Crônica

Xenogears (PS): uma hora de jogo, anos de memórias

Relembre esse importante RPG do PlayStation.

Não sei vocês, mas acho muito difícil tomar coragem para experimentar novamente alguma obra que, em nossa memória, é demasiada importante. Imaginem então uma que você considera a sua preferida em determinada mídia. Há muitos anos atrás eu vi um filme chamado Amarcord, e mesmo tendo visto tantos filmes incríveis ao longo do tempo, ele permanece na minha cabeça como o melhor que vi. Também fico nesse impasse em relação ao romance Anna Karenina, que li muito jovem, sobrando o medo de relê-lo e enfim descobrir que tantos outros autores e histórias irão retirá-lo desse pódio imaginário e imaginado.


Nos games, minha mídia favorita, também tenho um jogo que figura na memória como o "meu preferido de todos os tempos". Imaginem, então, o peso que uma nova incursão em Xenogears exerce sobre minhas expectativas e toda a ideia de pessoa (sem qualidades) que eu construí sobre mim. Resolvi encarar, apenas para descobrir, cerca de 50 minutos depois, que meu memory card não funcionava mais.

Entre a terra e o céu...

Eu lembro razoavelmente bem de todo o enredo do jogo, mas não suas minúcias e muito menos como a narrativa progride, só me recordo de alguns momentos, montando uma lembrança que, assim como o protagonista do jogo, bloqueia aquilo que é negativo e pavoroso. A memória funciona mais ou menos assim, como quem constrói uma sequência aparentemente absurda de acontecimentos, tal qual no filme Amarcord, ou um quadro impressionista, do tipo que o Fei pinta no início do jogo.
A primeira cena, no entanto, é instigante. Uma gigantesca nave espacial que entra, por algum motivo, em colapso. A curta animação traz uma narrativa fechada em si e, ainda assim, completamente ligada à história do jogo, mesmo que pareça algo desconexo. O sacrifício de um capitão para que a nave, agora controlada por algum ser ou entidade, não ataque um determinado planeta. Das ruínas da nave, resta uma mulher.


E, do nada, somos apresentados a um mundo que está em guerra. Kislev e Aveh travam um conflito já antigo, que se vê modificado pela possibilidade do uso de robôs gigantes escavados, frutos de antiga civilização. Kislev ganha a dianteira, por ter mais desses recursos (robôs gigantes) para serem escavados em seu território. Mas Aveh consegue rebater ao receber ajuda de uma misteriosa organização, a força militar Gebler. E na região da fronteira entre as duas nações, está a vila de Lahan.

Dois contos de grande magnitude que, a princípio, nada tem a ver com uma pequenina e pacífica vila, muito menos com seus habitantes. Mas aí me lembro que estamos jogando e conhecendo "a vida de um homem, e de incontáveis outros homens". Também me lembro que uma dessas vidas é a minha, já que muito do que sou, fui, poderia ter sido ou quero ser, dialoga constantemente com a figura que criei sobre Xenogears na minha cabeça.

Obras são objetos, sobretudo, de identificação. Star Wars ou Star Trek? Marvel ou DC? Drummond ou Fernando Pessoa? As coisas que a gente gosta fazem parte daquilo que somos, ou pelo menos daquilo que achamos que somos. É óbvio, espero eu, que essas demarcações não são as mais importantes em uma vida, mas não serem as mais importantes não quer dizer que a importância não exista.


A questão para mim é que revisitar Xenogears, ou qualquer outra daquelas obras que citei, é também revisitar minha própria vida e história. E por falar em história, é senso comum que a de Xenogears é seu ponto forte, e a forma como a narrativa do jogo se inicia me agradou bastante. Saímos de um grande mistério universal, passamos por um conflito geopolítico de escala global, para só então chegarmos à pacífica vila onde vive nosso protagonista, algo que vemos em tantos jogos do gênero (pacíficas vilas onde vive o protagonista).

Protagonista sem memória, jogador com tantas

O primeiro conflito entre robôs gigantes, chamados Gears no jogo, aparece na tela, apenas para depois aparecer na tela de Fei, como uma abstração de sua própria pintura. Logo a primeira NPC já nos conta que o rapaz chegou 3 anos atrás naquela vila, sem memória e carregado por um misterioso homem. E antes de sair da casa podemos ver que existe um casamento sendo preparado, mas não um qualquer: o casamento entre os dois melhores amigos de Fei.

O garotinho que logo será cunhado do noivo invade a casa para conversar com Fei, não sem deixar de demonstrar que não gosta do futuro irmão pela lei. Depois destes diálogos podemos explorar a pequena vila.

A primeira coisa que fiz foi me jogar 3 vezes dentro do poço, tanto para ganhar o primeiro power ring do jogo, quanto para ver as piadinhas envolvendo a palavra em inglês well, o que eu me lembrava perfeitamente, já que estudava inglês na época em que joguei o título pela primeira vez e RPGs eram quase que meu homework.
All is well that ends well.
Conversei com todas as pessoas da cidade, brinquei um pouco com a câmera, vi como eram construídas as casas, os objetos e os personagens. Um visual que permanece competente até hoje, ainda mais considerando que não temos cenários pré-renderizados em Xenogears. Fiquei pensando como o Fei devia, de fato, ter sentimentos por Alice, a noiva. E como os acontecimentos que viriam podem muito bem ser aquilo que o subconsciente de Fei mais queria: acabar violentamente com aquele casamento.

Mas antes de seguir com a história, resolvi me preparar para o momento mais estressante do jogo: o jogo de pedra, papel, tesoura. No caminho me distraí com a relaxante trilha sonora de Lahan, uma música que me remeteu ao trabalho musical de Chrono Cross, também de Yasunori Mitsuda.

Vencer o mini-game nos dá uma das insígnias que serão necessárias para acessar um quarto secreto em Shevat e assim conseguir excelente itens. Vencer o mini-game é, sobretudo, um martírio. É preciso ganhar 5 partidas seguidas e, acredite, essa conta pode variar de 2 minutos até o infinito. Naquela primeira vez que joguei lembro de deixar a TV no mudo e ouvir música, já que aquilo ia demorar. E essa lembrança me transportou para aquele quarto na casa dos meus pais, com aquele sistema de som antigo, no qual eu colocava CDs e até mesmo fitas para ouvir música, e lembrei de muitas das canções que eu escutava. Se pudesse, hoje eu gravaria um fita com uma mensagem para aquele rapaz ouvir.
O chefe mais difícil do jogo.
Respirei fundo, juntei o dinheiro dentro do jogo e pensei; "bom, vou lá salvar, já que tenho que apostar no jogo de pedra, papel, tesoura, é melhor ter um load decente caso ele me rape todo o dinheiro". Foi aí que vi que o memory card não funcionava.

Tirei ele, soprei, soprei dentro do espaço de encaixe. Levantei o PS2, soprei de novo o memory card, troquei de slot 3 vezes, sempre soprando entre uma vez e outra. Ainda assim, o memory card não funcionava.

Foi então que minha incursão, após tantos anos, no mundo de Xenogears foi barrada por uma problema técnico que Hideo Kojima não nos deixa esquecer que não existe nos jogos atuais (ainda que novos problemas técnicos apareçam).

Em breve resolverei esse empecilho, e provavelmente voltarei a comentar de Xenogears. Se uma hora me trouxe tantas memórias, imagina quantas mais não aparecerão ao longo da jornada. Ironicamente, no dia em que a memória do meu memory card sumiu, sumiu também aquele receio de jogar algo tão caro a mim e às minhas memórias, assim como um dia elas, e eu, também sumirão.
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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