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Análise: O iminente fim da humanidade na dramática, brutal e surpreendente aventura de The Last of Us (PS3)

Em The Last of Us, o mais novo jogo da desenvolvedora Naughty Dog, criadora dos aclamados títulos da série Uncharted, acompanhamos ... (por Samuel Coelho em 26/06/2013, via PlayStation Blast)

Em The Last of Us, o mais novo jogo da desenvolvedora Naughty Dog, criadora dos aclamados títulos da série Uncharted, acompanhamos a dramática odisseia de um grupo de sobreviventes que vê na vida de uma garotinha de 14 anos a última esperança de salvação para uma humanidade que se encontra devastada por uma pandemia global, desencadeada em virtude da evolução biológica de um fungo parasita.

O começo do fim

Cordyceps em atuação no mundo real
O fungo responsável pela pandemia é uma variação do Cordyceps, um perigoso parasita do nosso mundo real, capaz de infectar pequenos insetos e de se alojar no sistema nervoso central de seus hospedeiros, transformando-os em uma espécie de zumbi e em perigosos vetores de infecção, passíveis de destruir rapidamente colônias inteiras antes de finalmente sucumbirem e de se deteriorarem, consumidos pela proliferação do fungo. 

E se os Cordyceps pudessem infectar seres humanos? Eis a resposta
No mundo do jogo esse fungo sofreu uma transformação que o capacitou a usar humanos como hospedeiros. A partir dessa premissa, temos talvez a base lógica para apocalipse zumbi mais coerente já criada. 

A história começa em 2013, mostrando a noite de uma pacata cidade interiorana dos Estados Unidos. Em uma casa situada nos arredores dessa vizinhança tranquila, uma garotinha oferece um presente de aniversário ao pai, e após os dois conversarem sobre amenidades em frente à TV, a menina acaba adormecendo e é carregada pelo carrancudo aniversariante para o quarto. Pouco tempo depois, ela desperta com uma ligação telefônica que transmite uma voz impregnada de urgência, na qual seu tio comunica que está desesperadamente à procura de Joel, seu pai. 

Numa única noite, o mundo desses dois mudou para sempre
Até o final dessa noite, que se iniciou como uma noite qualquer na vida dessas pessoas, a realidade mudará de uma forma tão drástica que eles jamais seriam capazes de imaginar o que aconteceria nos próximos dias, muito menos nos próximos anos.

Vinte anos depois

Duas décadas após o princípio da epidemia causada pela evolução do Cordyceps, a raça humana, e tudo o que ela construiu, praticamente se deteriorou. 

A humanidade sai e a natureza entra em cena
As cidades estão todas infestadas por humanos infectados, as zonas urbanas e até as interioranas estão em ruínas e os ambientes, lotados de esporos dos terríveis parasitas, parecem já gritar em uníssono o final de uma batalha perdida para a humanidade. Nesse mundo desestruturado e praticamente jogado ao caos encontramos, e passamos a controlar novamente, o personagem Joel, que agora, junto de uma mulher de personalidade forte chamada Tess, atua como traficante de mercadorias entre zonas de quarentena. 

Joel e Tess já possuem um longo histórico de esquemas "ilícitos"
Mais amargo e ranzinza do que nunca, Joel participará, a princípio quase contra a própria vontade, de uma missão muito especial, que para um grupo de reacionários em busca de uma cura, conhecidos como Vaga-Lumes, representa o último raio de esperança para salvar a civilização humana.

Ellie

A realização dessa missão envolve a escolta de uma garotinha de 14 anos chamada Ellie, que é alguém com uma personalidade ao mesmo tempo arredia, bondosa, selvagem e inocente. Assim, Joel e Tess se responsabilizam por atravessar essa jovem pelas perigosas áreas exteriores à zona de quarentena na qual eles se refugiam.

Ellie, a esperança para o fim de um longo sofrimento
Mas Ellie não é uma menina de 14 anos tão comum. Nascida anos após a catástrofe que transformou o mundo moderno em uma terra desolada e perigosa, a garota que teve a infância roubada pela selvageria do estado em que a sociedade se encontrava é acima de tudo um ser humano forte e determinado, em busca da sobrevivência e de uma salvação para a humanidade. Esta jovem menina será nossa companheira de jornada ao longo de quase todas as seções do jogo. E se torna o cerne em torno do qual todos os personagens da história evoluem ou se transformam de alguma forma.

Mas a participação de Ellie não se limita apenas ao enredo. Essa missão de escolta não envolve você como jogador ficar protegendo em todos os instantes uma garotinha indefesa. Muito pelo contrário. Como uma das principais protagonistas dessa jornada, Ellie se mostra também surpreendentemente eficaz e até letal como aliada de combate, além de saber muito bem o momento certo de soltar um bom palavrão.

A jornada

Numa terra onde a maioria acorda sem saber se vai poder ver o próximo pôr do sol, a selvageria domina o coração até dos mais bondosos, que dirá dos mais perversos. Em certos pontos da narrativa a carnificina praticada por todos os humanos da história é tanta, que o jogador é até convidado a refletir sobre as implicações morais de tudo o que ele está fazendo, mas apenas para concluir que num mundo destruído como esse só interessa a lei do mais forte.

