Jogamos

Análise: Knack (PS4) diverte, mas está preso no passado

O primeiro jogo de plataforma do PS4 tem mecânicas arcaicas, mas ainda assim diverte


Quando o PlayStation 4 foi anunciado há pouco mais de um ano, muitos se empolgaram com o anúncio de Knack, jogo de plataforma que figuraria entre os títulos de lançamento do novo console. A empolgação era facilmente justificável, já que, apesar de ser produzido pelo Japan Studio, da própria Sony, o título contava com ninguém menos que Mark Cerny em seu time de produção. Para quem não sabe, Cerny foi o responsável pela criação de Crash Bandicoot, lá na época do primeiro PlayStation, e continuou colaborando com a Naughty Dog até o primeiro jogo da franquia Uncharted; também ajudando no desenvolvimento das principais franquias da Insomniac, como Ratchet and Clank e Resistance. Com um currículo desses, Cerny tinha a responsabilidade de emplacar mais um grande sucesso, desta vez no novo console da Sony. Infelizmente não foi bem isso que aconteceu, apesar da boa vontade da equipe.

“Eu lhes apresento: Knack!”

Knack é um jogo de plataforma que conta a história do personagem homônimo ao título, um ser constituído de poderosas relíquias que lhe dão grande força e habilidades de combate. O ser, criado por um cientista conhecido apenas como “The Doctor”, chega ao mundo com o objetivo de conter a ameaça dos Goblins, que vêm guerreando contra os humanos já há algum tempo. Mas não é apenas com eles que devemos nos preocupar. No início da jornada, o doutor apresenta Knack ao governo como sendo a grande esperança de salvação da humanidade, mas Vicktor, um poderoso empresário, fica com o orgulho ferido ao ver que a pequena criatura foi mais bem aceita pelo governo do que sua poderosa frota de robôs.

Knack, o doutor e o jovem Lucas
Como plano de fundo da guerra entre humanos e Goblins, temos as próprias relíquias que constituem Knack. Considerados como a mais nova fonte de energia do mundo, os pequenos artefatos passam a ser utilizados como combustível e como matéria-prima na produção de veículos e outros bens, o que acaba despertando a ambição de muita gente que não se preocupa com o bem estar da população, mas apenas com o próprio bolso.

Gundahar, o líder dos Goblins
Com isso, a jornada se inicia: de um lado temos Knack, o doutor, Lucas -  o jovem e talentoso assistente di doutor - e o tio de Lucas, um aventureiro charlatão que acha que é mais do que realmente é. De outro lado, temos Vicktor e sua agente de segurança pessoal, Katrina, uma mulher misteriosa e com uma agilidade sem precedentes. Por fim, ainda temos os Goblins, que, liderados pelo general Gundahar, desejam destruir toda a raça humana. O legal de tudo isso é que os três lados da história acabam dando uma grande dinâmica a ela, que se torna mais interessante conforme se vai avançando nos capítulos. Com pinta de animação da Pixar, a história do jogo é contada em belíssimas e empolgantes cenas que aos poucos constroem uma narrativa envolvente, leve e divertida. Aliás, a narrativa é uma das maiores qualidades do título.

Bater, crescer, correr

Talvez o único problema de Knack seja a forma com que seu gameplay foi concebido. Com a provável intenção de despertar nostalgia nos jogadores, Cerny optou por fases lineares em que Knack deve derrotar hordas de inimigos até conseguir chegar ao final de cada estágio, de maneira que a progressão do jogo remete diretamente ao clássico Crash Bandicoot. Isso não é necessariamente ruim, pois é muito fácil controlar Knack, mas é algo que acaba tornando o jogo bastante repetitivo. Com aproximadamente 12 horas de jornada, dificilmente o jogo permite que o jogador faça algo além de enfrentar inimigos e de procurar por relíquias e outros itens escondidos pelos cenários, o que pode frustrar os que esperavam por uma experiência menos linear.

Os cenários de Knack são bastante lineares
Para o jogador não sentir que o jogo é tão repetitivo, a desenvolvedora moldou a aventura de tal maneira que cada capítulo parece um episódio de algum desenho animado, já que, apesar de haver uma história maior rolando no fundo, cada capítulo possui uma conclusão em si mesmo e apresenta um ambiente completamente inédito. Jogar Knack transmite a mesma sensação de se assistir a um desenho leve e divertido no domingo de manhã, e isso nunca é ruim.

Knack pode coletar lascas de gelo para ficar mais forte
O design das fases infelizmente não é dos mais inspirados. Apesar de locações muito variadas, a construção das fases sempre segue um mesmo padrão, em que após umas duas ou três lutas, Knack salta de alguma beirada para as próximas três lutas, e assim sucessivamente. Entre uma luta e outra eventualmente temos alguma cena que dá continuidade ao enredo, e assim o jogo segue até o final.

