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Análise: É melhor não se empolgar muito, Ragnarok Odyssey (PS Vita) não faz jus à Rune Midgard do clássico MMO

Não é novidade para ninguém que a biblioteca do Vita está empoeirada há muito tempo. Para os fãs de RPG, não há muitas opções, assim com... (por Rayner Lacerda em 05/04/2013, via PlayStation Blast)



Não é novidade para ninguém que a biblioteca do Vita está empoeirada há muito tempo. Para os fãs de RPG, não há muitas opções, assim como para os admiradores de outros gêneros. Tentando conquistar uma parcela do escasso mercado, Ragnarok Odyssey foi anunciado com grande alarde, prometendo um banho de nostalgia para os fãs da série. Desconfiado pelos trailers, quando finalmente pus às mãos no título, veio a confirmação: Odyssey não chega nem perto de proporcionar a mesma diversão que os seus antecessores. Na verdade, até quem nunca jogou nada da série dificilmente vai gostar. Saiba os motivos de tanto desgosto em nossa Análise.

Não sei vocês, mas o MMORPG Ragnarok Online definitivamente fez parte da minha trajetória pelo mundo dos games. O ano era 2005, e os RPGs online eram uma grande novidade por aqui. Fiquei absolutamente fascinado com a possibilidade de criar um personagem e compartilhar a aventura com os meus amigos, tudo isso em um jogo com um traço cartunesco e lindo. Passei pelo menos três anos perambulando por Rune Midgard, e curti cada momento.


Com toda a minha história pela franquia, confesso que fiquei surpreso com o anúncio de Ragnarok Odyssey para o PS Vita. Todas as minhas lembranças voltaram, todos aqueles momentos que passei matando incontáveis criaturas e fazendo quests com meus companheiros da Guilda. Porém, quando saíram as primeiras imagens e o primeiro trailer, minha empolgação foi cortada pela metade.

"Inovação" nem sempre é sinônimo de qualidade

Por um momento, eu pensei que a versão do Vita seria semelhante à do Nintendo DS, ledo engano. O visual em 2D, característico da série, foi abandonado em prol de um visual 3D cartunesco, e o clássico sistema de combate deu lugar a um sistema hack and slash de origem duvidosa.

Sim, eu tenho sérios problemas com um Ragnarok 3D e com batalhas nesse estilo, e garanto que uma grande parcela dos fãs concorda comigo. Foi como se a produtora tivesse deixado de lado toda a essência da franquia, transformando-a em um simples RPG de ação em terceira pessoa que pode ser jogado online. Vou além: mesmo se você nunca tiver jogado o título original, não vai conseguir gostar desse jogo.


Ragnarok Online ficou consagrado pelo seu sistema de desenvolvimento de personagens. Você podia criar infinitas combinações: de um Mago especialista em ataques rápidos ao Assassino que poderia matar qualquer um com a combinação de três habilidades. O grande destaque de Ragnarok era a possibilidade de construir o personagem de acordo com o seu gosto pessoal. Bom, esqueça isso em Odyssey.

O problema nem é a pouca variedade de classes (Sword Warrior, Hammersmith, Assassin, Mage, Cleric e Hunter) mas a impossibilidade de criar combinações mais complexas com suas habilidades. Quase todas as suas técnicas já estão disponíveis logo de início, o que acaba com aquele sentimento de conquista. Se você era daqueles que passava horas e horas tentando montar uma build que correspondesse às suas exigências, vai ficar extremamente frustrado com a mecânica de Odyssey


E a mancada continua. A produtora conseguiu deixar o sistema de Itens confuso e muitas vezes inútil. Imaginem o seguinte: você quer uma arma melhor, mas os materiais necessários só vão estar disponíveis bem mais pra frente no jogo, você querendo ou não. Isso te deixa refém da história para conseguir melhorias nos seus equipamentos. Aquele sistema de cartas, que fazia toda diferença na hora de montar o seu personagem em Ragnarok Online, também está presente aqui, mas de forma muito menos marcante. Não espere encontrar efeitos como imunidade ao congelamento ou rapidez na hora de conjurar magias, o máximo que você verá são algumas melhoras no status que nem fazem tanta diferença assim.

Deixo claro que isso não são apenas implicâncias de um fã da série original. Esses deslizes que eu citei deixam o jogo muito pobre nas suas mecânicas, o que acaba minando a diversão do público que realmente aprecia aquele típico bom RPG, com menus e opções variados, que recompensam a engenhosidade do jogador.

Quests, ingratidão e monotonia

Em primeiro lugar, esqueça aquela liberdade em vagar por todo o continente de Rune Midgard. Em Odyssey, as quests é que determinam os locais a serem explorados. Você não é livre para ficar transitando pelo mapa inteiro do jogo, é preciso escolher uma missão que te envia para algum local. Apenas isso já retira todo aquele sentimento de explorar o desconhecido como você bem quiser.


