Blast Test

Soul Sacrifice (PSVita) faz bonito e mostra que o portátil da Sony ainda tem salvação

Não sei vocês, mas eu já estava bastante ansioso para pôr as minhas mãos na demo de Soul Sacrifice , o novo título criado por Keiji Inafu... (por Rayner Lacerda em 29/04/2013, via PlayStation Blast)


Não sei vocês, mas eu já estava bastante ansioso para pôr as minhas mãos na demo de Soul Sacrifice, o novo título criado por Keiji Inafune e que pode salvar o Vita. Apesar do atraso, finalmente pude testar essa belezinha, e já adianto que fiquei bastante impressionado. Com um enredo diferente, jogabilidade decente e uma enorme variedade de feitiços, o game tem tudo para fazer bonito no lançamento ocidental. Se você está com o pé atrás ou mesmo indeciso, tenho certeza de que irá sacrificar suas dúvidas ao terminar de ler a matéria.

A Sony anunciou com muito alarde que a demo de Soul Sacrifice estaria disponível para os sedentos donos do Vita no dia 16. Acreditando nisso, fiquei praticamente o dia inteiro entrando e saindo da PSN para conferir o título. Se você também fez algo parecido, sabe que foi em vão, já que a atualização atrasou.


Ao final do dia angustiante, minhas esperanças se renovaram quando a nossa querida empresa disse que a demo estaria disponível sem falta no dia 17, em conjunto com o lançamento europeu. Fiquei aliviado quando liguei o PS3 e vi que lá estava, então foi só baixar e me transformar em um feiticeiro.

Antes de começar a falar dos principais aspectos da demo, vale mencionar duas surpresas mais do que agradáveis: o jogo está com legendas em português e, até onde eu percebi, a tradução está impecável. Todo o progresso durante a demo será salvo e poderá ser usado na versão final, poupando-o de repetir o seu esforço. Mas vamos aos fatos.

A bola da vez são os feiticeiros

Não sei vocês, mas eu sou simplesmente apaixonado por qualquer coisa que envolva magia. E nenhum elemento melhor para representar essa arte mística do que feiticeiros. Na trama, você acompanha a história de um escravo, mas não qualquer um pois, ao que tudo indica, ele é propriedade de um dos maiores feiticeiros do mundo. Como se não bastasse, o pobre coitado aguarda sua morte trancafiado em uma prisão.


A demo começa dessa forma, com um escravo utilizando um misterioso livro para tentar fugir, e sendo facilmente morto pelo tal feiticeiro “apelão”. É nesse momento que começamos controlar nosso personagem que, em meio ao desespero, busca uma forma de fugir do seu lastimável destino.

E é nesse momento que ele descobre o Golam Book, um poderoso grimório (que, na verdade, é um demônio em forma de livro) em meios aos restos de outro infeliz prisioneiro. Além de poder falar, o livro é extremamente hilário e debochado, mas cumpre o seu papel como via de acesso para o protagonista se desenvolver.

O livro possui a capacidade de transportar o leitor para vivenciar as histórias ali escritas. Por vivenciar, entenda reviver os mais terríveis confrontos entre feiticeiros e criaturas assustadoras, além de muito perigosas. Na verdade, esses monstros desempenham um papel importantíssimo no jogo, afinal, eles também já foram feiticeiros que, por abusarem da magia, sofreram graves consequências.

Explicando melhor: a trama não faz de você um simples carniceiro, que deve acabar com essas criaturas sem dó nem piedade. Muitos monstros têm uma história, que explica sua existência e seu triste desfecho. Após derrotar cada monstro, você terá duas opções: salvar a sua pobre alma ou sacrificá-la. Dependendo da escolha, novos feitiços e upgrades serão destravados, além de mudanças na aparência do seu personagem. Nem preciso dizer que o jogo apela para a sua empatia na hora de tomar decisões. O destaque fica para esses momentos. Quem jogou a demo e conheceu Sathiara, vai concordar comigo.


O que mais me surpreendeu foi o modo como o enredo é contado. Na demo, tudo é visto através das páginas do livro, mas não pense que por conta disso a história é narrada com textos chatos e intermináveis. Muito pelo contrário, as animações de página são muito bem feitas e combinam perfeitamente com os pequenos textos explicativos. Tudo é muito fluido e didático, o que faz com que você fique familiarizado com o universo do jogo em pouco tempo.

