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Análise: Darkest Dungeon (PS4/PS Vita) é um RPG denso e estressante

Depois de passar um tempo no PC, o sombrio RPG chega aos consoles da Sony em uma ótima adaptação.

Terror, desespero e frustração definem Darkest Dungeon. Este título indie, que foi um sucesso no Kickstarter e no Acesso Antecipado do Steam, é um RPG com características de roguelike e dungeon crawler, cujos principais diferenciais são as mecânicas de estresse e a dificuldade acentuada. O jogo chega ao PlayStation 4 e ao PS Vita com todo o conteúdo das atualizações para PCs, além de contar com controles adaptados.

Aventurando-se na loucura

Estresse e tensão são as palavras que definem Darkest Dungeon. No papel do herdeiro de uma propriedade decadente, o jogador precisa contratar heróis para explorar os calabouços e expulsar o mal ancestral que assola o local. A temática é claramente inspirada nos trabalhos de H.P. Lovecraft, com criaturas cósmicas horripilantes e um clima forte de desespero e loucura. A ambientação é complementada pela bela e sombria direção de arte, pela trilha sonora e pela incrível narração.

A aventura se divide em dois momentos: administração da vila e exploração de calabouços. No vilarejo, o jogador pode melhorar as instalações, o que dá um senso de progressão na aventura. Há locais para aliviar o estresse dos heróis (a igreja e o bar), uma forja para o fortalecimento dos equipamentos, uma guilda para treinar as habilidades dos personagens, e assim por diante. Também é na vila que recrutamos e administramos os guerreiros.


Já a exploração de calabouços tem fortes características de roguelike e dungeon crawler. Um grupo de quatro heróis deve explorar uma das cinco regiões disponíveis no jogo, sendo que os mapas são gerados proceduralmente, o que garante disposições de salas distintas todas as vezes. Há sempre uma missão, como recuperar itens específicos ou purificar altares corrompidos, mas eu tive a sensação de estar fazendo sempre a mesma coisa depois de um certo tempo — a longo prazo, pode ser que ocorra essa sensação de repetição. O jogo tenta diversificar trazendo detalhes diferentes em cada uma das cinco regiões, como tipos de inimigos e armadilhas. Isso ajuda a abrandar esse sentimento.

Exploração estressante

As masmorras estão infestadas de criaturas assustadoras e os heróis precisam derrotá-las em combates por turnos para avançar. O sistema de batalha de Darkest Dungeon é baseado, principalmente, no posicionamento dos personagens: os ataques disponíveis dependem do local em que o herói se encontra. Sendo assim, pensar com cuidado sobre a formação do grupo é essencial para se sair bem. A mesma regra se aplica aos inimigos, o que significa que é igualmente importante tentar quebrar a formação dos oponentes — há vários ataques que nos permitem movimentar os inimigos e heróis. A variedade de estratégias é imensa, pois o jogo dispõe de 15 classes distintas de heróis, cada qual com várias técnicas à disposição do jogador. Dominar tudo isso é essencial, pois os confrontos são bem difíceis e a morte pode ocorrer por conta de qualquer deslize. O resultado desse conjunto é um sistema de batalha simples, mas repleto de densidade por conta da grande quantidade de opções disponíveis.

Uma característica única de Darkest Dungeon é a profundidade de personalidade e estresse dos personagens. Após passarem por tantos horrores, os heróis mudam permanentemente: muitos enlouquecem com a pressão e adquirem certos males, como fobia a certos tipos de inimigos ou compulsão por algumas atividades (como beber ou roubar, por exemplo). Em alguns casos, o efeito acaba sendo o contrário e a mente se fortalece com características positivas. Todos esses detalhes afetam o desempenho dos personagens nas missões e alteram as suas capacidades de batalha. Sendo assim, um herói é bem diferente do outro sempre, mesmo compartilhando a mesma classe.

Já o estresse é um atributo que precisa ser constantemente administrado. Conforme os personagens exploram os calabouços, eles acumulam essa tensão mental. Caso ela atinja o limite, o herói surta e se torna imprevisível: alguns se recusam a atacar, outros se transformam em masoquistas e se automutilam, há aqueles que aumentam ainda mais o estresse de todo grupo. E isso não é tudo, já que esses personagens podem sofrer um ataque cardíaco e morrer, caso o estresse chegue a níveis extremos. Um herói aflito atrapalha profundamente a missão e provoca uma sensação de tensão constante. Em alguns raros casos, o efeito pode ser o oposto e o personagem ficará mentalmente forte ao invés de surtar, contudo, não é bom contar com isso. Administrar o estado mental do grupo é essencial para sobreviver aos calabouços e é, também, um dos maiores desafios de Darkest Dungeon.


