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Análise: Heavy Rain (PS3)

Videogame é arte , e isso já é algo inegável. Quando um jogo se presta a contar uma história em f... (por Leandro Fernandes em 02/09/11, via PlayStation Blast)

heavy rain capaVideogame é arte, e isso já é algo inegável. Quando um jogo se presta a contar uma história em forma de um filme interativo, isso se torna uma afirmação óbvia. E se este jogo consegue a proeza de te fazer sentir a dor, a angústia e o desespero daqueles personagens colocando você praticamente na pele deles, vivendo seus cotidianos antes de quaisquer tragédias que possam ocorrer, a questão está resolvida: este jogo é arte. Heavy Rain é, acima de tudo, arte, mas tem a mistura ideal com diversão que um jogo precisa para ser bem sucedido.

A Quantic Dream é uma desenvolvedora francesa fundada em 1997. Desde o início, a equipe dedicou-se a criar jogabilidades inovadoras e que auxiliassem na forma de contar a história em questão. Com o jogo Omikron: The Nomad Soul, lançado em 1999 para PC e Dreamcast, eles mostraram esse potencial para inovação: o herói do jogo é o próprio jogador, que "incorpora" em um dos cidadãos da metrópole de Omikron. Quando esse personagem morre, o jogador "reencarna" em outro, e assim vai. Apesar da jogabilidade inovadora, o título foi um fracasso de vendas e crítica.

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Em 2005, a empresa lançou seu segundo jogo, Fahrenheit (conhecido também como Indigo Prophecy nos EUA), um adventure com uma proposta bem diferente: ser um filme interativo. Através das decisões do jogador, a história se moldava, e as sequências de ação eram feitas através de quick-time events em cutscenes. O jogo foi bastante elogiado, mas o consenso geral é que a história era viajada demais para o próprio bem, além da liberdade de decisão não ser tão grande quanto o jogo anunciava a princípio.

Na mosca: Inovação + Interatividade

Finalmente, em 2010, a Quantic Dream lançou um jogo que iria juntar a inovação de Omikron com o conceito de filme interativo, mas oferecendo uma liberdade maior e contando uma história interessante com um bom roteiro. Este jogo é Heavy Rain.

A ideia era contar uma história aproveitando-se das emoções do jogador. São personagens com quem você pode se identificar, mas em situações extremas. E você tem o controle sobre cada pequena ação deles. Tudo isso contado com um estilo ethan-mars-profilecinematográfico, com movimentos de câmera, diálogos e trilha sonora apropriados.

Uma grande tragédia

Heavy Rain força você a encarar a tragédia de um pai. Ethan Mars tem uma vida ideal, com dois filhos, uma mulher num casamento feliz e uma casa bonita para morar. Tudo isso desaba quando seu filho mais velho, Jason, morre atropelado. Com o fim de seu casamento, Ethan é forçado a ir morar numa casa humilde na periferia e seu filho mais novo, Shaun, se distancia dele. Para completar, ele se sente responsável pela morte de Jason.

A cereja no bolo de desgraças na vida de Ethan é que Shaun é sequestrado pelo Origami Killer (Assassino do Origami), um assassino que sequestra garotos de 10 anos e sempre deixa um origami de um animal em seus corpos após matá-los afogados.

Personagens

madisonÉ aí que entram três outros personagens com quem você joga:

Madison Paige

Após hospedar-se por acaso no mesmo hotel que Ethan (por ter um caso sério de pesadelos e insônia), ela o ajuda na busca pelo seu filho, além de fazer a própria investigação por motivos próprios e obscuros até certo ponto da trama. É a "gostosona" do jogo e protagonista de uma das cenas de nudez (e de sexo).

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Norman Jayden

Um detetive do FBI encarregado do caso Origami Killer. Ele conta com um aparelho chamado ARI (Added Reality Interface - algo como Interface de Realidade Adicionada). É um óculos que ajuda na localização e organização das pistas, através de uma interface digital bem futurista. Para completar, ele é viciado numa droga chamada triptocaína.

scottScott Shelby

Ele é um detetive particular conduzindo uma investigação em paralelo às autoridades e coletando evidências referentes ao caso do Origami Killer. Scott tem asma e é um dos personagens que mais apanha durante todo o jogo (além de cozinhar um omelete, cujo resultado depende de você).

Cada um desses personagens carrega um segredo e um drama, e aos poucos a história vai se revelando de maneiras surpreendentes (ou não - o final do jogo não é tão imprevisível quanto pretendia ser, mas ainda assim é um toque de gênio para um videogame).

O destino em suas mãos

Um dos detalhes mais interessantes dessa mistura da história com jogabilidade é que o Origami Killer está testando o amor de Ethan por Shaun. O assassino manda ao homem uma caixa com 5 figuras de origami, cada uma contendo um desafio, sendo que cada desafio deixa-o mais próximo de descobrir a localização de Shaun. Não vou entrar em detalhes sobre os desafios, basta apenas saber que cada um deles exige coisas como sacrifício, coragem, enfim... esses desafios são uma montanha russa de emoções no jogo, e levam a questão da identificação e ligação com o personagem ainda mais além.

