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Análise: Em Rogue Legacy (PS3), todos podem ser heróis

Jogo da produtora independente Cellar Door Games mistura elementos de roguelikes, plataforma 2D e ação de forma viciante e acessível.


Roguelike é um dos gêneros mais antigos que se tem notícia, com uma base de fãs pequena mas fiel. Títulos do gênero costumam se guiar pelo tripé mágico formado pelo clássico Rogue nos longínquos 1980: geração aleatória de conteúdo, mortes com consequências permanentes e dificuldade elevada. O resultado são games extremamente viciantes, porém nada acessíveis.


Rogue Legacy, jogo para PS3, destila esses elementos e os junta com outros de plataforma, em um metroidvania, numa tentativa de fazer algo desafiador mas que não aliene jogadores menos habilidosos — como os próprios desenvolvedores declaram, um “rogue-lite”, onde todos podem ser heróis. O resultado é bom, apesar de poder parecer “rogue” de menos e “lite” demais para alguns.

Escolha seu herdeiro

Tudo começa com a seleção de seu personagem. O jogador pode escolher entre três heróis distintos, cada um com características diferentes, podendo trazer vantagens e desvantagens inatas. Um deles, por exemplo, pode sofrer de gigantismo — o que aumenta o alcance de seus golpes, mas dificulta a movimentação em espaços estreitos. Ou ele pode ser míope e ver tudo borrado a certa distância. Talvez seu traço sequer tenha alguma importância, tendo efeito meramente cômico — quem sabe ele apenas tenha uma doença intestinal e libera gases de vez em quando.

O escolhido fica incumbido da missão de adentrar o Castelo Hamson e resgatar o rei. Para tal, deve destruir quatro grandes monstros que selam a porta do trono. Concluir este objetivo não é das tarefas mais fáceis, visto que o castelo sequer possui um mapa: a disposição das salas, número de inimigos, armadilhas e tesouros são gerados aleatoriamente.

O layout da construção até segue alguns princípios básicos — a floresta está sempre à direita, a torre sempre acima — mas, no geral, o herói deve contar com a sorte ao seu lado. Mesmo os inimigos mais simples podem matá-lo com poucos golpes, e itens que recuperam a vida ou magia são escassos. Basta uma sala gerada maliciosamente, com excesso de armadilhas ou oponentes fortes, para que o resultado seja a morte — antes mesmo do jogador sequer ver o primeiro chefe.

Mas morrer é apenas o começo da aventura. Ao falecer, o guerreiro passa seu legado para um herdeiro. O jogador, mais uma vez, escolhe um dentre três personagens disponíveis, gerados aleatoriamente. O descendente recebe não apenas a missão, mas também ganha todo o ouro e itens adquiridos por seu pai. Esses recursos podem ser usados na ampliação da mansão da família, que funciona como uma árvore de habilidades, garantindo novas classes, aumento permanente de estatísticas e habilidades. Também podem ser feitos investimentos em armas, armaduras e magias que foram resgatadas pelo seu antepassado — desde que se pague ao ferreiro e a feiticeira o valor apropriado.

Esta é a única chance que o jogador tem de usar o dinheiro adquirido. Antes de adentrar mais uma vez no castelo, o herói deve entregar todo seu ouro para Caronte, que guarda os portões do local. O sucesso da investida dos herdeiros está no gerenciamento inteligente das riquezas da família. Você deve gastar o máximo que se pode antes de uma nova tentativa.

Ao passar pelos portões, a sorte está lançada mais uma vez. Um novo layout e salas são gerados, restando ao descendente reexplorar a fortaleza e tentar chegar mais longe do que seu antepassado — ou morrer tentando, passando o legado para um filho ou filha.

“Meus deveres são com minha família”

Esse sistema de legados é divertido e torna cada nova investida ao castelo empolgante. Por mais frustrante que seja cada morte, há um senso de progressão, e a impressão de que nada foi em vão. É comum entrar no castelo com aquela sensação de “agora sim vou conseguir vencer aquele chefe!”, e a consciência de que, mesmo morrendo, pode-se investir os recursos adquiridos em personagens mais fortes, algo reconfortante.

No entanto, isso acaba anulando a aparente dificuldade do jogo. O título é desafiador para os padrões modernos, mas não chega nem aos pés do que se espera de um roguelike. A única punição, de fato, trazida pelas mortes é a obrigação do jogador explorar o castelo desde o início — uma tarefa nem de longe penosa, visto que as salas são geradas aleatoriamente, nunca passando a impressão de que se está passando pelos mesmos lugares de novo.

Na verdade, sequer é preciso reexplorar tudo: os chefes derrotados permanecem mortos. É possível se focar em combater os guardiões das áreas não exploradas, ignorando partes do castelo já vencidas.

Os chefes são relativamente difíceis… a princípio. Em tese, basta investir o ouro adquirido em cada tentativa de derrotá-lo na compra de uma nova armadura ou aumento de alguma estatística, até que um herdeiro esteja forte o suficiente para derrotar o oponente com poucos golpes.
Assim, a dificuldade de Rogue Legacy acaba sendo mitigada pela pura persistência. Mesmo que o jogador não fique mais habilidoso, desde que ele invista em novas armas e habilidades, o simples fato de ele tentar de novo lhe dá a garantia de que irá mais longe e vencerá mais inimigos.

Basta dar um pouco de
dinheiro para esse cara
e seus problemas com o
layout do castelo acabam.
Isso também influencia a relação do jogo com a geração aleatória de conteúdo. Em games tradicionais do gênero, é essencial entender como funcionam os fatores randômicos. Espera-se que o jogador experiente tente usar a sorte ao seu favor, dobrando e abusando dos sistemas do título.

Rogue Legacy concentra-se muito mais na anulação, ao invés do uso, da sorte. Há um foco no investimento em mudanças permanentes de status e itens, a fim de que eventuais desvantagens genéticas dos personagens gerados possam ser ignoradas. Sacrificando um pouco de ouro, inclusive, é possível até mesmo “trancar” o layout do castelo, fazendo com que o único elemento aleatório seja a geração de herdeiros. Mesmo este elemento pode ser manipulado posteriormente, tornando a sorte negligenciável, desde que se pague o bastante.

“Mas só sou fiel a mim mesmo”

Tais decisões não são necessariamente ruins, de forma alguma. Elas são apenas… diferentes. Algumas delas foram tomadas deliberadamente pelos desenvolvedores para que o jogo apelasse para um público maior do que os fãs de roguelikes — e nisso eles foram extremamente bem-sucedidos. Rogue Legacy pega os elementos que tornam o gênero viciante e os coloca num pacote acessível e bem feito, com gráficos competentes e ótima trilha sonora.

Mas é importante salientar: os que estão procurando um roguelike podem acabar levantando um pouco as sobrancelhas com esse rogue-lite, com ênfase no lite. Este é um jogo para as massas, num gênero que sempre foi considerado de nicho.

Prós

  • Ótimo ritmo, cada nova tentativa é empolgante e recompensadora
  • Desafiador para os padrões modernos, mas acessível
  • Bastante variedade e forte fator replay
  • Ótima trilha sonora

Contras

  • Pode não agradar os fãs de roguelikes mais tradicionais
  • Visual meramente competente, sem nada de especial

Rogue Legacy - PS3 - Nota: 8,0

Revisão: Jaime Ninice
Capa: Daniel Silva
Lucas Pinheiro Silva é analista de sistemas web por profissão, gamer por vocação. Tem grande interesse em game e level design, o que o levou a escrever para o PlayStation Blast. Em seu Facebook e Twitter também fala de outras coisas, como HQs, música e literatura.

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