Blast from the Past

Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots (PS3): o último ato de um herói

A última missão de Solid Snake não é fácil, mas é uma despedida digna de um bravo soldado.

Já faz sete anos que nos despedimos de 2008. Na época o Brasil nem sonhava com o 7x1, Obama ainda era só o candidato à presidência dos EUA e o MSN era o rei da comunicação virtual. Pois é, meu amigo, muita coisa mudou nesse meio tempo. Mas algo que aconteceu lá atrás foi bem parecido com o que temos hoje em dia: a expectativa por um novo (e último) Metal Gear. No caso, Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots.

Após o sucesso que foi MGS3: Snake Eater, lançado em 2004 para PS2, os fãs clamavam para que Hideo Kojima fechasse a história, que havia ficado aberta após MGS2: Sons of Liberty. Mesmo com o produtor declarando várias vezes que gostaria de focar em outras coisas, não teve jeito. Por mais uma vez ele iria trabalhar em seu “último Metal Gear”.

Como tal, MGS4, para o bem e para o mal, é um jogo feito inteiramente para os fãs da série, que acompanharam a saga de Snake ao longo dos anos, e teria ali seu momento final.
Preste atenção, que vai começar!

Here's to you

A história se passa em 2014, cinco anos após o incidente da Big Shell. O mundo se tornou um local onde o principal motor da economia mundial é a guerra. Conflitos eclodem em diversos cantos do planeta. Isso é facilitado pela proliferação das PMCs (Private Military Companies/Companhias Militares Privadas). Exércitos sem nação, contratados para lutar por um cliente. Não havia motivação ideológica, apenas dinheiro.

Sob esse contexto, encontramos Solid Snake mais velho. Mas muito mais velho do que seus 42 anos aparentam. Devido às alterações genéticas, por ser um clone de Big Boss, Snake está sofrendo de um envelhecimento acelerado. E as expectativas não são das melhores. Ainda assim, um encontro com um velho conhecido o leva para uma última missão.

Roy Campbell vai atrás de Snake e pede que ele execute uma tarefa: eliminar Liquid Ocelot. Liquid é dono da empresa que administra as cinco maiores PMCs do mundo, e parece ser uma questão de tempo até que ele faça seus movimentos para instaurar o caos, na sua luta contra os Patriots. Após anos sem ser visto, registros apontam que o vilão está no Afeganistão. E só Snake poderia detê-lo.
BROTHEEEEEEEEEEEER
Mesmo com os problemas de saúde, Snake ainda consegue ser um agente fora de série, fazendo jus às histórias sobre sua pessoa. Porém é interessante ver que eventualmente ele acaba tendo algum ataque de tosses, ou com dores nas costas. Esses pequenos momentos mostram que o herói não é imortal, e pelo caminho que está trilhando provavelmente não haverá volta.

Esse clima de “fim” é uma constante durante o jogo. Isso pode até ser visto como uma mensagem de Kojima. Tanto ele como Snake já estavam cansados, mas pela necessidade de cumprir sua missão, estão nessa para acabar com tudo.

Rest forever here in our hearts

Metal Gear Solid 4 é um grande poço de nostalgia, e ele não faz a menor questão de esconder isso de você. Da lista de personagens, que praticamente traz todo mundo que apareceu na série e ainda está vivo, até piadas e referências nas falas de Snake, sempre aparece algo do tipo.

Diversas passagens do jogo também são reedições de momentos passados, como a fuga de moto junto com a Big Mama e, claro, o fatídico retorno a Shadow Moses, que talvez seja um dos momentos mais emblemáticos para os jogadores. É impossível não se emocionar ao revisitar a base onde tudo começou.

Um ponto interessante aqui é falar sobre as quatro chefes da Beauty and the Beast Unit. Cada uma delas é uma mistura de chefes de jogos anteriores: o nome é de um membro da FOXHOUND (MGS1), a arma vem de um dos membros da Dead Cell (MGS2) e sua emoção é referência a um membro da Cobra Unit (MGS3).

