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Análise: O que fez de Far Cry 3 o melhor shooter de 2012?

Jogos de mundo aberto nunca foram minha praia (com o perdão do trocadilho). Falta alguma coisa na maioria deles que me faça querer jogá-l... (por Marcelo Alonso em 04/04/2013, via PlayStation Blast)


Jogos de mundo aberto nunca foram minha praia (com o perdão do trocadilho). Falta alguma coisa na maioria deles que me faça querer jogá-los sem parar. Far Cry 3 me fez perceber que o problema não é o mundo aberto em si, mas como esse mundo lhe é apresentado. Com uma narrativa envolvente e personagens memoráveis, é difícil não querer ir mais fundo na toca do coelho e descobrir todos os segredos dessa ilha paradisíaca. Descubra aqui o que fez deste jogo um dos melhores shooters de 2012.

Far Cry 3 foi desenvolvido pela Ubisoft Montreal, e lançado em meados de novembro de 2012, lançamento este que havia sido prometido para setembro, mas acabou sendo adiado por conta de ajustes na produção, o que é sempre uma sábia decisão. Apesar de ser o terceiro jogo da franquia, não é uma continuação direta, assim como já havia acontecido com Far Cry 2. Far Cry 3 é uma experiência completamente diferente do seu antecessor, conhecido por sua dificuldade e jogabilidade não-linear. O terceiro game da franquia segue por outro caminho, mostrando uma narrativa mais madura e aprofundada e buscando um maior envolvimento entre o jogador e seus personagens, mas ainda partindo do conceito de situar o jogador em um lugar desconhecido e perigoso, e em uma situação desesperadora.

Caindo de paraquedas no inferno

O jogo começa com uma sequência que nos apresenta a seis jovens ricos e inconsequentes em uma aventura por Bangkok. Entretanto os eventos dessa montagem já são uma memória distante, e Jason Brody, o personagem principal, vê-se enjaulado ao lado de seu irmão mais velho, o soldado Grant Brody. Nesse momento somos apresentados a um dos vilões do jogo, Vaas Montenegro, uma mistura de pirata, psicopata e filósofo de bar. A personalidade carismática desse vilão, brilhantemente interpretado por Michael Mando, é um dos motivos pelo qual você não vai querer largar o controle. Sarcástico e imprevisível, é ele que, após uma sequência de tirar o fôlego - e que também serve como um tutorial -, vai servir de motivação para resgatar seus amigos, um a um.


Após essa impressionante introdução, Jason vai parar em uma aldeia local. Tendo escapado das mãos de Vaas, Jason se torna uma esperança para a tribo que vem há anos lutando contra os piratas. E aqui começa a jornada de Jason, e também a do jogador, no resgate de seus amigos, o que o levará à autodescoberta.

Um personagem crível e sua evolução pessoal

Os desenvolvedores basearam Jason Brody nos jogadores comuns de FPS. Sendo assim, Jason se mostra amedrontado perante sua situação. Optando por colocar como personagem principal da aventura alguém que expressa o que sente a cada momento do jogo e que demonstra sua evolução de um “zé mané” a um verdadeiro guerreiro tribal, em vez de colocar um “brucutu mudo”, a Ubisoft criou no seu herói um espelho do jogador, o que se mostra um dos maiores trunfos de Far Cry 3. Junto a Jason, comemoramos cada vitória e nos espantamos a cada surpresa. Junto a ele descobrimos do que somos capazes e evoluímos.

O herói do jogo, Jason Brody, a.k.a. o jogador.

Mas não é somente Jason que engatilha emoções no jogo. Aqui todos os personagens são bem construídos e parecem realmente humanos. Eles clamam por vingança, choram a morte de seus companheiros, exaltam-se, apavoram-se e alguns têm até segredos que nunca descobriremos.


Tudo isso não seria possível sem o excelente trabalho de dublagem onde os atores não apenas emprestam suas vozes aos personagens, mas dão vida a eles. Apesar de a versão brasileira do jogo não possuir dublagem em português, as legendas e os menus do jogo foram completamente traduzidos. O trabalho ficou excelente, não existem erros de adaptação e nem cortes, como é comum em outros jogos.

Ilha viva

A ilha de Far Cry 3 é um personagem à parte. Com sua própria história, fauna e flora, explorá-la é tão divertido quanto matar piratas. São centenas de espécies de animais, relíqueas da tribo Rakyat e cartas de soldados japoneses da Segunda Guerra Mundial. O jogador que se dedicar vai se deparar com uma história impressionante de uma ilha perdida no tempo. Os animais são impiedosos. Ao atacar uma base inimiga, é necessário cautela. Quando menos se espera, um tigre ou um urso podem aparecer para acabar com a brincadeira - ou até ajudar. Não é raro começar um ataque e perceber que todos os piratas já foram mortos por algum animal selvagem.

