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Análise: Presencie a destruição de um mundo em Lightning Returns: Final Fantasy XIII (PS3)

Escolhida por Deus para ser a salvadora da humanidade, Lightning tem a árdua missão de guiar almas para um mundo novo enquanto encerra uma longa odisseia

Quinhentos anos se passaram desde o embasbacante encerramento de Final Fantasy XIII-2 (PS3). A deusa da morte, Etro, já não existe mais, e o mundo está sendo inexoravelmente consumido pela força destrutiva do caos. A exuberante vastidão selvagem de Pulse foi reduzida a um pequeno arquipélago de quatro ilhas, denominado de Nova Chrysalia, e restam apenas 13 dias para o fim de tudo...

A arquipélago de Nova Chrysalia é tudo o que restou do mundo

Prisioneiros do caos

Bhunivelze, o deus da luz.
Nesse pequeno lugar, que serve de último refúgio da vida nos momentos finais do mundo, a humanidade oscila entre esperar pelo fim de tudo e aguardar a vinda profetizada de um salvador, que surgiria para livrar todos da destruição definitiva. A missão deste escolhido é levar as almas para renascer em um novo mundo, criado pelo deus da luz Bhunivelze, deidade maior da mitologia de Final Fantasy XIII, que, a princípio, era chamado por alguns fal’Cie simplesmente de Maker (Criador).

Devido ao colapso e à desestruturação das forças que regem os ciclos da vida e da morte, a população de Nova Chrysalia vive sob o efeito de uma benção, ou de uma maldição, que lhes impediu de envelhecer ao longo de quase 500 anos. Fadados a presenciar a lenta consumição do mundo pela força do caos, a última fagulha de esperança destas pessoas repousa nos ombros de Lightning.

Depois de dormir por 500 anos em Valhala, Lightning é despertada pelo deus Bhunivelze restando poucos dias para o fim do mundo. A entidade suprema concede à ex-guardiã de Etro um pouco de seus poderes divinos, e lhe encarrega de reunir o maior número possível de almas durante estes últimos momentos, para que, com elas, ele possa habitar o novo mundo que está criando.
Lightning é escolhida por Bhunivelze para salvar o que restou da humanidade

Correndo contra o tempo

Assim que começamos o jogo, já somos afetados pela pressão psicológica do tempo, que é medido através de um relógio que avança um minuto a cada três ou quatro segundos reais. Este relógio só é pausado durantes os diálogos iniciados pelo jogador com os NPCs, no decorrer das batalhas, enquanto navegamos por menus e quando fazemos uso da técnica Chronostasis (que pausa o relógio por alguns minutos).
Corra, Lightning, corra!
A aventura é totalmente estruturada em um mundo aberto, onde o jogador deve explorar várias regiões à procura de missões. O design de boa parte delas é feito nos moldes das missões de RPGs online: novas missões são habilitadas conversando com os NPCs. A partir daí, você precisará explorar e reexplorar várias regiões de Nova Chrysalia enquanto tenta encontrar itens específicos, sai à procura de algum monstro ou fala com um, dois ou mais NPCs. Tudo isso para buscar solucionar as situações propostas pelo perfil da missão. Se não fosse pela existência do fator tempo, esta estrutura de gameplay poderia ser comparada àquela que encontramos em Final Fantasy XII (PS2).

Um velho amigo retorna para ajudar Lightning em sua mais difícil missão
A maioria das missões tem sua disponibilidade ligada diretamente a um intervalo de hora do dia, o que pode dificultar nosso caminho na enorme tarefa de resgatar o máximo possível de almas. Nesta situação, é comum experimentarmos a sensação de que não conseguiremos fazer tudo o que é necessário fazer para se chegar ao final do jogo com sucesso. E, realmente, existe esta possibilidade se ignorarmos o peso da passagem do tempo. Entretanto, se o pior acontecer, o jogador poderá recomeçar um novo jogo retendo seu arsenal de itens e habilidades.
Espere interagir como nunca com os NPCs
Infelizmente, boa parte dos perfis das missões não-principais são demasiadamente banais, pouco ajudam e até chegam a atrapalhar o desenvolvimento da narrativa principal. Porém, no geral, por mais bobas que algumas missões possam parecer, ainda assim elas conseguem envolver o jogador de alguma forma, principalmente quando ele as tenta enxergar como mais do que apenas um conjunto de tarefas pequenas que o levam a uma recompensa.