February 21st, 2010 @ 12:55:14Como uma desvantagem, é preciso destacar que em alguns momentos as decisões tomadas em outros capítulos da história parecem se confundir, ou são simplesmente ignoradas. A trama é muito bem construída, mas há um elemento que parece importante no início da história e depois é esquecido, deixando qualquer um com um grande ponto de interrogação na cabeça. É compreensível que se utilizem de chamarizes para desviar a atenção do jogador e criar uma sensação de surpresa, mas não quando o chamariz depois é enfiado numa gaveta grosseiramente, deixando a ponta para fora, lembrando você que ficou ali uma parte da história sem qualquer explicação.

Para compensar essa desvantagem, Heavy Rain tem muitos, muitos finais. São várias possibilidades e desfechos, e muitos jogadores vão querer jogar novamente para ver isso.

Triângulo! Quadrado! Círculo! NÃO!

As sequências de ação (e não tão ação assim) de Heavy Rain são feitas através de sequências de botões (quick-time events), como já foi dito. Isso pode parecer simples, mas quando aparecem comandos a cada golpe desferido por um inimigo, por exemplo, a coisa fica mais complexa. Confira nesse vídeo, que pode conter pequenos spoilers:

Pois então. A jogabilidade de Heavy Rain é ótima. Você sente a pressão do imediatismo em cada cena de ação, seja bloqueando golpes, seja desviando de obstáculos, seja fazendo a barba, secando as costas após o banho ou controlando as mãos de um personagem ao desabotoar a blusa de um interesse amoroso. A movimentação dos personagens também não deixa a desejar: para andar, você aperta o R2 e direciona o personagem com o analógico.

Em nenhum momento Heavy Rain deixa o jogador sem saber o que fazer. Caso você tenha alguma dúvida, basta segurar L2 e os pensamentos do personagem flutuam ao redor dele, dando dicas do que você precisa fazer a seguir. E, se mesmo sabendo o que fazer, você se atrapalhar e achar que o jogo está complicando demais a sua vida, há a opção de mudar a dificuldade a qualquer momento.

O jogo não deixa, em momento algum, algum possível defeito ou excesso na jogabilidade estragar a experiência, e isso é algo tão raro em um videogame que, por si só, merece aplausos.

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Outro plus: Heavy Rain tem uma edição compatível com o Playstation Move. Assim você pode pagar o mico de fingir que está escovando os dentes com o controle do Move.

Bonito de se ver e ouvir

Visualmente, Heavy Rain é estonteante desde o início. Os gráficos são bonitos, os modelos de personagens são bem trabalhados (com direito a detalhes como barba por fazer, cicatrizes e corpos nus detalhados) e os efeitos de iluminação são interessantes. Quando Norman usa seu ARI, o jogo adquire um toque mais futurista e igualmente belo. O único porém nesse quesito é que as expressões dos personagens às vezes parecem "duras" e artificiais, em poucos momentos dando a impressão de realismo necessária. Muitos vão discordar disso, e talvez eu esteja caçando algum defeito no jogo, mas aqui vai um exemplo. Reparem na expressão de Ethan, que acorda com um leve sorriso e permanece com ele. (Com direito a uma das cenas de nudez).

Já a dublagem do jogo é um grande destaque. São atores capazes, com um bom roteiro e muitas falas. É por essa dublagem que se torna tão fácil "entrar" na história, e em nenhum momento você pensa "meu deus, parece que estou ouvindo uma rádio-novela". Isso é a dublagem americana. O jogo conta com legendas e dublagem em português lusitano, o que facilita a vida do gamer que não fala inglês.

Outro ponto que merece destaque em Heavy Rain é a trilha sonora. Em grande parte orquestrada, ela lembra muito a de um filme de Hollywood. Em alguns momentos grandiosa e tensa e em outros mais íntima e delicada, a trilha se adapta ao clima da cena em questão e contribui para a ideia de que o jogo é um "drama interativo".

Prós

  • Mistura perfeita de jogabilidade e história - o jogo nunca te deixa preso ou travado em alguma parte simplesmente para aumentar a dificuldade.
  • Roteiro - a trama de Heavy Rain faz você sentir as dores dos personagens como se fossem suas, e se dedicar a eles. Para completar, a história tem uma reviravolta incrível (embora não tão imprevisível assim).
  • Jogabilidade - sei que é uma repetição, mas falando da jogabilidade em si, esse é o ponto mais forte do jogo. Ele é divertido, empolgante, criativo e dinâmico, tudo isso sem perder a praticidade.
  • Dublagem e trilha sonora - impecáveis. São as grandes responsáveis pelo clima do jogo.

Contras

  • Pontas soltas - algumas coisas que a trama apresenta não são resolvidas e acabam chamando uma atenção negativa.
  • Expressões dos personagens - às vezes simplesmente inexistentes ou artificiais, elas tiram parte da imersão.

Heavy Rain - Playstation 3 - Nota: 9.0
Gráficos: 9.0 | Som: 10.0 | Jogabilidade: 10.0 | Diversão: 9.0

Leandro Fernandes escreve para o PlayStation Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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