#Persona20th - Shin Megami Tensei: Persona (PS/PSP)

Uma cidade pequena, adolescentes colegiais, possessão demoníaca e questões relacionadas à psique humana se misturam nesta primeira aventura que define algumas tradições da franquia.

Nesta segunda semana do especial #Persona20th, onde celebramos os 20 anos da série de RPGs mais descolada do Japão, vamos falar sobre o jogo que não apenas deu início à franquia, mas que também marcou a chegada da Atlus no ocidente, Shin Megami Tensei: Persona (PS/PSP), também conhecido por essas bandas como Revelations: Persona.

O despertar para um novo universo

Quem já deu uma olhada no primeiro texto desta série, onde damos uma geral nos principais temas da franquia, sabe que Persona existe graças ao Shin Megami Tensei If...(Multi), que foi sucesso de público e crítica na época do seu lançamento. Os elogios feitos à temática e à ambientação fizeram com que a Atlus tomasse a decisão de criar uma subsérie que juntasse todos esses elementos em uma nova proposta narrativa.
Shin Megami Tensei IV é uma ótima porta de entrada para o mundo da franquia.
Desta forma, surgiu em 1996 o que conhecemos hoje como Persona, uma coleção de jogos que exploram o relacionamento de adolescentes entre si e a forma como eles lidam com o mundo e seus conflitos internos. Mas, esse não foi o primeiro jogo da série no qual eu coloquei as mãos. Apesar de recordar vividamente de entrar na lojinha de jogos do bairro e ver a caixa de Revelations: Persona – a primeira versão do primeiro jogo a chegar por estas bandas –, eu só me iniciei mesmo com Persona 4 Golden (PS Vita).

Mas, isso não foi o bastante para me convencer a jogar toda a franquia. A vontade de explorar a aventura inicial só veio mesmo após zerar Shin Megami Tensei IV (3DS), jogo da linha principal que traz uma temática mais séria e uma ambientação muito mais adulta do que aquela que vemos na subsérie. A estética de Revelations, assim como a do remake para PSP lançado em 2009, mostra bem a conexão com o passado da franquia, e isso é o que me fez querer embarcar na viagem.

Explorando o eu verdadeiro

Acho que todo mundo já deve ter escutado a história da temível Loira do Banheiro na escola, não é? Os mais corajosos provavelmente foram um passo além e encararam de frente o espelho para tentar chamar a coitada. Em Persona, um grupo de amigos faz exatamente isso. Eles se juntam em uma sala vazia da escola St. Hermelin para realizarem um jogo/ritual chamado “Persona” que, ao ser finalizado, daria a eles poderes místicos.

Assim como não acreditávamos na real existência da Loira do Banheiro, a turma também não botava nenhuma fé nessa história de receber poderes, quando, subitamente, uma garotinha de roupa branca surge no meio da sala. Ao notarem sua presença, cada um dos estudantes é atingido por um raio que os leva para um lugar entre o consciente e o subconsciente, onde Philemon – que representa a consciência coletiva humana – dá a eles a habilidade de invocar personas.


De volta à enfermaria do colégio, e sem apresentar qualquer dano físico, o grupo resolve ir ao hospital da cidade de Mikage-cho para visitar Maki, uma colega de classe com sérios problemas de saúde e que permanece confinada a uma cama há alguns meses. Ao chegarem lá e conversarem com a jovem, que se encontra em um péssimo estado físico e mental, ela revela que também entrou em contato com uma entidade muito parecida com Philemon. Porém, é nessa hora que tudo começa a ficar ainda mais estranho, pois ela é levada às pressas ao centro cirúrgico, ao mesmo tempo em que um terremoto atinge o local.
A versão de PSP ganhou animações novinhas em folha.
Durante a confusão, todos percebem uma mudança na estrutura do hospital, já que a porta para o centro cirúrgico, por onde a amiga acabara de passar, agora não levava a lugar algum. Ao ouvirem um grito no andar de baixo, eles correm em sua direção e encontram uma cena horripilante: demônios invadindo a cidade e atacando todos os humanos que vêm pela frente. Com o poder das Personas, cabe ao protagonista e aos seus amigos descobrirem o que está por trás destes acontecimentos, assim como salvar Mikage-cho da destruição.

Ainda que a narrativa seja um pouco mais simples que a dos jogos posteriores, Persona dá os primeiros passos para alguns elementos que hoje são tradicionais à série, como o confronto com a própria psique e até mesmo o Igor e a Velvet Room. Somente com isso, o título já pode ser considerado como uma ótima experiência. Se você ainda não jogou nenhum jogo da série, e não se incomoda com gráficos antigos, este é um bom jogo para começar. Pelo menos, no quesito história.

Um jogo, duas versões e duas experiências

Quando lançado para PlayStation, Revelations: Persona foi o primeiro jogo da série Megami Tensei a chegar ao ocidente, com localização de responsabilidade da recém-inaugurada Atlus U.S.A. Com a intenção de se diferenciar de todas as outras desenvolvedoras do gênero na época, assim como a de se estabelecer como uma das grandes referências do gênero RPG por essas bandas, o investimento neste trabalho foi alto. Porém, não necessariamente bom.