Quando Knack fica gigante as coisas se tornam muito mais divertidas
Uma das coisas legais em Knack é sua capacidade de crescer e se transformar. O personagem, constituído de relíquias, fica maior conforme encontra mais peças espalhadas pelas fases. Com isso, sua barra de energia aumenta e sua força fica cada vez maior. Em algumas passagens, Knack até fica maior que prédios e é capaz de dizimar inimigos sem o menor trabalho, infelizmente, isso só ocorre nas situações em que os produtores desejaram que isso acontecesse. O sistema de gameplay, muito interessante, sofre com essas limitações, que acabam inibindo o jogador de querer buscar relíquias, já que Knack só vai ficar muito forte se os desenvolvedores quiserem que ele fique em um dado momento. Além dos artefatos, Knack ainda pode acumular lascas de gelo, madeira e até mesmo ferro, tudo para receber habilidades especiais e resolver quebra-cabeças. Infelizmente, assim como ocorre com o crescimento do personagem, as habilidades especiais só são concedidas em momentos chave, fazendo com que o jogador não se sinta livre durante a aventura.

Dark Souls para crianças

Apesar da temática infantil e da jogabilidade simplista, Knack apresenta um nível de desafio surpreendente. Quando está pequeno, Knack pode morrer com apenas um golpe do mais fraco dos inimigos, o que pode até frustrar alguns jogadores, já que os inimigos são implacáveis e é imprescindível que os controles de esquiva e ataque sejam inteiramente dominados para se obter sucesso nas batalhas. Conforme o personagem vai crescendo, sua barra de vida também cresce, e Knack vai se tornando mais resistente. Mesmo assim, bastam poucos golpes para que ele morra e os jogadores tenham que rejogar uma boa parcela da fase, já que o título não é nada generoso com checkpoints.

Não se engane pelo visual, pois o título é muito desafiador

Visual oscilante

Knack possui momentos visualmente brilhantes. As cenas são muito detalhadas, bem dirigidas e bonitas, e algumas fases saltam aos olhos dos jogadores por seu nível de qualidade e estética. Entretanto, essa não é uma constante do jogo: para cada fase muito bonita, temos uma feia e genérica, com texturas em baixa definição e que lembram até jogos da primeira leva do PlayStation 3. Para um jogo que devia carregar consigo a bandeira do quão único o PlayStation 4 pode ser, Knack falha por conta dessa evidente falta de capricho em certos momentos.

As fases em ambientes fechados não são nada bonitas
As músicas sofrem do mesmo problema: ora memoráveis, ora irritantes, elas acabam apenas cumprindo seu papel de música ambiente para a jornada. Destaca-se, no entanto, o trabalho de dublagem, seja em inglês ou em português do Brasil, em que o jogo conta com nomes como Luiz Feier Motta, o dublador de Wolverine. A localização para o nosso idioma também foi bem trabalhada e ajuda a transmitir ainda mais o clima de desenho animado do jogo.

Em busca do equilíbrio

Knack passa longe de ser a revolução prometida, mas também não é a desgraça que o pessoal mais ligado em console wars adora anunciar. Talvez o maior pecado de Knack seja tentar reviver os tempos áureos dos jogos de plataforma tridimensionais, apelando para a nostalgia e sem tentar inovar muito. Querendo ou não, o jogo parece datado, o que não é necessariamente ruim, pois quem sente saudade de jogos do estilo estará bem servido. Para completar, algumas escolhas erradas quanto ao design das fases e a própria jogabilidade acabam prejudicando o jogo, que pode frustrar em alguns momentos. Contudo, se esquecermos as megalomanias da indústria atual e nos lembrarmos dos motivos que nos faziam amar videogames há uma década, Knack divertirá bastante qualquer jogador. Basta deixar o preconceito e a desconfiança de lado.

Prós


  • Enredo divertido;
  • Personagens carismáticos;
  • Jogabilidade simples e divertida;
  • Boa dublagem;
  • Jornada surpreendentemente extensa.

Contras


  • Repetitivo;
  • Checkpoints mal distribuídos;
  • Muito linear;
  • Visual oscila entre lindo o horrível.

Knack – PlayStation 4 – Nota 7.0
Revisão: Samuel Coelho
Capa: André Perez Segato

Gabriel Vlatkovic é economista formado pela Unicamp. Trabalha como Analista de Finanças e joga videogames há quase vinte anos. Adora ouvir música, assistir a filmes e seriados e discutir a Timeline de Zelda. Quando não está trabalhando, está no Facebook.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook