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Análise: Rogue Legacy (PS Vita) é o game pra quem não cansa de morrer

O jogo da Cellar Door Games é o rogue-lite que você estava esperando para curtir o gênero no seu PlayStation Vita sem morrer de raiva.

Lançado há um ano para computadores, Rogue Legacy é um "rogue-lite" que mistura plataforma e ação, com direito a muito hack 'n' slash. Tem uma pegada metroidvania com Ghouls ‘n Ghosts e foi um dos melhores jogos de 2013. Finalmente, o título chega aos consoles da Sony: PS4, PS3 e PS Vita. E o melhor, com direito a compra cruzada (cross-buy) e salvamento cruzado (cross-save). Isso significa que você paga uma vez e pode jogar em qualquer um dos três consoles, salvar em um e continuar no outro de onde parou. A Cellar Door Games, desenvolvedora do game, e a Sony mandaram muito bem nesse aspecto, e agora podemos conferir como ficou a versão para o portátil da empresa.

Rogue o quê?

Talvez alguns não estejam tão familiarizados com o termo "rogue-lite", que é uma variação mais branda do gênero roguelike, que surgiu em 1980, com o clássico jogo Rogue, lançado para computadores da época. Trata-se de um dungeon crawling cujas principais características são:  permanent death (o jogo recomeça do zero quando o personagem morre), níveis aleatórios (cada nova partida traz o cenário de forma diferente) e combate por turnos (como JRPGs). A versão "lite" é menos punitiva e mais fácil, ficando mais convidativa ao público em geral. É justamente o caso de Rogue Legacy, em que as mortes não levam o jogo a começar do zero, o tipo de combate é ação e os níveis, apesar de aleatórios, podem ser fixados. A fórmula ficou bem mais acessível e agradável, já que nem todos gostam de perder todo o seu progresso a cada morte.

Um legado de heróis

O objetivo do jogo é bem simples: resgatar o rei no Castelo Hamson, que é amaldiçoado com toda sorte de desafios. Para isso, além inimigos e armadilhas, é necessário derrotar quatro grandes monstros, que se encontram em locais distintos do castelo, para então abrir uma porta para o desafio final. Um enredo bem simples, que não chega a envolver tanto e serve como pano de fundo para a jogatina desenfreada.

O que faz de Rogue Legacy um game único é a sua forma genealógica. A cada morte sofrida — e isso é bastante comum —, você volta com um novo personagem, herdeiro do anterior, e, diferentemente dos roguelikes tradicionais, o novo herói é mais forte que o antecessor e guarda toda a herança para si, como ouro, armadura, espada, elmo, runas e o forte da família, que vai crescendo a cada desbloqueio de classes diferentes (dez ao todo).
Nem vantagem nem desvantagem: ser gay é apenas um aspecto do personagem.
A cada recomeço, podemos escolher um dentre três personagens com características aleatórias, mas que guardam alguma semelhança genética com o herói anterior e influenciam na jogatina. Se o seu personagem tiver problema de visão, o cenário poderá fica em preto-e-branco, borrado em torno dele (se não enxergar bem de perto), ou com visibilidade normal apenas em volta dele— caso ele não enxergue bem de longe. Você pode ser um anão e passar por locais que exigem a sua estatura diminuta, além de ser mais difícil de ser acertado, mas também pode ser um gigante, com um alcance bem maior da espada, porém tornando-se um alvo fácil. São características positivas e negativas, que devem ser mensuradas a cada nova escolha, mas se quiser um conselho, fuja de personagens com vertigem, pois a tela fica de ponta-cabeça e é impossível jogar direito — sim, você irá virar o seu Vita e entortar a cabeça para jogar. Há algumas características ainda que estão ali apenas por pura diversão (bem comum no game) e não influenciam na jogatina, como ser gay ou sofrer de flatulência.
Por melhor que seja, se o personagem sofrer de vertigem, fica impossível jogar.
Há outros aspectos que devem ser levados em consideração na hora de escolher o próximo personagem. A classe, por exemplo, muda consideravelmente a forma de jogar: o bárbaro é mais forte e aguenta levar mais dano, mas usa menos magia; o mago é justamente o contrário, e possui muito mais mana; e o cavaleiro é aquele bom e velho personagem equilibrado. Com o passar do jogo, mais classes são desbloqueadas e podemos controlar ninjas — e depois hokages (Naruto aprova!) —, mineradores (conseguem mais ouro), assassinos e outras.