Magia Sombria

Como eu disse, no universo do game a magia é fundamental. Porém, não espere simples bolas de fogo pirotécnicas. Aqui ela é sombria, imprevisível, até mesmo grotesca, e possui um alto preço. Como fica evidente pelo próprio título do jogo, o grande diferencial é o sacrifício. Até onde você está disposto a ir para ganhar poder? É uma pergunta chave para entender esse mundo.


As magias são acessadas com o uso dos mais variados itens, que conseguimos ao final das missões. Por exemplo: ao equipar o item Raiz de Fogo, você pode usar uma magia que incinera os inimigos, mas se você equipar o Espinho de Gelo terá acesso a outra magia completamente diferente. É possível fazer upgrades e até mesmo fundir determinados itens, originando novas combinações e, consequentemente, novos feitiços. A demo conta com uma variedade satisfatória de itens, mas tenho certeza que o jogo completo possui centenas deles.

Mas é nas dungeons que podemos testar na prática essas combinações. Com exceção dos feitiços de cura e de escudo, todos os outros podem ser carregados ao segurar o botão correspondente, causando efeitos e danos maiores. Ao carregar o feitiço de fogo, o feiticeiro lança uma chama mais forte, que pode atingir mais de um inimigo. Você pode equipar seis itens, mas somente três deles aparecem por vez. Se quiser trocá-los, basta apertar R e usar o botão correspondente.


E como nem tudo são flores, esses feitiços possuem um custo, ou melhor, um limite de uso. Você só pode usá-los um certo número de vezes. É nesse momento que você tem a opção de sacrificar objetos do cenário para renovar o seu limite de magias. Explicando melhor: vamos supor que o seu feitiço de fogo mais poderoso está chegando ao fim, você pode sair pela dungeon e encontrar uma árvore que, se sacrificada, permite que você continue utilizando-o.

A grande questão é que esses itens de sacrifício são escassos, o que adiciona um fator enorme de estratégia nas partidas. Você precisa planejar sabiamente como utilizá-los, caso contrário, os seus feitiços atingirão o limite de uso e não poderão mais ser usados. Quando isso acontece, é preciso que você “reviva” o item responsável pela magia, e para isso você precisa das lágrimas que saem do livro. Bem interessante, não?


Essas lágrimas são conseguidas em determinados momentos, e possuem muitos usos. Além de ressuscitarem os itens, elas também são usadas para reviver os seus aliados e remover alterações de status, ainda que seu uso na demo seja um pouco limitado. O mesmo vale para as runas que podem ser equipadas no braço do protagonista, elas alteram alguns status e conferem bônus para as magias.

E o melhor ainda está por vir. Se você quiser poder de verdade, pode sacrificar partes do seu corpo como oferenda. Na demo, temos a possibilidade de sacrificar nossa pele para invocar um demônio de fogo devastador. Mas o custo é bem alto: metade da resistência. Essas penalidades irão obriga-lo a definir boas estratégias durante o jogo.

O modo como a equipe desenvolveu o sistema de magias foi bem inteligente. A equipagem de itens e o limite de uso caíram como uma luva para o sistema de sacrifícios. Você terá centenas de combinações de feitiços durante o jogo, um prato cheio para os apaixonados por magia.

Entrando no livro e percorrendo dungeons

A ação em Soul Sacrifice acontece da seguinte forma: você escolhe um evento no livro, após ver as cenas que explicam os acontecimentos, você é transportado para um cenário onde deve cumprir os objetivos, sejam eles aniquilar todos os monstros ou derrotar o chefão.


Os combates são muito divertidos e a possibilidade de usar diferentes feitiços deixa tudo ainda mais cool. Ao derrotar uma criatura, você tem duas opções: salvá-la ou sacrificá-la. Se escolher a primeira, o monstro é transformado em pequenos animais e a sua barra de Vida aumenta. Caso escolha a segunda, você absorve a alma da pobre criatura e sua barra de Magia aumenta.

Essa escolha é importantíssima, pois ela é que define o seu poder. Se você decidir ser um feiticeiro impiedoso e sair sacrificando todos os monstros que encontrar, ficará absurdamente forte, mas sem muita resistência. Por outro lado, se decidir ser o salvador das pobres criaturas, seus poderes destrutivos ficarão mais fracos.