Como se não bastasse, além de rasas, a variedade de quests é muito limitada. Não importa qual você escolha, ao final, tudo se resumirá em encontrar determinado item, destruir hordas e hordas de monstros ou confrontar algum chefão gigante. Após ter feito quatro ou cinco quests, fica mais do que evidente que elas estão ali para preencher conteúdo, ao invés de estarem articuladas e bem amarradas com o enredo, que aliás, é praticamente inexistente. É melhor se preparar para personagens pouco carismáticos, uma série de diálogos pobres e aquela saudade dos tempos em que você se divertia conversando com os NPCs na tela do PC.

Não adianta chorar, você não vai ganhar XP!

Mas o melhor, meus amigos, vem agora. Após escolher sua quest, você é transportado para um mapa recheado de monstros e deve cumprir um determinado objetivo, certo? Logo, se o mapa está tomado por monstros, é melhor acabar com eles e “limpar” o caminho. O grande problema é que você não ganha XP pelos monstros derrotados. Ficou pasmo e não entendeu? Vou repetir: você pode matar todos os monstros do mapa que não vai ganhar um pingo de experiência por isso. O motivo é que a produtora achou melhor recompensar o jogador ao final da quest.

Onde já se viu um RPG onde os monstros derrotados não dão XP? Ainda mais em um jogo que leva o título de Ragnarok, famoso pelas incontáveis horas em que você ficava caçando monstros para subir de nível. Essa escolha grotesca da produtora abre margem para situações inusitadas: já que os inimigos não dão XP e dropam itens inúteis, então por que matá-los? Vou simplesmente correr em direção ao objetivo e pronto. De todos os erros do jogo, esse foi de longe o pior deles, acabando com todo o resquício de alma que Odyssey ainda continha.

Chame um amigo para esmagar botões com você

A equipe prometeu uma verdadeira revolução no combate, mas nem ele consegue salvar o título. O problema em se abandonar o estilo de combate tradicional da série e levá-lo para o hack and slash é que, se tudo não for muito bem feito e pensado, corre-se o risco de ter em mãos algo repetitivo e genérico. Não é surpresa nenhuma eu dizer que foi exatamente isso o que aconteceu. Você pode pular, atacar com golpes fortes e fracos e , ao executar uma sequência correta de botões, desferir os golpes especiais. E é só, não espere nenhuma reviravolta milagrosa para tirar você da mesmice.

No início tudo parece ótimo, tudo é novidade. Você vai descobrindo algumas combinações ao decorrer das primeiras horas, mas depois percebe que não há nada mais a se fazer além de executar sempre os mesmos combos. E como os inimigos vão se aglomerando, Odyssey se transforma naquele típico jogo esmaga botões. Eu joguei com um Mago, mas o sistema pouco versátil me fez enjoar em poucos minutos. Que saudade de combinar uma Rajada Congelante com o Trovão de Júpiter.


Quesito não menos importante, é o fator multiplayer. Odyssey foi feito para ser jogado no modo cooperativo. O problema é que a conectividade nem sempre vai te ajudar, sendo frequente os momentos em que você não consegue companheiros para te acompanhar nas missões. Por falar nisso, você só pode entrar nas quests com pessoas do mesmo nível que o seu ou inferior, então se quiser seguir adiante com o enredo, é melhor ter sorte ou jogar sozinho.

Ragnarok Odyssey

Acho que a maior falha da GungHo Online Entertainment foi a pretensão de querer evoluir a série Ragnarok. Não me entendam mal, mudanças sempre são bem vindas, desde que feitas com responsabilidade. Se você quer mesmo um RPG para a sua empoeirada biblioteca do Vita, recomendo esquecer Ragnarok Odyssey e se contentar com Persona 4, que é o melhor do gênero até agora.

Mas Rayner, não existe nenhum aspecto que você tenha gostado? É como eu disse: os primeiros 40 minutos do jogo serão divertidos. Você vai se surpreender com alguns combos, ouvir a decente trilha sonora e reparar em um ou outro design bem feito. Depois vai descobrir que o combate é repetitivo e raso, as quests não tem propósito, os personagens e o enredo são pobres, os monstros não te recompensam com XP e o melhor, que você foi enganado, porque de Ragnarok, Odyssey não tem nada, aliás, acho que vi um ou dois Porings por lá.

Prós

  • A trilha e os efeitos sonoros são bem decentes;
  • O visual convence;
  • Diverte nos primeiros 40 minutos.

Contras

  • História e personagens genéricos;
  • Diálogos pobres;
  • Não há customização de habilidades;
  • Quests repetitivas e muitas vezes sem propósito;
  • Inimigos não dão XP;
  • Combate repetitivo e esmaga botões;
  • Só possui o nome Ragnarok, a alma passou longe.
Ragnarok Odyssey - PlayStation Vita - Nota Final 5.0

Capa: Felipe Araújo 
Revisão:  Leonardo Nazareth
Rayner Lacerda é historiador, formado pela UFV. Eterno estudante e professor do mundo, se interessa por praticamente tudo, mas são os games a sua grande paixão. Tal fascínio o levou ao Blast, onde escreve atualmente. Encontre-o no Facebook

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