Tensão repetitiva

Administrar tantas variáveis é o que torna Darkest Dungeon interessante. É complicado explorar calabouços, ao mesmo tempo em que administramos a saúde mental dos heróis e tentamos restaurar a vila — tudo isso com uma quantia em dinheiro bem limitada. Confesso que sinto uma grande tensão e estresse toda vez que começo uma missão no jogo, pois sei que há muita imprevisibilidade e nem sempre as coisas saem como o planejado. Sempre fui muito cuidadoso com meus heróis em outros jogos, mas aqui eu tive que ter um pouco de desapego: a morte é tão comum que não vale a pena.

A imprevisibilidade é também um dos maiores problemas do jogo. É frustrante (e também irritante) quando um herói que você passou horas e horas treinando morre para um inimigo comum, pois seus ataques erraram e os golpes do oponente foram todos críticos — como a morte é permanente, todo progresso daquele personagem é perdido. Eu entendo que isso reflete na filosofia do jogo, mas esses picos aleatórios de dificuldade mais chateiam do que deixam as coisas interessantes: é horrível ver a sua estratégia falhar pois o jogo simplesmente decidiu dar a vantagem aos inimigos. Além disso, também acho o título um pouco cansativo e repetitivo a longo prazo por conta da estrutura muito similar entre as missões e da boa quantidade de level grind necessário para treinar os heróis.


Felizmente, as versões para os consoles da Sony incluem todas as atualizações recentes que tentam amenizar essa repetição. Um recurso muito útil é a possibilidade de recrutar heróis de nível mais avançado, o que diminui bastante a necessidade de grind. Há, também, eventos na vila que forçam o jogador a tomar algumas decisões ou que o impedem de usar certas classes de personagens por algum tempo, o que significa pensar em novas estratégias para contornar as dificuldades. São detalhes que não resolvem o problema, mas com certeza deixam tudo mais agradável.

Adaptação complicada

Darkest Dungeon foi lançado anteriormente para PCs e agora foi adaptado para PlayStation 4 e PS Vita. Sempre me perguntei como a interface funcionaria nos consoles da Sony, já que tudo era controlado pela combinação de mouse e teclado. Jogar o título com um controle funciona, mas há alguns problemas que se dão principalmente por dois fatores.

O primeiro deles são os comandos um pouco confusos. Para complicar ainda mais, os botões mudam de função dependendo da janela em que você está: em um momento você confirma ações com X, já em outros é necessário apertar triângulo. A outra questão é que algumas ações são custosas de serem realizadas, exigindo vários passos. Equipar um item em um personagem, por exemplo, é bem confuso e exige segurar botões e abrir menus na ordem certa. Fiquei perplexo ao perceber que a versão de Vita usa o touchpad traseiro, mas não utiliza a tela sensível a toque, com certeza ela deixaria tudo mais intuitivo. Com algum tempo de jogo, você acaba se acostumando com os controles, mas demora para desaparecer a sensação de serem desajeitados.


Outra questão que incomoda é a interface gráfica em si. No PC eu não tive problemas por conta dos controles, mas no console isso não funciona tão bem assim. Acredito que menus mais tradicionais deixariam a experiência mais agradável. Além dos controles com alta curva de aprendizado, o tamanho da fonte é pequeno e dificulta a leitura, principalmente no PS4. A desenvolvedora já está ciente dos problemas com a interface e com os controles e prometeu trazer melhorias para o futuro.

Fora isso, a adaptação está ótima e o jogo roda muito bem nos dois consoles, sendo a única diferença a taxa de quadros, que é menor no Vita. Além do cross buy, Darkest Dungeon também oferece suporte ao cross save — gostei demais de poder continuar minha aventura em qualquer um dos dois consoles.

Um mundo sombrio e viciante

Darkest Dungeon é um RPG denso e que mexe com as emoções. Sempre fiquei tenso ao explorar os calabouços, já que qualquer erro poderia significar a morte. O jogo possui ótimos sistemas, um combate repleto de possibilidades e uma ótima atmosfera, sendo o resultado uma aventura difícil de largar. A adaptação para os consoles da Sony conta com alguns pequenos problemas nos controles e na interface, o que acaba exigindo algum tempo de adaptação, mas uma vez dominados tudo flui bem. Darkest Dungeon é para aqueles que gostam de um bom desafio e uma aventura intensa.

Prós

  • Perfeita atmosfera de tensão, complementada pelo visual e pela música;
  • Muitas opções de estratégia no combate;
  • Sistemas complexos e interessantes;
  • Cross buy e cross save.

Contras

  • Fluxo de jogo carece de variedade;
  • Picos de dificuldade desagradáveis;
  • Interface e controles apresentam alguns problemas.
Darkest Dungeon — PS4/PS Vita — Nota: 9.0
Versões utilizadas para análise: PS4 e PS Vita
Revisão: Érika Honda
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos.

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