As almas resgatadas lhe tornam mais forte

Por falar em recompensa, ao completar uma missão, você sempre recebe como bônus um acréscimo de poder em seus atributos principais (que são: HP, força e magia). Em alguns casos especiais, você pode aumentar sua barra de ATB, sua barra de EP (falaremos disto daqui a pouco) e a quantidade máxima de itens suportados pelo seu inventário.


O jogo não conta com um sistema de ganho de níveis através do acúmulo de pontos de experiência, adquiridos através das famosas batalhas aleatórias. Em vez disso, o jogador vai deixando Lightning um pouco mais forte a cada alma que ele conseguir salvar, e a cada nova arma, roupa, ou habilidade que ele conseguir conquistar.

Crème de la crème

Depois de ouvir isso, você pode pensar: “mas se as batalhas aleatórias já não são mais tão importantes para ‘subir de nível’, então qual é a graça de lutar contra hordas e mais hordas de oponentes?”. Bem, para começar, vale dizer que o novo sistema de combate é uma das joias da trilogia (e de toda a franquia).



Durante as lutas, o jogador assume total controle sobre os movimentos da heroína e pode alternar entre 3 instâncias de combate, designadas de Schema, com o simples pressionar dos botões L1 ou R1. Em termos mais familiares, o jogador pode trocar instantaneamente de classe durante as batalhas. E o melhor disso é que você mesmo customiza esse conjunto de instâncias para Lightning, de uma forma prática e intuitiva. Dos tipos de ataque às roupas e armas que a personagem usa, você tem um controle quase absoluto sobre a customização de cada um desses padrões (podendo configurar até esquemas de cores para cada roupa).
De cores à listas de comandos, praticamente tudo é editável no sistema de Schemata
Como uma síntese refinada do que está presente nos jogos anteriores, este novo sistema de batalha incentiva o jogador a ficar completamente focado nas ações que ocorrem em campo, e recompensa quem consegue pacientemente observar o tempo de cada golpe dos inimigos enquanto elabora uma estratégia de contra-ataque eficiente.
As batalhas são estratégicas, tensas e dinâmicas
Em batalha, até as mudanças de câmera servem como indicadores de quando o jogador deve agir frente às investidas inimigas. Cada ação em campo é valorizada tanto pela jogabilidade quanto pelo visual dos efeitos especiais, que provavelmente se destacam como os mais bem detalhados já feitos para os jogos da trilogia
Ao lutar contra os inimigos que surgem no mapa, você poderá ganhar dinheiro, armas, itens, habilidades especiais e, mais importante, uma boa quantidade de EP. Você poderá usar este EP para realizar sequências de ataques devastadores, para ativar o uso de habilidades especiais de cura, teleporte e até para congelar parcialmente o fluxo do tempo, algo que pode lhe render, literalmente, dezenas de horas a mais para completar sua árdua missão como salvador de almas.

Como se pode perceber, muitas coisas ainda podem ser obtidas através das batalhas aleatórias, talvez até mais coisas do que antes, em termos de utilidade real. Isso é tão verdade, que não serão raros os momentos em que você vai querer que algum inimigo apareça do seu lado oferecendo a oportunidade de se iniciar um embate.

Colírio para os olhos

Lightning Returns nos presenteia, pelo menos em parte, com um admirável trabalho de modelagem de personagens. Lightning e a maioria dos personagens principais ganham vida através de um nível de detalhes notavelmente superior ao que podemos ver tanto em Final Fantasy XIII (PS3) como em Final Fantasy XIII-2.



Grande atenção foi dada, também, às magias e às animações de combate da protagonista, que estão tão belas, elegantes e fluidas que dificilmente a gente se cansa de admirá-las.




