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Análise: Uncharted 4: A Thief's End (PS4) é a aventura mais bonita que já se viu

Após alguns adiamentos, Uncharted 4: A Thief’s End finalmente está disponível para o público.

Minha paixão pela franquia da Naughty Dog vem de tempos antigos. Uncharted: Drake's Fortune (PS3) e Uncharted 2: Among Thieves (PS3) foram um dos primeiros títulos que eu joguei quando comprei meu PlayStation 3 em 2010. Desde então, me tornei uma grande admiradora de jogos de tiro em terceira pessoa. Os elementos de exploração, puzzles e caças aos tesouros tornaram essa minha afeição pelos jogos ainda maior. De longe, foram as histórias que eu mais visitei na primeira fase de vida do meu console naquele ano, com um destaque especial para Among Thieves, responsável pelo meu primeiro troféu de platina da vida.


No final de 2011, veio o tão esperado Uncharted 3: Drake's Deception (PS3). Em termos de história e narrativa, não me agradou tanto quanto o segundo da série. Porém, as evoluções tanto na parte gráfica, quanto na mecânica de combate e ação me fizeram ter um carinho bastante especial por ele. Minha maior preocupação em relação ao atual e tão mais aguardado Uncharted 4: A Thief's End (PS4) era justamente se ele conseguiria agradar tanto em termos de história e narrativa, como o segundo, e em mecânicas e design, como o terceiro.

Amor à primeira vista

É impossível negar o deslumbre causado assim que se começa Uncharted 4: A Thief's End. O jogo possui uma qualidade gráfica e sonora incrível, que encanta qualquer jogador desde o primeiro momento. Com toda certeza, é o jogo mais bonito já visto em um PlayStation 4 até o momento. Apesar de ser uma comparação ousada, talvez ele supere até mesmo The Witcher 3: Wild Hunt no PC, pois enquanto este é bonito em dimensão e grandeza, Uncharted se propõe a ser também nos detalhes.

O trabalho presente nesse jogo em termos de design é cinematográfico. É realmente impactante perceber os nuances que a Naughty Dog teve ao desenvolver o jogo. O que mais chama atenção são o quanto as expressões dos personagens que se aproximam da realidade. Quando o jogador nota que até mesmo os músculos da face se contraem durante uma fala ou demonstração de emoção, significa que ele realmente tem algo de especial. Desconheço outro jogo que explore tão bem isso quanto Uncharted mostrou em seu quarto capítulo da história da franquia.

Mudança de diretriz

É engraçado como se consegue perceber a mudança na franquia em Uncharted 4: A Thief’s End. Nos primeiros jogos, a experiência ficava muito mais focada na ação de tiro em terceira pessoa, na exploração do combate e das armas, agora, vemos de outra forma. Diferentemente do que estávamos acostumados, o jogo se foca muitos mais nos elementos de narrativa, fazendo um contraponto com os intervalos intensos de ação. Isso tudo de uma maneira que a ação seja justificada pela história que está sendo contada. Drake's Deception não foi tão bom nesse aspecto justamente por se propor a colocar muitos combates e tiros com a motivação fraca para tal. Dá para perceber claramente que a ação por si só está longe de ser o foco de A Thief’s End, ela acontece para justificar o enredo, o que a torna muito mais fluida e palatável.

Essa mudança pode ser até frustrante para alguns jogadores, que vão em busca de Uncharted 4 para ter mais daquilo que viram no passado, mas não foi o meu caso. Pelo contrário, o jogo consegue fazer uma mistura muito interessante entre as cenas de ação com as cenas de história. Nessa questão, A Thief’s End até se aproxima do que foi o segundo episódio da série, mas consegue fazer isso de forma ainda mais magnífica. Esse ponto vai muito além do que simplesmente a forma como o jogo é apresentado, ele faz parte do amadurecimento de Nathan Drake, personagem principal. Caçar tesouros não deixa de ser interessante, mas deixa de ser a principal motivação para que a ação se mostre presente. A Naughty Dog acertou muito, não poderia ter sido melhor.

O mundo não tão aberto

Todas as vezes que se falava de mundo aberto durante o desenvolvimento de Uncharted 4: A Thief’s End, batia um leve receio de para onde isso levaria a série. Apesar de sempre ter gostado bastante dos jogos com proposta similar, não via como isso se adequaria a franquia. Só após ter contato com o produto final foi que entendi a real proposta: Uncharted 4 não é um jogo de mundo aberto, mas fornece ao jogador um vasto mundo para ser explorado. Ou seja, ele mantém os moldes e a essência do que foi Uncharted na sétima geração, com uma certa cronologia linear, porém, permite que a exploração dos ambientes seja muito maior e mais dinâmica, de forma a balancear muito bem a equação.

Mais correto do que pensarmos em mundo aberto seria pensarmos em exploração. Encontrar relíquias escondidas sempre foi um dos pontos altos de Uncharted, em A Thief’s End não poderia ser diferente. Só que dessa vez, a quantidade de áreas a serem exploradas e reviradas para encontrar tesouros, cartas e falas/comentários opcionais dos personagens estão bem mais espalhadas pelo jogo. Mesmo tendo me dedicado bastante na exploração durante a minha jogatina, encontrei, ao final do jogo, apenas 31 tesouros de 109 disponíveis.