O conceito dessas personagens também é bem interessante. Todas são garotas vítimas da guerra, com histórias trágicas. A única maneira de continuarem vivendo, lidando com o terror pelo qual passaram, era abandonar sua humanidade.

Mas apesar de uma boa ideia, nenhum desses combates foi memorável para mim pela luta em si. Lembro-me da Crying Wolf mais por ser uma luta quase análoga a da Sniper Wolf e por ser em Shadow Moses, e da aparição de Psycho Mantis na luta contra a Screaming Mantis mais do que a luta em si.
B&B Unit

The last and final moments

Mecanicamente, MGS4 envelheceu de uma maneira peculiar, digamos assim. Pequei-o para jogar novamente, para escrever esse artigo, e não tive muita dificuldade em fazer o básico, como andar pelos cantos e atirar. Porém, o sistema para detectar inimigos não funcionou 100%.

Ao invés de um mapa normal (que fica no menu de pausa), você conta com um sensor que te mostra a posição de outros NPCs em um minirradar. Ao mesmo tempo, ao se aproximar de um soldado, um círculo se forma ao redor de Snake, como se fosse um bambolê. Aproximar-se do soldado faz com que o ponto do círculo se eleve. Se você for visto, o círculo fica vermelho.

Snake passando por pequenos contratempos
Confesso que, da primeira vez que joguei, achei muito melhor do que no MGS3. Porém hoje, Ground Zeroes conseguiu aprimorar essas ideias, deixando o jogo muito mais fluido. Por isso, voltar para Guns of the Patriots foi meio estranho no começo, mas depois que me readaptei, foi bem tranquilo.

O sistema de itens/armas também deixa a desejar. Aqui, novamente tivemos boas ideias, mas que foram melhoradas diversas vezes em Ground Zeroes. Durante o jogo, você tem um número limitado de armas e itens para equipar, mas tem diversas opções no seu inventário. Porém, apesar de existir uma gama imensa de armamentos, e a possibilidade de customizá-los, isso pouco importa. No final, duas pistolas e duas metralhadoras “padrão” sempre resolvem. No máximo você pode optar por um rifle de precisão ou algum lança-mísseis, mas são coisas bem pontuais.

Sair atirando em tudo não é um problema também, já que você tem muitas armas, e o processo de atirar por si só, é bom. Porém, para um jogo de um agente secreto, talvez essa opção não devesse ser tão acessível, ou pelo menos ser mais desafiadora.

Tranquilizantes, é tudo o que eu preciso
Por fim, não tem como não mencionar as intermináveis CGs, que passavam de meia hora. Não raramente você sai de uma CG para entrar em outra. Mas na época, acredito que as pessoas relevavam muito isso, porque era Metal Gear.

That agony is your triumph

Antes de ler as considerações finais, peço gentilmente que coloque a música abaixo para tocar:


Guns of the Patriots não é um jogo para novatos em Metal Gear ou para quem quer só um jogo casual. É uma obra que foi feita tendo em mente todos os fãs da série. Se você nunca jogou nada da franquia, começar por ele simplesmente não faz sentido - quase toda a carga emocional do jogo não iria funcionar.

MGS4 é grandioso em tudo o que se propõe, com o objetivo de mostrar os momentos finais de uma história guardada com carinho por muitos. Como mencionei antes, o clima de “reta final” está presente em quase todos os momentos. Há um misto de nostalgia com saudade antecipada.

O epílogo, embora não mostre o final planejado por Hideo, que queria Snake e Otacon mortos, é muito bonito. É explicativo e também é uma carta do criador para com o seu público. As mensagens finais, para que Snake vá viver sua vida, que a batalha acabou, também valem para nós, jogadores. Agora que as amarras do velho mundo se foram, é hora de viver o novo.

E no final foi bom, não foi?
Revisão: Vitor Tibério
Capa: Diego Migueis
Flávio Augusto Priori é formado em design de jogos e tenta ganhar a vida com esse negócio chamado video game. Para ele Metal Gear é a melhor série já feita e ainda acredita na volta da SEGA. Escrevia para o saudoso Minha Tia Joga LoL e hoje pode ser achado no Facebook e no Twitter.

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