Mas, como tudo tem um preço, para que essas melhorias fossem implementadas, foi necessária a retirada de recursos de outra parte do jogo: a modelagem de cenários.



Vistas de longe, as paisagens são belíssimas, mas basta o jogador se aproximar um pouquinho de qualquer elemento do cenário, ou até mesmo de algum NPC, para que ele perceba a baixíssima resolução das texturas, que se igualam, algumas vezes, ao padrão de qualidade de texturas que encontramos em jogos da era do PlayStation 2. Contudo, esses pormenores são obscurecidos pela presença de belos efeitos de luz, pela beleza artística das paisagens e pelo nível de detalhes da personagem principal.

Playlist gigante

Boa parte das faixas musicais mais consagradas de Final Fantasy XIII e Final Fantasy XIII-2, que ajudaram a estabelecer suas atmosferas, faz uma última aparição neste título final. Contudo, Lightning Returns conta também com mais de cinco horas de composições inéditas. Na soma de todas as faixas, temos, talvez, o Final Fantasy com maior quantidade de temas musicais da história da franquia.

Tem coisas boas de sobra aqui... Mas falta algo ali

Como nos jogos anteriores de Lightning e sua turma, neste aqui ainda existe a falta de um melhor refinamento na qualidade do estilo narrativo. Mas, apesar de a narrativa ter um passo lento, e de por vezes ela parecer desfocada, ainda assim ela consegue colocar um ponto final bastante digno na história que se iniciou com a luta de um grupo de l’Cies usados como instrumentos de destruição por deuses mesquinhos.



Ainda que este jogo não tenha muitas das características que fizeram títulos passados da franquia se tornarem algo tão marcante, é inegável o fato de que este e os outros dois jogos da trilogia trouxeram um arsenal considerável de elementos inovadores, que ainda podem abrilhantar e muito o futuro desta série.

Lightning Returns: Final Fantasy XIII mistura uma gama enorme de conceitos inusitados de jogabilidade. Em alguns casos, esses conceitos não se combinam muito bem, em outros, eles podem causar uma grande sensação de estranhamento no jogador. Mas, no fim das contas, a maioria dos conceitos é positivamente surpreendente e muito bem vinda.

Quanto mais entendemos as novas mecânicas, e quanto mais nos acostumamos com o mundo do jogo, mais nos sentimos imersos na miscelânea de gêneros que deu vida ao último capítulo da saga de Lightning. No geral, quando dominado, este é um jogo pura e simplesmente divertido, com uma quantidade enorme de conteúdo. Quem gostou do sistema de combate de Final Fantasy XIII e achou interessante a proposta do sistema de sidequests de Final Fantasy XII com o tempo terá Lightning Returns como um de seus jogos favoritos dentre os nascidos na franquia. Já que ele refina os traços de ambos os sistemas citados.

Prós

  • Sistema de Schemata estabelece palco para combates estratégicos, desafiadores e viciantes;
  • Alto fator replay (o jogo conta com New Game+ e três modos de dificuldade);
  • Um dos jogos mais inovadores da franquia;
  • Trilha sonora bela, extensa e diversificada;
  • Exploração mais clara da mitologia;
  • Apesar de a princípio parecer que não, o jogo estabelece um belo encerramento para a trilogia.

Contras

  • Narrativa lenta e com ocasional perda de foco;
  • Presença de sidequests simplórias e entediantes;
  • O jogo pode ser bem cruel com os jogadores de primeira viagem (na dúvida, use um guia e comece pelo modo Easy, sem medo!).

Lightning Returns: Final Fantasy XIII – PlayStation 3 – Nota: 8.0

Revisão: Rafael Neves

Samuel Coelho é apaixonado por literatura, música, filosofia e arte digital. Ex-aluno de Ciência da Computação na UFPa, ator amador e notívago inveterado, ele passa noites e noites em claro se afogando em tudo o que o fascina. Encontre-o no Facebook ou no Twitter.

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