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Dragon’s Dogma: Dark Arisen traz novos conteúdos e muita diversão, mas peca pela ganância exagerada da Capcom

O ano de 2012 teve uma boa safra de games, é uma pena que muitos ficaram fora dos holofotes. Foi o caso de Dragon’s Dogma , o RPG feito ... (por Rayner Lacerda em 02/06/2013, via PlayStation Blast)



O ano de 2012 teve uma boa safra de games, é uma pena que muitos ficaram fora dos holofotes. Foi o caso de Dragon’s Dogma, o RPG feito pela Capcom. O título tinha tudo o que os amantes do gênero gostam: história decente, inimigos colossais e desafiadores, personagens sólidos e um gameplay para lá de inovador e divertido. Com um estilo quimérico, reunindo diversos aspectos de outros títulos e adaptando-os para o seu próprio universo, o resultado foi um trabalho muito divertido e bem amarrado, mas que pecava por alguns problemas de programação e de personalidade. Pensando nisso, a Capcom resolveu reformular algumas ideias, adicionar novos conteúdos e “corrigir” falhas, o resultado veio com o anúncio de Dragon’s Dogma: Dark Arisen, cuja crítica você confere abaixo.

Sem sombra de dúvidas, Dragon’s Dogma foi o melhor RPG que joguei no ano passado. Ele pode não ter o carisma e a popularidade de Skyrim, mas possui um gameplay muito mais envolvente. Com o anúncio de Arisen, minhas expectativas cresceram, e essa era a chance da produtora se redimir e entregar um produto mais polido, com mais qualidade. Bem, não foi exatamente isso o que aconteceu.


A grande surpresa de Arisen foi o aspecto antigo. Explicando melhor, ao invés de lançar um DLC que revisava alguns aspectos e adicionava o conteúdo novo, a Capcom resolveu relançar o jogo. Falarei sobre essa controversa decisão ao final da matéria.

Então, ao invés de me ater aos aspectos que são exatamente iguais aos da primeira versão, vou falar apenas sobre o conteúdo inédito que, diga-se de passagem, é o intuito dessa análise. Se você quer saber sobre o início da história e as principais mecânicas do jogo, é só conferir a nossa Análise.

Melhorias perceptíveis? Aham...

Um dos primeiros detalhes que chamo a atenção é sobre a promessa da Capcom de corrigir bugs e remodelar alguns aspectos gráficos. Bom, isso não aconteceu. Não como deveria, pelo menos. A produtora disfarçou o problema com texturas um pouco melhor elaboradas, com o intuito de mascarar a pobreza gráfica de alguns NPCs e cenários.

Medida bem controversa, diga-se de passagem. Quanto aos bugs, muitos continuam lá, inclusive os grotescos (como gigantes atravessando paredes com os braços). A única melhora perceptível foi a fluidez do jogo, que agora está muito mais rápido e não sofre tanto com as quedas de frames que atrapalhavam a diversão da versão antiga.

Mas o principal ponto criticado pelos fãs, nem foi tanto os aspectos gráficos, mas sim a péssima IA dos Pawns. Para quem não se lembra, são aqueles companheiros (criados por outros jogadores ou pelo computador) que te seguem durante a aventura. Até aí tudo bem, eles são adicionais muito bem-vindos, levando em conta a dificuldade imensa do jogo. O problema é a lerdeza em certos momentos. Quem nunca tentou fugir de um combate e teve que voltar para resgatar o amigo lesado?

Para citar um exemplo: você está lá, lutando contra um Grifo extremamente difícil e um dos seus companheiros perde um pouco do sangue. Imaginem sua cara ao descobrir que o Pawn usou um dos seus melhores itens de cura para recuperar 50 de HP. Pois é, é desse nível para pior.


E tudo continua a mesma em Dark Arisen, já que a IA deles não mudou em nada. Você acaba se sentindo em uma loteria quando enfrenta um inimigo mais difícil. Tendo que torcer para que os seus companheiros não façam nem uma besteira. Nem preciso dizer que é uma atitude imperdoável por parte da Capcom, além de total falta de consideração com o feedback dos fãs. E isso só dá mais raiva ainda para quem teve que comprar o jogo de novo.

Dark Arisen é para os fortes

Como eu disse antes, Dragon’s Dogma possui uma dificuldade absurda em alguns momentos. Até mesmo os inimigos corriqueiros são difíceis (principalmente no início). É perfeitamente normal você morrer algumas dezenas de vezes durante a aventura. Com Dark Arisen não poderia ser diferente.

