Blast from the Past

Ico (PS2) e a força da simplicidade

Com uma quantidade mínima de elementos, o jogo mostra que a essência é o mais importante.

Você lembra o que fazia da sua vida em 2001, exatos 15 anos atrás? Certamente faz um bom tempo, mas não vamos ficar aqui lembrando de histórias que talvez devam ficar lá atrás. Vamos falar de outro acontecimento bem mais interessante deste ano, o lançamento de Ico, lançado exclusivamente para PlayStation 2.


O primeiro grande projeto criado pelo desenvolvedor Fumito Ueda, liderando o Team ICO, passou longe de ser um best seller. Em meio a tantos títulos que foram lançados no segundo console da Sony, ser mais um em meio a tantos jogos e cair no esquecimento não era algo tão raro de acontecer. Ainda mais um título que trazia uma jogabilidade estranha e uma temática diferente dos clássicos de ação e aventura. Se eu podia ser um caçador de demônios ou um matador de deuses, por que raios eu iria ser um moleque com chifres sem habilidades especiais que só ficava arrastando uma garota para lá e para cá?

Mas, por sorte, o sucesso de Shadow of the Colossus, criação seguinte de Ueda, fez com que o público voltasse os olhos ao seu primeiro trabalho, passando a enxergar o verdadeiro valor dessa obra incrível.



Dentre todas as coisas diferentes que Ico nos trouxe, certamente o modo de contar uma história é uma delas. Não há muitos textos, narrações extensas ou cenas de animação explicativas. No início você é apresentado ao um garoto, Ico, sendo levado a um templo. Lá ele é trancado em uma espécie de tumba por ter nascido com chifres, algo que, pelo que entendemos do contexto, é um sinal de desgraça para as pessoas de seu vilarejo. Para a sorte do pequeno, a tumba não estava muito bem presa no chão, e o garoto consegue escapar.

Logo no começo de nossa fuga, encontramos uma garota toda branca, presa em uma gaiola no alto de uma torre. Ico não faz ideia de quem ela seja, mas por que não ajudar outra pessoa que também estava confinada naquele lugar? Assim ele conhece Yorda e ambos tentam buscar uma maneira de fugir daquela fortaleza.

Essa relação entre os dois é o que dá o tom tanto da narrativa como do gameplay por praticamente todo o jogo. Yorda parece meio desorientada, perdida e, por isso, Ico tem que puxá-la pela mão o tempo todo. Literalmente. Você, enquanto jogador, tem que de fato apertar o botão para segurá-la o tempo inteiro. Embora missões de escolta em videogames geralmente sejam de qualidade duvidosa, essa particularidade funciona muito bem, pois gera uma empatia pelos personagens. Assim como o garoto, Yorda também parecia estar presa injustamente. Que mal fizeram os dois para não serem merecedores da liberdade?

Ico e Yorda
Durante a aventura, inimigos em forma de sombras cruzarão o caminho de Ico, mas não atrás dele. Enviados pela Rainha, mãe de Yorda e comandante daquele templo, o objetivo deles é não deixar Yorda fugir (por motivo que vamos saber só lá no final). Assim, é preciso ter cuidado para que essas sombras não peguem a garota e a levem embora, o que resulta em um Game Over.

Outra característica peculiar de Ico é a ausência total de outros elementos na tela, como barras de vida ou mapas. Sua única preocupação é fugir do templo e garantir a segurança de Yorda. Assim como na narrativa, a simplicidade é uma das marca que permeia no jogo todo e, como o próprio criador revelou em entrevistas, foi um dos focos do desenvolvimento. Reduzir o número de elementos o máximo possível, deixando apenas o essencial.

Sobre a jogabilidade, Ico não é um jogo difícil, e é até bem curto para os padrões de hoje. Os puzzles não trazem nada demasiadamente complicado e o que mais deve atrapalhar a vida do jogador são as sombras atrás de Yorda ou algum trecho de plataforma que precise de muitos pulos — a movimentação do jogo às vezes deixa a desejar. Graficamente, o jogo não traz muitas variações de cenário, embora ele trabalhe muito bem com as ferramentas que dispõe, com composições muito interessantes.

Você terá que guiar Yorda durante todo o caminho para encontrarem a saída desse castelo
Ico é uma jóia rara que felizmente não se perdeu nas areias do tempo. Com seu formato minimalista, foi um dos primeiros jogos que nos mostrou que não é preciso jogar uma tonelada de informações no jogador para contar uma história envolvente e nos mostrar personagens com os quais nos importamos de fato. Mecanicamente, o título também traz poucos recursos, mas os usa de forma muito inteligente, conciliando jogabilidade e narrativa. É interessante notar como esse modo mais “simplista” de evoluiu e ainda é usado hoje em dia em jogos como Dark Souls, com suas mecânicas aprendidas por "instinto" e sua história que é contada através de cenários, com um mundo repleto de teorias e possibilidades.

Para todos que estão empolgados com The Last Guardian, ou mesmo para aqueles que queiram jogar um dos títulos mais interessantes da era do PS2, Ico é obrigatório. Além da versão original, o jogo também pode ser encontrado em uma versão HD para PlayStation 3, que acompanha também seu clássico sucessor Shadow of the Colossus.

Revisão: Arthur Maia


Flávio Augusto Priori é formado em design de jogos e tenta ganhar a vida com esse negócio chamado video game. Para ele Metal Gear é a melhor série já feita e ainda acredita na volta da SEGA. Escrevia para o saudoso Minha Tia Joga LoL e hoje pode ser achado no Facebook e no Twitter.

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