Saber misturar a classe com as características genéticas é a chave para enfrentar os inimigos com menor dificuldade. Alguns chefes serão bem mais difíceis com determinado herói, então é necessário aprender bem a utilizá-los. Claro, as suas próprias habilidades em controlar um ou outro tipo também devem ser consideradas na hora da escolha.
Provavelmente, este será o segundo chefe que você conseguirá vencer.
Outro fator a ser considerado é a árvore de habilidades, ou melhor seria dizer "castelo de habilidades". Ao seu preço, as classes e habilidades podem ser desbloqueadas de forma permanente, aumentando o tamanho do forte da família. Além disso, também podemos investir em elmos, armaduras, espadas etc. com o ferreiro; e runas e habilidades especiais com a feiticeira. Ambos cobram por seus serviços e, como você já deve ter percebido, esse jogo é muito ganancioso e será necessário explorar muito o castelo em busca de tesouros.
O forte de habilidades começa pequeno, mas logo estará bem completo.

Castelo amaldiçoadamente aleatório

O tal castelo, a cada nova empreitada, está com um layout diferente. Os monstros e armadilhas estão em locais distintos também, prontos para dar um fim à sua linhagem. Os únicos que depois de derrotados continuam dessa forma são os quatro chefes. Caso contrário, seria um trabalho muito árduo e intimidante para a maioria dos gamers.
Inicialmente, os inimigos são muito fortes para o nosso personagem.
Vale dizer, mesmo esse aspecto de aleatoriedade pode ser mitigado quando desbloqueamos o arquiteto, que por uma "pequena" quantia de 40% de toda grana que você conseguir naquela incursão, irá fixar o castelo, fazendo com que seja o mesmo da tentativa anterior, com tudo no mesmo canto, mapa e portais desbloqueados. É uma boa opção quando estamos enfrentando um chefe ou tentando adquirir um baú de tesouro especial e não queremos procurar por eles novamente. Tirando esses momentos, não vale tanto a pena, pois o dinheiro é algo muito importante para conseguir melhorar o seu personagem e progredir no game com mais facilidade.
Saber quando usá-lo é importante, mas quando não usá-lo também.
Os inimigos que aparecem, como ninjas, esqueletos, olhos que atiram projéteis, bem como as armadilhas da fase — espinhos, baús falsos, quadros assassinos, lança-projéteis etc. — formam uma ótima mistura, que levará o jogador a afiar suas habilidades em saltos por plataformas e criar afinidade com algumas classes que combinem com a sua forma de jogar.

Outras surpresas interessantes são os desafios para conseguir determinados baús com melhores tesouros, como derrotar todos os inimigos daquele salão, passar por um trecho sem tomar dano, desviando das armadilhas, chegar até o destino sem saltar etc. Vale a pena utilizar o arquiteto para realizar quantas tentativas forem necessárias, pois geralmente o prêmio compensa o esforço.

Interessante é que, se você achou o game fácil demais, após terminar a primeira vez, poderá jogar o "New Game +", mantendo toda sua herança adquirida, como runas e armas. Naturalmente, o desafio será muito maior.

O estilo Ghouls ‘n Ghosts agrada pela referência, mas também não se destaca e talvez seja a parte menos interessante do título. Talvez tenha sido essa a intenção do pessoal da Cellar Door Games, ou apenas o fato de ser um jogo indie com menos investimento que outros que conhecemos. Seja como for, está longe ainda de outros belos títulos que já vimos no PlayStation Vita.

Uma herança para todo Vita

O estilo roguelike sempre teve um público muito específico e pequeno. Convenhamos, não é todo mundo que gosta de morrer e dificuldade excessiva. Rogue Legacy chegou para popularizar o gênero, puxando mais pela sua variação: rogue-lite. A escolha pode até não agradar tanto aos fãs do estilo, mas certamente conquistarão muito mais adeptos e, talvez, também ajudará a popularizar os jogos roguelikes. Seja como for, Rogue Legacy já deixou seu legado nos computadores e é um título obrigatório para o PlayStation Vita.
O pessoal da Cellar Door Games mandou muito bem neste jogo.

PRÓS

  • Todo em português brasileiro;
  • Excelente jogabilidade;
  • Replay praticamente infinito com a aleatoriedade das fases, diversas classes e características genéticas distintas.

CONTRAS

  • Visual apenas mediano.
Rogue Legacy — PlayStation Vita — Nota: 9.0
Capa: Diego Migueis
Alberto Canen é formado em Direito pela UFRN. Joga videogame desde os tempos do Atari e sempre acompanha as novidades na indústria de jogos. Está no Facebook e no Twitter.

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