Vai pular?

É possível também usar a flora local a seu favor. Fazer injeções para recuperar energia, caçar e afastar animais perigosos se torna comum ao longo do jogo e usando a criatividade é possível usar essas injeções para criar táticas diferentes de ataque. O único problema é o carregamento de algumas texturas e iluminação, mas nada que afete a imersão no jogo.

Escolha como jogar

Nesta ilha quem manda é vo... Não, quem manda são os piratas, mas isso está para mudar. Saiba, porém, que você não começa o jogo sendo “o cara”. Você vai precisar se esforçar se quiser se tornar o herói. São milhares de coisas para fazer, assim como em qualquer jogo de mundo aberto. A diferença de Far Cry 3 é que tudo o que você faz é bem fundamentado. É preciso caçar animais para melhorar seus equipamentos; desativar bloqueadores de sinal em torres de rádio para poder usar seu GPS, e, por consequência, ampliar o mercado de armas e, assim, conseguir armas novas; tomar quartéis dos piratas para liberar a área da presença hostil e muitas outras coisas.


Cada pedaço da ilha é explorável. Não existem “paredes invisíveis”. E como você fará isso? Aí, meu amigo, é com você. Quer dar uma de Rambo e sair fuzilando tudo o que vê pela frente? Ou prefere uma aproximação mais à la Splinter Cell? Você é quem decide. Cada uma das opções tem seus prós e contras, mas, no final das contas, ambas são muito divertidas.

A cada inimigo abatido, uma certa quantidade de XP é acumulada e com isso o jogador vai ganhando habilidades especiais à sua escolha. Algumas beneficiam a aproximação mais discreta, enquanto outras melhoram suas chances quando resolver descarregar suas armas em cima dos piratas.

Os takedowns (ataques silenciosos) são as habilidades mais divertidas de usar. Com o tempo, manipular os adversários para criar combos usando este tipo de ataque se mostra muito eficaz.

Vacilão morre cedo!

Além dos gêneros óbvios - FPS, ação e “mundo aberto” -, é muito interessante ver como o jogo mistura vários estilos diferentes. RPG, com sua árvore de habilidades e construção de equipamentos para melhorar atributos. Simulador de caça, já que é necessário caçar animais para melhorar seus equipamentos e, acredite, não é sempre fácil; alguns animais irão fugir, outros serão extremamente perigosos se não for tomado o devido cuidado. Plataforma, em algumas partes de exploração da ilha e ativação das antenas de comunicação.

Explorando os extras

Far Cry 3 ainda conta com um editor de mapas, um modo multiplayer e um cooperativo. Com o editor de mapas é possível construir mapas multiplayers do zero, no melhor espírito LittleBigPlanet. Usando a imaginação (e um pouco de tempo) é possível fazer praticamente qualquer tipo de mapa e eles ainda podem ser avaliados por outros jogadores. O modo multiplayer não apresenta nada de muito novo, mas aprendeu bem com outros jogos do gênero e está acima da média.

A cada partida, uma certa quantidade de XP é ganha, permitindo a compra de novas armas e equipamentos. Existe ainda o sistema de BattleCry, um grito de guerra que, quando acionado, habilita certos perks (regalias) para os aliados que estiverem por perto, inteligentemente colocado para incentivar o time a jogar em equipe. O desfecho das partidas é bem divertido: o melhor jogador da equipe vencedora escolhe entre ser piedoso ou cruel com o melhor jogador da equipe perdedora. A cada vez que se sobe de nível é possível destravar novas animações para isso.

O modo co-op apresenta uma nova história, que se passa antes dos eventos retratados na campanha, e quatro personagens novos. Nada muito profundo e tão divertido quanto o prato principal, mas que acrescenta boas horas de diversão com os amigos.



Aventura completa

Far Cry 3 se mostrou uma experiência completa. É daqueles raros casos de jogo que oferecem um bom pacote de diversão onde tudo vale a pena experimentar. Considerando que muitos jogos por aí, que, pelo mesmo preço, oferecem muito menos conteúdo, esse é um dos que não pode faltar na coleção.

Prós

  • História envolvente;
  • A ilha é um personagem à parte;
  • Missões extras bem fundamentadas na história do jogo;
  • Personagens bem construídos;
  • Jogabilidade fluída que estimula a criatividade.

Contras

  •   Algumas texturas e efeitos de iluminação demoram a carregar.
Far Cry 3 - PlayStation 3 - Nota: 9.5
Revisão: Mateus Pampolha
Capa: Vitor Nascimento
Marcelo Alonso é formado em Cinema pela Faap. Seu sonho é que a linha entre cinema e videogames fique cada vez menos perceptivel. A vontade de discutir sobre o assunto o levou a escrever textos para o Blast. Pode ser achado no Facebook e no Twitter.

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