Perfil

Perfil: Harry Mason (Silent Hill)

Até que ponto um pai iria para salvar sua filha? Harry Mason , um dos personagens mais tristes que controlei até hoje, faria o sacrifício de... (por G. Sarco em 08/04/2012, via PlayStation Blast)

Até que ponto um pai iria para salvar sua filha? Harry Mason, um dos personagens mais tristes que controlei até hoje, faria o sacrifício derradeiro e até mais pela sua Cheryl. Como protagonista do Silent Hill original, Harry é um dos heróis que mais se aproxima de nós, simples jogadores, por sua condição demasiadamente humana – visto que mesmo sem superpoderes ou com um grande arsenal de armas, ele tem que sobreviver na bizarra cidade que dá título ao game para salvar um ente querido. Eis o que sabemos sobre ele. (Atenção: spoilers a seguir!)

Biografia

No período de tempo em que se passam os acontecimentos do primeiro Silent Hill, Harry Mason é um escritor com 32 anos de idade. Ainda amargurado pela perda precoce de sua esposa há quatro anos, Harry aceita a sugestão da filha adotiva do casal, Cheryl, de passar as férias relaxando na bucólica cidade que leva o nome do título do jogo.

Cheryl fora encontrada pelo casal Mason abandonada nas proximidades de uma estrada sete anos antes do início do jogo. O casal decide adotar a recém-nascida, mas após a abrupta morte de sua esposa por uma doença fatal, Harry passou a cuidar da pequena Cheryl sozinho, e a ela se dedicou integralmente durante os quatro anos seguintes.


No caminho para a cidade de Silent Hill, um pesadelo sem precedentes na vida de Mason se inicia. Dirigindo à noite, com Cheryl ao seu lado, Harry por pouco não atropela uma jovem na estrada, mas a manobra que evita o primeiro acidente desestabiliza o controle do veículo e o mesmo capota, indo parar na base de um penhasco. Nosso protagonista perde a consciência após o acidente, para recobrá-la apenas horas depois e descobrir que Cheryl havia desaparecido… começa aí, então, a história que marcou definitivamente o gênero Survival Horror.

Se em Resident Evil (Capcom) temos relativo controle sobre o ambiente e temos à mão agentes bem treinados e armados, em Silent Hill, a Konami nos joga em um universo onde essas características não existem. Harry é nada mais que um pai dedicado, que busca por sua filha em realidades dimensionais bizarras e alternantes, enquanto se protege de criaturas, ainda mais bizarras, apenas com armas básicas que surgem e são coletadas no decorrer da aventura.

Estar sozinho em um lugar estranho (e põe estranho nisso!). Desarmado. E com sua filha desaparecida após um acidente. Tudo isso gera terror mais do que suficiente para um ser humano comum - como eu, você e Mason.

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Você viu uma garotinha?

Após seguir quem ele acredita ser Cheryl até um um beco escuro, Mason é cercado por criaturas que parecem bebês, armadas com facas. Ele tenta fugir, mas acaba sucumbindo ao ataque – então acorda em um café, tendo à sua frente a policial Cybil Bennett. Já a tínhamos visto na abertura do jogo, quando ultrapassou, em sua moto, o jipe de Harry, pouco antes do fatídico acidente.

Harry se apresenta a Cybill e conta a ela tudo sobre os estranhos acontecimentos que o levaram a Silent Hill, mas, infelizmente, com isso só consegue ganhar descrédito da oficial. Afinal, quem normalmente sai acreditando em dimensões alternativas, monstros e cadáveres desfigurados assim, de uma hora pra outra? A oficial já trabalha há anos na cidade e jamais viu ou ouviu falar sobre qualquer coisa do tipo. Aí Harry profere uma frase que se tornaria recorrente durante o jogo: “Você viu uma garotinha? Cabelo curto, preto? Uns sete anos de idade?”.

Harry pede e recebe a ajuda de Cybill, que lhe dá, então, uma pistola e lhe promete auxílio na busca pela filha desaparecida. A partir daí, uma longa busca por pistas se inicia em uma cidade que alterna sua atmosfera entre os estados de neblina densa durante o dia, e de trevas insondáveis durante a noite – que por sinal além de muito escura é sempre populada por criaturas grotescas, cuja origem desconhecemos.


Depois de algum tempo explorando a enigmática cidade, Harry encontra, na igreja local, a principal peça deste mistério: Dahlia Gillespie, sacerdotisa do culto conhecido como “A Ordem”. Dahlia dá dicas a Harry sobre o paradeiro de Cheryl e sobre a natureza da amaldiçoada Silent Hill, e isso eventualmente acaba levando nosso herói ao hospital da cidade – certamente um dos lugares mais aterradores já criados para um videogame.

Lá, ele encontra outras duas pessoas: o doutor Michael Kauffman e a bela enfermeira Lisa Garland. Kauffman é misterioso e reservado como Dahlia, enquanto Lisa se encontra em situação semelhante à do nosso herói: não sabe o que se passa na cidade e está aterrorizada. Harry pede a ela para acompanhá-lo em sua busca, mas a jovem se recusa, alegando ser mais seguro no hospital do que nas ruas de Silent Hill.

