Isso está longe de ser um problema no jogo, pois ele funciona muito bem do jeito que é. Mas é bom esclarecer isso para que o hype não cegue o jogador e ele vá viver a nova aventura de Kratos esperando um novo The Witcher.

Na verdade, o que temos é uma história linear incrível, com muitos desafios e variedade de mecânicas de jogo. Só que, como uma cobertura muito boa desse bolo, temos também missões secundárias, itens secretos e bosses que aumentam a longevidade do título, deixando a história que pode ser completada com cerca de 12 a 15 horas de jogatina ser apenas uma parte da experiência, podendo ter uma vida útil de mais de 40 horas tranquilamente.


Início contido de algo maior

Com mecânicas de jogo brilhantes, imersão incrível e narrativa envolvente, God of War está tranquilamente entre os melhores jogos que a franquia já viu, assim como também é um dos melhores games de 2018 até agora. Entretanto, é preciso levantar alguns pontos que não são exatamente defeitos, mas que deixam um gostinho de “podia ser mais” durante o jogo.

Para início de conversa, a construção do antagonista da história, o deus nórdico Baldur é brilhante, mas podia ser mais ainda. Isso porque o conflito do deus e suas motivações ficam claras ao longo da jogatina, mas demoram um pouco demais para serem explicadas para o jogador. Isso não atrapalha a experiência como um todo, mas pode fazer alguns perderem um pouco o interesse pela jogatina pelo meio da experiência.



Já seus bosses são bem poucos se comparados com jogos anteriores. Claro que depois da conclusão épica e apocalíptica de God of War III (PS3), fazer algo minimamente à altura seria uma tarefa muito difícil, o que poderia inclusive estragar a narrativa do jogo, deixando-a corrida demais. Nesse sentido, o novo God of War é bem mais contido do que os últimos títulos, com bosses bem mais coadjuvantes na mitologia nórdica do que comumente víamos até então na franquia (ora, no primeiro jogo da saga matamos o deus da guerra!).

Porém, esse início de uma nova fase da franquia, mesmo sendo contido, é muito sólido e deixa bons frutos para o futuro. Explicações vindas do personagem Mimir, colocadas como detalhe no jogo, dão um pano de fundo sensacional para figuras como Thor, Odin, Tyr, Mimir e Ymir, assim como cita também boas referências como Ragnarok, Asgard e até Loki, que pode vir a ter  uma importância interessante na história.


Novos ares para a franquia

Por fim, podemos dizer que God of War (PS4) é tudo que um jogo que renova uma franquia deveria ser. Ele constrói uma nova narrativa, uma espécie de prelúdio de algo grandioso que está por vir, mas sem fingir que o passado nunca existiu. Novos personagens são apresentados enquanto os antigos ainda são lembrados. Mas nada de se apoiar em nostalgias, aqui o Santa Monica Studio não teve medo de inovar, além de ter inovado nos lugares certos.

As mecânicas de RPG foram um excelente acréscimo para a experiência do jogo, assim como as novas mecânicas de combate e até a nova arma, que sem dúvidas já caiu na graça da maioria. Além disso, Kratos está muito mais envolvente do que outrora, com uma profundidade ímpar que dá a ele a alma que ele não tinha em jogos passados. Além disso, Atreus consegue brilhar como filho do ícone, tendo um espaço crucial no jogo e auxiliando inclusive com mecânicas de combate inovadoras.



Assim, apenas cabe dizer que revisitar o mundo antigo e novas mitologias aos olhos de um Kratos mais maduro e respeitoso foi um dos pontos altos do mundo dos games em 2018. Se ele vai receber o tão famigerado prêmio Game of the Year? Só o tempo dirá. Mas independente de qualquer congratulação excessiva, God of War é sólido, envolvente e competente em absolutamente tudo que promete (e até um pouco mais).

Prós

  • Visual fantástico e trilha sonora épica;
  • Narrativa sensacional dá mais vida ao protagonista;
  • Novas mecânicas de combate excelentes;
  • Aspectos de RPG melhoram muito a experiência;
  • Missões secundárias aumentam a longevidade do título;
  • História promissora, sólida e bem construída;
  • Personagens carismáticos e diálogos envolventes;
  • Reinvenção benéfica para a franquia.

Contras

  • Demora de algumas explicações podem desmotivar;
  • Mestres de fase pouco icônicos.
God of War — PS4 — Nota: 10
Revisão:João Paulo Benevides
Colaboração: Francisco Camillo
Análise produzida com cópia física cedida pela Sony
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

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