O peso dessa escolha é sentido de verdade ao enfrentar os chefes, pois cada um deles possui uma história que explica a sua origem. Todos foram feiticeiros que abusaram da magia e se tornaram escravos dela, transformando-se em horrendas criaturas. Ao derrota-las, de você optar pela salvação, o feiticeiro volta à vida e você ganha um aliado, o que pode lhe ajudar muito em alguns momentos. Se decidir mandá-lo para o inferno de uma vez por todas, você ganha runas para alterar seu status.

Essa é a grande premissa do jogo: se quiser poder, prepare-se para tomar decisões egoístas e imorais. Mas cuidado! Ele sempre possui um alto custo. Se você abusar dos sacrifícios, corre o risco de se transformar em um dos horrendos monstros, e terminar como oferenda para um feiticeiro mais sensato.

Não sei vocês, mas eu fiquei muito empolgado com esse sistema. Além de ter acesso a centenas de feitiços (e aproveitar a possibilidade de combinar muitos deles) você também terá todo um apelo emocional que justifique suas escolhas. Esse peso faz toda a diferença, pois na hora em que você lança aquele novo feitiço devastador, com certeza vai se lembrar do que teve de abrir mão para consegui-lo.

Apesar da estrutura repetitiva (a versão final deve sofrer do mesmo problema) a diversão não fica prejudicada por conta disso. A variedade de feitiços e a envolvente narrativa tiram aquele peso da tarefa de exterminar os monstros e lhe fazem se sentir realmente em uma missão. No final, você estará jogando a mesma fase dezenas de vezes para melhorar seus feitiços e não reclamará disso.

Multiplayer conflituoso

Calma, não estou dizendo que o multiplayer do jogo é bugado ou coisa assim, pelo contrário, tudo funciona muito bem e de forma rápida. Nele você pode entrar numa dungeon com mais três amigos e se divertirem enfrentando aquele chefe mais difícil (o bendito Cérbero que o diga).


A grande questão é quanto tempo essa amizade irá durar, afinal, você poderá até mesmo sacrificar seus companheiros de equipe para conseguir poder. Será que a fome por novos feitiços subirá à cabeça daquele seu amigo mais fiel? Prepare-se: fique muito atento e desconfiado quando for convidado para uma jogatina dessas.

O que posso dizer é que o multiplayer cumpre muito bem o seu papel, o que ficou bem evidente na demo. Bastam poucos minutos para se conectar e pronto, você já pode sair jogando com outras pessoas. Foi divertido ver que em alguns momentos as pessoas se aliam para superar as dificuldades. Ao enfrentar o Cérbero, dois participantes do meu grupo escolheram serem sacrificados, tudo isso para dar cabo do monstrengo. Foi divertido à beça.

Finalmente um título AAA para o Vita?

Não precisa ser nenhum gênio para perceber que o Vita tem um árduo caminho pela frente. Apesar de todos os avisos, súplicas e reclamações dos fãs, a Sony continua ignorando o seu portátil. Isso pode ser claramente visto pelo fato da gigante japonesa não fazer anúncios para ele.

O corte de preço no Japão, não é suficiente para fazê-lo decolar, ainda mais se esse desconto continuar apenas por lá. Mais importante que isso, o portátil precisa urgentemente de novos títulos de peso, que explorem suas qualidades técnicas. Eu realmente espero que a Sony esteja guardando boas surpresas para a E3. Caso contrário, o Vita irá para o limbo de vez.

Por outro lado, parece que finalmente teremos um jogo decente nesse primeiro semestre. Com enredo original, sombrio e extremamente profundo, além de uma jogabilidade muito divertida, Soul Sacrifice tem tudo para ser o jogo que os donos do Vita estão esperando e, mais importante ainda, talvez finalmente tenhamos um título que justifique a compra do portátil. No fim das contas, acredito que valerá a pena sacrificar o seu dinheiro para por as mãos nessa obra de arte.
Capa:  Daniel Silva
Revisão: José Carlos Alves 
Rayner Lacerda é historiador, formado pela UFV. Eterno estudante e professor do mundo, se interessa por praticamente tudo, mas são os games a sua grande paixão. Tal fascínio o levou ao Blast, onde escreve atualmente. Encontre-o no Facebook

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