Por um bom tempo, muitas desenvolvedoras tinham em mente que o consumidor americano não se interessaria pela cultura japonesa, o que fez com que vários títulos sofressem com localizações que suprimiam as características originais do jogo. Esse foi o caso do Persona original, que teve muitos dos seus personagens totalmente modificados. Um dos mais afetados foi Masao Inaba, que na versão americana não só teve seu nome trocado para Mark, como também a sua etnia.

Mas, tudo isso foi corrigido com o lançamento da segunda versão do jogo para o PSP, que desfez todas essas mudanças e trouxe uma tradução ainda melhor. Além disso, os menus são muito mais fáceis de serem navegados do que na versão anterior, o que faz com que o jogo seja muito mais acessível para jogadores da atual geração – ainda que o estilo do jogo antigo reserva para si um charme todo especial de jogo dos anos 90. Esse foi o lado bom de decidir jogar somente muito tempo depois do lançamento original, pois eu tive a oportunidade de escolher a versão que eu gostaria de jogar.


Se por um lado tornar o jogo mais acessível para os novos fãs é um ponto positivo, por outro lado ele acaba perdendo um pouco da atmosfera original. Como eu disse antes, a minha ideia ao jogar Persona pela primeira vez foi a de jogar algo com um sabor mais próximo da linha principal da série. Porém, fui pego de surpresa ao ouvir uma trilha sonora totalmente influenciada pelo jpop - característica que veio dos Personas modernos – em vez das músicas sombrias que eu havia escutado quando vi um amigo jogar no passado. Durante boa parte do jogo, as novas canções simplesmente não se encaixam e não combinam com o que você vê na tela do seu videogame, ainda que algumas delas sejam superiores no quesito composição musical.

Este é um exemplo de música misteriosa do jogo original.

Enquanto esta é a música que toca no mesmo local, mas na versão de PSP.

Mas, na hora de tomar a decisão de qual versão jogar – algo que eu confesso ter sido muito difícil de fazer –, outro ponto que levei em consideração foi a adição da Snow Queen Quest. Essa é uma segunda quest do jogo, que é praticamente um novo ramo da história paralela à trama principal da SEBEC (empresa responsável pela tecnologia que possibilita a criação de uma máquina capaz de tornar o desejo de qualquer um em realidade). O trecho estava presente no jogo para PS1 somente no Japão e foi retirado da versão ocidental por algum motivo.

O poder da força interior

O maior choque que tive mesmo foi com o gameplay. Como um legítimo herdeiro de SMT, o jogo traz uma série de elementos da linha principal que hoje já não fazem mais parte da subsérie. Para começar, a exploração é tão fiel aos títulos mais antigos que alguns diriam até que ela chega a ser ultrapassada. Nas ruas de Mikage-cho, o jogador é apenas um ícone que caminha sobre uma imagem estática – isso se falarmos da versão de PSP, pois na de PS1 temos uma versão 3D do mapa, mas sem qualquer textura ou bonecos representando humanos.
A exploração das dungeons também seguem o estilo clássico de SMT.
As  batalhas também foram uma surpresa – e até hoje não tenho certeza se são agradáveis ou não. Os encontros com os demônios servem para dois propósitos: o primeiro deles é derrotar os monstros na briga e ganhar experiência que permitirá a evolução dos seus personagens e as respectivas personas. Isso pode ser feito basicamente com três tipos de ataques: físico, magia elemental e um que se utiliza das armas de fogo resgatadas da academia de polícia.

Mas, nada é assim tão simples. Para desferir qualquer golpe, é necessário que o inimigo em questão esteja dentro da área de acerto da categoria do golpe, obrigando o jogador a modificar constantemente o posicionamento dos lutadores. E batalhar neste jogo é muito difícil! Até mesmo as lutas normais exigiram de mim atenção total para acabar com os demônios. Essa foi uma surpresa bem-vinda, pois fiquei envolvido nas batalhas o tempo todo.

O segundo motivo para estes confrontos é a negociação com as entidades. Antes de um turno começar, você tem a opção de interagir e tentar conseguir dessas entidades várias coisas, mas provavelmente você vai querer a carta de tarot do inimigo, pois é com elas que é possível criar personas mais poderosas. Para ter sucesso, é necessário abordar da maneira correta, escolhendo uma das opções da conversa que estão diretamente ligadas às personalidades dos personagens.


Basicamente, um demônio com uma determinada característica requer uma forma de negociação, só que outros com esse mesmo perfil podem exigir um outro tipo de abordagem – a fase da lua também influencia muito nessa tarefa. O problema é que às vezes não dá para sacar qual delas é a escolha correta, fazendo da tentativa e erro a melhor forma de decidir. Apesar de isso parecer ser chato, não foi de todo ruim. Isso é, na verdade, um grande ponto positivo durante todo o jogo, já que sempre precisei calcular bem os movimentos para não acabar sendo ferozmente atacado e morto.

De volta às origens

Não vou mentir, esse primeiro Persona foi difícil de engolir na primeira viagem (eu demorei alguns meses para terminar o jogo, pois precisei de algumas pausas). Muitas vezes eu me vi entrando acidentalmente em cenas da história quando queria fazer outra coisa – como juntar os personagens certos para a equipe. Mas, seu charme é inegável. Então, aproveite os 20 anos da série para explorar os mistérios de Mikage-cho e as origens desta série fantástica!


Revisão: Érika Honda
Thiago Caires escreve para o PlayStation Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook