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Aliado ou inimigo? O misterioso e enigmático Citan Uzuki de Xenogears

Xenogears é conhecido por nos apresentar personagens complexos, problemáticos e enigmáticos. A começar pelo protagonista Fei Fong Wong, ... (por Érika Honda em 02/05/2013, via PlayStation Blast)


Xenogears é conhecido por nos apresentar personagens complexos, problemáticos e enigmáticos. A começar pelo protagonista Fei Fong Wong, que nada mais é do que uma representação das teorias de Freud sobre a personalidade humana. Mas não é sobre esse confuso protagonista que pretendo falar hoje, mas sim de um dos seus fiéis, ou talvez nem tanto, companheiros: Citan Uzuki.

Aviso: Devo alertá-los de que esse texto contém muitos spoilers do jogo e do personagem. Xenogears é um jogo do século passado e poucos são aqueles que se aventuram em um JRPG antigo com mais de 60 horas de gameplay, mas ainda assim vale a pena avisar, afinal, o jogo é excelente e eu recomendo a todos.

Médico, pai, intelectual, sábio, mestre em artes marciais... e o que mais?

A escolha do personagem para a coluna não se deve apenas pelo fato de ser o amigo mais antigo do protagonista. Citan Uzuki é um personagem interessante em vários aspectos, talvez com destaque para sua personalidade misteriosa. Citan é apresentado ao jogador e ao protagonista logo no início do jogo, mora na mesma cidade natal de Fei e ambos já se conheciam desde antes do início da história. Em uma pacata e pequena vila, Fei vive seus dias entre amigos e seu pai adotivo e Citan é o médico da cidade, morando em uma montanha há alguns metros do centro do vilarejo junto da esposa e de sua filha.

Logo o jogador se vê simpatizado pelo médico, pois, ao contrário do protagonista, Citan é um personagem adulto, sério, intelectual, sábio e ainda por cima excelente lutador de artes marciais e boa pinta. Ah, e não vamos esquecer de que é casado com uma esposa linda, que cozinha muitíssimo bem e sua filha é uma pérola cristalizada em formato de menina. E por morar um pouco afastado da vila, sua casa é muito maior e aconchegante do que as demais. Enfim, é difícil entender o porquê de uma pessoa assim querer deixar tudo para trás para acompanhar o protagonista em sua aventura sem rumo nem objetivo aparente. Bem, no decorrer da história o jogador percebe que ele tinha sim seus motivos.

Combate e estilo com kung-fu
Citan, além de médico, também foi o tutor de Fei em artes marciais, sendo ambos os únicos personagens controláveis que usam o kung-fu como estilo de luta, além de poderem batalhar sem o porte de armas. Com grande respeito e admiração, Fei o chama de ‘Sensei’ na versão original japonesa, que dentre os vários significados entende-se como mestre, tutor e professor. Por culpa do trabalho de tradução oficial da versão americana, ‘Sensei’ virou simplesmente ‘Doc’, perdendo todo o profundo significado da palavra.

Misterioso e enigmático, uma vida cheia de segredos



Citan Uzuki, um personagem “OP” (overpowered)

Citan é o típico “personagem mais forte que o protagonista” com a incumbência de guiar o herói na sua evolução até alcançar um poder muito maior do que todos os outros. Desde o início do jogo, o personagem é extremamente útil em batalhas. De maneira quase desproporcional, Citan tem o ataque mais forte do grupo, também é extremamente rápido ganhando vários turnos extras e, além disso, ele é um excelente suporte com magias de cura, afinal é um médico.

Até o Gear passa a usar espada
Isso tudo sem o uso de armas! E você se pergunta, o que você quer dizer com isso? Quero dizer que, em certo momento da história, o jogo nos surpreende ao apresentar um Citan misterioso e muito mais sério, com pedaços de diálogos sobre um passado que teria que reviver. O diálogo fecha, o personagem volta
ao grupo e na próxima batalha nos deparamos com um Citan com cara de poucos amigos carregando uma katana! Se antes ele já era poderoso, imagina agora! Ele é o único personagem do jogo com duas instâncias de batalha: kung-fu e katana.