Mergulhando na insanidade

Harry no decorrer do jogo passa a descer cada vez mais e mais numa espiral de insanidade, porém sempre com a resolução irredutível de encontrar sua filha. Suas idas e voltas na cidade e arredores, sempre em busca de pistas, vão revelando pouco a pouco o que ocorreu para que a pacata cidade de outrora se transformasse numa filial do inferno.

Cheryl é uma parte vital no plano perverso de Dahlia e dos demais cultistas, cuja finalidade é trazer a este mundo o “deus” que cultuam. Ela já havia falhado sacrificando a própria filha, Alessa, que repartiu a própria alma para evitar o nascimento da entidade – a outra metade encarnou em Cheryl, antes de ser encontrada pelos Mason.

Harry, em sua jornada, perde quase tudo: Cybill é possuída por um parasita, e Lisa transforma-se em mais uma das enfermeiras sangrentas que assombram o hospital, mas, mesmo assim, não perde de vista sua filha. De acordo com as ações tomadas pelo jogador no decorrer do jogo, temos cinci finais diferentes com desfechos distintos tanto para o herói como para Cheryl e Cybill:

1) Se completar a missão de Kauffman e salvar Cybill, a criatura que surge na fusão das almas de Alessa e Cheryl no combate derradeiro, o Incubador, usa seu poder para salvar nosso herói e Cybill, que fogem com um outro bebê – a reencarnação de Cheryl. Lisa agarra Kauffman, que a mantinha sob controle ao lhe ceder uma droga, e o arrasta para o abismo.

2) Completando a missão de Kauffman e matando Cybill, o Incubus (ou Samael, o “deus” do culto, materializado) é derrotado como no final anterior, porém só Harry escapa com o bebê.

3) Nesse caso a coisa fica feia: deixando de lado a missão do doutor e salvando Cybill,  Harry desta vez combate o Incubador e, ao vencê-lo, ouve a voz de Cheryl agradecendo por tê-la matado. Harry fica desesperado e sem ação, mas Cybill o traz de volta à realidade e eles acabam por fugir, assim, Mason fica sem cumprir sua principal missão como pai.

4) No pior de todos os cenários (matando Cybill e não fazendo a missão de Kauffman), temos a mesma batalha descrita acima, mas com o final mais surpreendente de todos: nada do que vivenciamos ocorreu de verdade! Harry morreu no acidente de carro que abre Silent Hill, tudo não passou de um pesadelo que ocorre, provavelmente, enquanto Harry está inconsciente e prestes a morrer.

5) O último chega a ser cômico, de tão absurdo: se Mason utilizou o artefato Channeling Stone nas localizações corretas – o que causa o aparecimento de estranhas luzes no céu em cada ocasião, o jogo acaba bem antes… com o protagonista sendo abduzido por alienígenas no farol da cidade.


Outras aparições

Neste Perfil, optei por focar apenas no Harry Mason que conhecemos em Silent Hill. No entanto, Harry ainda aparece em outros dois jogos da série. Passados 17 anos do final do primeiro jogo, reencontramos ele em Silent Hill 3 (da Konami, para o PS2), que segue a história original mostrando o que aconteceu com nosso herói e Heather, o bebê que surge ao final de Silent Hill e que é a reencarnação de Cheryl e Alessa. Dessa vez, Heather é a protagonista da história.


Neste episódio, Harry frustra o rapto de uma Heather ainda criança, e anos depois é assassinado por um membro do culto. Sua filha decide então retornar a Silent Hill para se vingar, seguindo uma série de documentos deixados pelo pai – estes contam toda a história do que ocorreu no primeiro jogo da série, revelando a verdade a Heather sobre suas origens.

Mason aparece novamente como protagonista em Silent Hill: Shattered Memories (Konami, PS2) que conta a história do jogo original sob uma nova perspectiva, além de dar as caras também no final UFO em Silent Hill 2, onde faz sua clássica pergunta sobre Cheryl a James Sunderland.


Levando em conta a trajetória da família Mason, Harry é um personagem carregado, triste, que sofre mais perdas do que conquistas em sua campanha para salvar a filha desaparecida. No entanto, mesmo com o ataque de monstros e demônios, Harry permanece firme em sua cruzada, mesmo que isso culmine em sua morte.

Talvez este aspecto traga Harry tão próximo a nós: ele é uma pessoa comum, jogado em um mundo de insanidade e maldade pura, e lá tem que sobreviver de qualquer modo para salvar a única pessoa que lhe restou na vida. Quem de nós não faria o mesmo para salvar a mãe, um filho, o pai ou a esposa? Assim sendo, de certa forma, nós entramos na pele de Harry - e encaramos os horrores de Silent Hill apenas com uma lanterna e uma arma improvisada – e o mais importante: sentimos a determinação de salvar quem amamos.

Harry Mason é um personagem, parafraseando o grande filósofo alemão Friedrich Nietzsche, “humano, demasiadamente humano”.

Revisão: Samuel Coelho

Escreve para o PlayStation Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

Comentários

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  1. excelente artigo! Mas eu queria saber duas coisas:
    qual é o final verdadeiro (aquele que procede a história), e o quem na realidade é Cybil. E mais uma vez obrigado pelo texto!

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