A introdução de comentários e falas opcionais em Uncharted 4: A Thief’s End certamente é um legado do trabalho que foi feito em The Last of Us. Consiste naquela mecânica simples de estar em um ambiente novo, aparecer um balão de fala ao lado da cabeça de algum outro personagem e ter a opção de ativá-la pressionando o botão triângulo. Vale acrescentar que todos os diálogos do jogo estão sensacionais na língua original, inglês. Se o idioma for um empecilho, sugiro acrescentar as legendas em português, mas jamais jogue na versão dublada. Não é que a dublagem para o português esteja muito ruim, mas a atuação, entonação e todos esses detalhes ficam muito mais vivos no áudio original. Vale a pena prestigiar o trabalho incrível feito por Nolan North (Nathan), Troy Baker (Sam), Emily Rose (Elena), Richard McGonagle (Sully) entre outros.

Eis que surge Samuel Drake

Um fato que estava deixando todos um pouco apreensivos era a inclusão de um novo personagem na trama, o Sam, irmão do Nathan. Por ele não ter sido mencionado em nenhum outro jogo anterior da série, sua existência poderia ser um pouco estranha caso não fosse bem trabalhada. A necessidade de um bom enredo para sua aparição era mais do que evidente, pois caso sua história fosse fraca, poderia gerar grandes problemas para o título como um todo. Felizmente, a Naughty Dog soube exatamente como fazer. Foi um trabalho realmente fantástico. Aprovei muito a chegada de Samuel Drake, porque além de ser um personagem muito interessante, trouxe um pouco do passado, até então, desconhecido de Nathan, esclarecendo, no processo, a relação entre eles.

Apesar de ser o mais novo, Nathan demonstra uma maturidade muito maior que o irmão. As experiências passadas do protagonista contaram muito para esse desenvolvimento e a maneira como ambos lidam com essa diferença é elaborada durante o jogo de um jeito excelente, através de vários diálogos nas horas em que menos se espera. A história mostra exatamente o por quê deles chegarem nesse ponto com personalidades tão diferentes.

Belo, recatado e do lar

Uncharted 4: A Thief’s End não foca apenas na relação com Sam, mas sim, em tudo que acontece de diferente na vida pessoal de Nate. Em diversas partes do jogo a Elena “rouba a cena” de tão maravilhosas que são suas participações. Os dois agora são casados e toda a cumplicidade entre eles é retratada de maneira sensacional. Dá gosto de ver o bom trabalho desenvolvido nesse aspecto. Para citar um exemplo, há um “easter egg” em que o Nate lê uma mensagem da sua ex, Chloe (que teve sua primeira aparição em Uncharted 2), e apenas a ignora. O querido Victor Sullivan, o Sully, também tem um papel muito legal dentro do enredo.

Dentre os antagonistas Rafe Adler e Nadine Ross, o destaque fica para Nadine. Mulher inteligente, forte, negra e empoderada, é tudo que precisamos ter cada vez mais dentro do cenário dos videogames. Mais um grande acerto da Naughty Dog.

Luz, câmera, ação!

Além de ter toda a parte glamourosa da narrativa, A Thief’s End também empolga na ação. A melhor nova mecânica foi a possibilidade de voltar a se esconder de inimigos mesmo após ter sido descoberto. Apesar de não ter conseguido usá-la efetivamente em alguns combates, é bem útil para aplicar ataques furtivos e eliminar o maior número possível de inimigos sem a necessidade de trocar tiros. As escaladas e pedras desmoronando continuam presentes, e até Nathan faz piada dentro do jogo quando algo não desaba, é bem divertido.

Apenas dois únicos pontos deixaram a desejar. O primeiro deles é a movimentação da câmera em combates corpo a corpo, poderia ter sido melhor trabalhada pois, algumas vezes, não mostra o outro inimigo vindo atacar por outro ângulo e o jogador acaba ficando perdido no meio da luta. O segundo ponto é que os puzzles foram divertidos mas poderiam ter sido melhores, no sentido de que não há grandes dificuldades para passar por eles. Não é aquele tipo de quebra cabeça que você se sente super inteligente ao finalizar, apenas mais um obstáculo que você pensa: “Ahh… Ok. Era só isso.”, devido ao tamanho e a importância de Uncharted 4: A Thief’s End, esperava um pouco mais.

O modo multiplayer é uma excelente forma de prolongar a vida do jogo. São muitas possibilidades e mecânicas exclusivas para esse modo, que fornecem a dinâmica necessária para seduzir os jogadores. Em comparação com o mesmo modo dos jogos antigos da série, esse, sem dúvida, foi o que mais me divertiu.


Eu gostaria de poder desenvolver mais sobre a história do jogo, que realmente me cativou. Todavia, prefiro deixar que todas as descobertas fiquem com vocês. Jogar Uncharted 4: A Thief’s End foi uma experiência incrível e reafirma que a indústria de jogos pode sempre nos contemplar com excelentes surpresas.

Prós

  • Melhores gráficos já vistos;
  • Trata o amadurecimento da série de forma sólida;
  • Muitas áreas diferentes para serem exploradas;
  • Diálogos muito bem elaborados;
  • Relação entre Nate e Sam;
  • Possibilidade de voltar a se esconder dos inimigos;
  • Modo multiplayer prolonga a vida do jogo;
  • Narrativa como um todo.

Contras

  • Puzzles pouco desafiadores;
  • Câmera ruim durante combate corpo a corpo.
Uncharted 4: A Thief’s End — PS4 — Nota: 9.5
Ana Krishna Peixoto é formanda em Ciências Econômicas pela UERJ. No Blast, é redatora e revisora. Suas paixões são os esportes (sobretudo o futebol e o jiu-jitsu), os livros, a escrita e os videogames. Fã de PlayStation, não nega sua queda pela Nintendo. Pode ser encontrada no Twitter.

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