Em Xenogears, os personagens possuem ataques especiais chamados de combo, que são ativados dependendo da sequência de botões de ataque. Os combos de Citan deixam rastros do personagem pela tela, enfatizando sua grande velocidade e agilidade. Como ele pode utilizar tanto o kung-fu quanto a espada para lutar, também possui duas versões para cada combo. As animações dos combos com a katana do personagem estão entre as mais belas e magníficas do jogo, com grandes influências orientais, pétalas de cerejeira voando e influências de elementos da natureza.

Combo com espada, belos efeitos visuais com katana

Inimigo ou aliado?

Apesar de Citan parecer ser um personagem extremamente fiel, o jogo vai nos dando pitadas de incertezas em relação às suas atitudes e a seus objetivos. De maneira genial, Tetsuya Takahashi, escritor do título, faz um jogo de confiança e emoções com reviravoltas e surpresas com os personagens da série. Citan parece sempre saber de tudo o que está acontecendo e até mesmo sobre o que está por vir. Vez ou outra solta frases que ninguém compreende e Fei apenas acredita serem coisas da mente intelectual do médico, ignorando-o.

A insegurança do jogador em relação ao personagem aumenta quando esse começa a aparecer em diálogos com o suposto inimigo, chamado de Imperador.

Conversas suspeitas e misteriosas com o inimigo
Conversas sobre Fei, sobre observar atentamente, sobre usá-lo para próprios objetivos, sobre mantê-lo por perto. A incerteza aumenta quando encontramos um velho amigo de guerra de Citan, Jesse. Jesse parece estar de olho e sempre prestes a sacar a arma caso o médico saia da linha. Tenso, hein? O jogador que chegou até esse ponto do jogo pouco deve estar entendendo sobre a própria história e quem seriam os reais inimigos, o que dizer agora dos amigos? Esse é um dos vários exemplos de como a história de Xenogears cria uma tensão e uma confusão psicológica admiráveis no jogador, prendendo-o de vez ao jogo.

Passado obscuro, um novo presente

Descobrimos que o verdadeiro nome de Citan é Hyuuga Ricdeau. Ele é natural de Solaris, a cidade até então inimiga dos personagens. É um fiel e poderoso guardião da cidade e sua missão sempre foi de observar Fei e de manter o Imperador de Solaris informado. Essa tarefa vem sendo feita desde quando Fei era um bebê, ou seja, desde o início do jogo tínhamos um espião entre o grupo. No passado lutou por Solaris em inúmeras batalhas e é um veterano de guerra. Quando essas revelações nos são dadas pouco a pouco, peças do grande quebra-cabeça de Xenogears vão se encaixando, e enfim vamos entendendo a grande complexidade do protagonista, da história e do mundo.

Para a alegria dos fãs, Citan mostra-se mais para o fim da história como verdadeiro amigo e companheiro, abandonando Solaris e juntando-se aos heróis. O uso da katana é o marco desse momento, quando ele decide deixar para trás seus medos e sacar novamente sua espada para proteger seus amigos, mesmo que para isso tenha que ferir novamente. O que essa cena nos mostra é que Citan com katana não está para brincadeira!

Citan decide ficar com os amigos

Há em Xenogears vários truques e maneiras de se deixar os personagens extremamente poderosos, algo comum em RPGs antigos (e geralmente não intencional por parte dos desenvolvedores). Enquanto isso pode ser feito com qualquer personagem, com Citan é especialmente divertido já que o mesmo é poderoso por natureza. Com uma combinação de Speed Shoes, acessório que aplica automaticamente o status “Haste” (inclusive quando estiver no modo Gear!), e Power Crisis, acessório que aumenta absurdamente o seu ataque conforme seu HP cai, Citan vira Deus com a katana, podendo solar Gears a pé e matar chefes sem nenhum esforço.

Citan Uzuki, Fei Fong Wong e Elly são exemplos de personagens bastante misteriosos e interessantes do elenco de Xenogears. O envolvimento deles na história faz do jogo um dos mais amados do mundo retrô. E para você, leitor? Como se sentiu ao acompanhar toda a saga de Citan durante o desenrolar do jogo? Seus mistérios, as surpresas, os desaparecimentos e aparições inesperados, sua traição e por fim seu arrependimento. Como isso mexeu com o leitor?

Revisão: Alex Sandro
Capa: Diego Migueis
Érika Honda é formada em Ciência da Computação pela Unicamp. Possui grande afinidade com as áreas de Tecnologia, Artes e Game Design. É gamer desde a infância e sua curiosidade e gosto crítico fizeram da redação um grande hobby.

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