Ser agarrado por um desses pode significar fim de jogo na hora
Se você se deixa envolver por uma boa história, damos certeza de que você vai chorar, emocionar-se e se arrepiar ao longo da jornada de Ellie e Joel. Cada personagem que passar pelo seu caminho deixará algo de si. Nem que seja uma forte impressão de que eles são humanos genuínos, cheios de qualidades e defeitos, a tal ponto que, mesmo quando não concordamos com seus ideais e objetivos, ainda assim conseguimos respeitá-los, ou ao menos entendê-los.

Não há personagem nessa história com o qual você não se apegue
Seja enfrentando hordas de infectados, caçadores humanos ou simplesmente grupos de pessoas com ideologias que batem de frente com os objetivos do grupo de Joel, sentimos na pele os dilemas de personagens que tentam sobreviver num mundo em ruínas.

O jogo abre espaço para o desencadear de vários tipos de emoção
Com o tempo passamos a realmente fazer parte da história. Reagimos às circunstâncias e às emoções das pessoas de uma forma tão imersiva, que verdadeiramente às vezes sentimos o que os personagens estão sentindo, seja raiva, amor, tensão, ódio, alegria, esperança ou desesperança.

Jogabilidade

The Last of Us combina vários estilos de jogabilidade, mas todos estes estilos, apesar de muito bem executados, estão a serviço da narrativa. Isso torna até difícil a tarefa de classificá-lo dentro de algum gênero ou subgênero. Mas, teoricamente, este é um jogo que tem elementos de jogabilidade extraídos de survival horrors, jogos de ação furtiva, de aventura e de tiro em terceira pessoa. O foco do título não é ser apenas uma experiência lúdica, mas sim fazer você viver uma história brutal e dramática através dos olhos de vários personagens.

O gameplay conta com elementos de vários gêneros
Enquanto você caminhar pela terra devastada, a furtividade e a exploração minuciosa de locais abandonados serão recompensadas com uma redução de gastos em itens essenciais e com a possibilidade de você encontrar vários tipos de objetos coletáveis. Como era de se esperar, encontramos, ainda que escassamente, munição para todos os tipos de armas, itens de cura e armas (brancas e de fogo). Contudo, o diferencial do jogo nesse sentido está num refinadíssimo sistema de fabricação própria de itens através do qual você pode criar objetos de extrema necessidade a partir de outros aparentemente ordinários. Através deste sistema você poderá fabricar facas, coquetéis molotovov, bombas de fumaça, bombas de prego, kits de cura, e ainda poderá realizar upgrades temporários em armas brancas capazes de transformá-las em poderosas armas letais, com o poder de matar com um só golpe qualquer inimigo normal.

Modo multiplayer

O jogo conta ainda com um modo multiplayer no qual você deverá escolher entre dois grupos para se unir à luta pela sobrevivência do mais forte. No decorrer das partidas você poderá subir de nível realizando missões, desbloquear itens de customização para o seu personagem e realizar upgrades em seus equipamentos através da coleta de peças e suprimentos em geral. 

Sem que eles saibam, seus amigos de Facebook podem até fazer parte do seu grupo de sobreviventes 
Com fluidez e bom grau de diversão, este sub-modo consegue manter muito bem a temática do game, ao mesmo tempo em que agrada a todos os que apreciam partidas online.

Mais um acerto da Naughty Dog

Com The Last of Us a produtora Naughty Dog mais uma vez consegue elevar os padrões de qualidade da indústria e nos presentear com uma obra artística de primeira qualidade. Mais do que por sua ótima jogabilidade, que mistura elementos de famosas franquias, tais como Resident Evil, Uncharted e Metal Gear, The Last of Us se consolida como obra-prima principalmente por seu altíssimo grau de imersão narrativa. Como último título da Naughty Dog para o PlayStation 3, o jogo que narra a odisseia de um grupo de pessoas comuns determinadas a manter acesa a última luz de esperança para a humanidade encerra com chave de ouro a participação da empresa criadora de Nathan Drake nesta geração, e faz com que ela mereça ainda mais prestígio e respeito. Para encerrar estes comentários, vale ainda a ressalva de que o jogo conta com um trabalho de dublagem, em português do Brasil, praticamente impecável e digno de toda a nossa apreciação. Para um jogo que valoriza a narrativa tanto como The Last of Us, isso é algo inestimável e contribui de forma fantástica para a efetivação de todo o processo de imersão.

Prós

  • História envolvente, dramática, brutal e cheia de reviravoltas;
  • Jogabilidade variada, estratégica e funcional;
  • Ambientação de tirar o chapéu;
  • Animações de altíssima qualidade;
  • Dublagem em português do Brasil;
  • Personagens inesquecíveis.

Contras

  • Inteligência artificial ficou precisando de mais alguns retoques.
The Last of Us - PlayStation 3 - Nota: 9.5
Revisão: Vitor Tibério
Capa: Eidy Tasaka
Samuel Coelho é apaixonado por literatura, música, filosofia e arte digital. Ex-aluno de Ciência da Computação na UFPa, ator amador e notívago inveterado, ele passa noites e noites em claro se afogando em tudo o que o fascina. Encontre-o no Facebook ou no Twitter.

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