A começar pela restrição de nível: você só pode ter acesso ao conteúdo inédito a partir do level 45. Algo bem trabalhoso de se conseguir, diga-se de passagem. Assim que alcançar o nível, uma quest o levará de volta à pequena vila de Cassardis, onde você deve encontrar uma misteriosa mulher durante a noite.


Seu nome é Olra e você deve ajudá-la a recuperar sua memória e investigar os mistérios de Bitterblack Isle, uma ilha com grandes desafios. Apesar de clichê, a história vai ganhando importância e se desenvolvendo de forma bem natural. Sem falar que a ilha possui uma atmosfera muito mais sombria do que as paisagens naturais do jogo. Sua geografia é mais sinistra, voltada para calabouços e cavernas.

Para aumentar ainda mais essa atmosfera de perigo, Dark Arisen conta com “novos” inimigos ainda mais desafiadores. Tirando alguns inimigos que são realmente originais, os outros nada mais são do que versões pouco modificadas ou gigantes de outros monstros espalhados pelas regiões comuns do jogo.


O Gore Cyclops, um dos primeiros grandes adversários que nos dão às boas vindas, nada mais é do que uma versão com armadura de espinhos do Ciclope comum. Já o mortífero lobo gigante, é só uma versão família do chato animal que te atormenta durante toda a aventura.

E por falar em mortífero, esse sim é um monstro original e que vale a pena ser mencionado: trata-se da própria Morte. Além de um oponente extremamente difícil, ela pode aparecer a qualquer momento para te infernizar. Se você não subir ao menos uns dez níveis após chegar à ilha, fuja dela como se não houvesse amanhã.

Se no ambiente normal, você tinha aquela sensação de falsa segurança ao explorar o mapa, em Bitterblack o sentimento de perigo nunca se esvai. O grande diferencial aqui é que o foco é mais nos combates do que na exploração. E essa característica é um dos pontos mais controversos do jogo.

O bom é que o foco na ação fará com que você passe horas e mais horas se divertindo matando os monstros e explorando o ambiente com cuidado. O ruim é que isso te deixa ainda mais dependente dos Pawns. É absolutamente frustrante morrer por causa das ações erradas dos seus companheiros. Mas ainda que essa dependência seja problemática, ela não retira a diversão, longe disso. Percorrer a ilha caçando criaturas e explorando o ambiente à luz do luar ainda vale o seu tempo, pode acreditar.

Todos os inimigos da ilha causarão grandes problemas, mas os grandões são ainda piores. Por causa disso, você terá que explorar bastante o local em busca dos Cursed Items que dão acesso a melhores equipamentos, que agora possuem seis níveis de evolução, dois a mais do que na versão antiga. Dê especial atenção para os anéis que amplificam habilidades, pois podem significar a diferença entre perder ou ganhar contra determinados monstros.

De olho nesse aumento de dificuldade, a Capcom também resolveu cooperar com os jogadores e incrementar um pouco o poder dos personagens. Para começo de conversa, cada classe ganhou mais habilidades de nível 3. Além de diversificar a estratégia nas batalhas, são bem efetivas contra alguns tipos de criaturas.


Um dos aspectos que mais chamou a atenção quando a primeira versão foi lançada, era justamente o capricho com os golpes dos personagens. O grande destaque para mim continua sendo o mago que, com suas magias devastadoras e belíssimas, faz toda a diferença no combate. Mas já vou logo avisando: se você também prefere jogar com essa classe, é melhor arranjar bons companheiros para te seguirem em Bitterblack. Só aconselho levar Pawns que estejam no nível 90 ou maior, já que eles serão fundamentais para segurar as pontas enquanto você carrega os seus poderosos feitiços.

Um dos destaques fica para o chefão final. Ao invés do dragão mal encarado que dá nome ao título, temos um inimigo bem diferente dessa vez. E difícil é um eufemismo para caracterizá-lo. É bom preparar todos os tipos de poções, escolher bem suas habilidades e torcer para os seus companheiros não fazerem muitas besteiras. Após derrota-lo, uma surpresa o aguarda.

Apesar de extremamente desafiador, e um com um fator replay que possui boas recompensas, o conteúdo adicional poderia ter sido melhor aproveitado. Por mais divertido que seja, não passa de uma ilha onde o seu principal objetivo é matar todas as criaturas que encontra pelo caminho, enquanto tenta buscar respostas com um personagem que não convence muito. E isso tudo fica com um gosto ainda mais amargo se levarmos em conta o modo de distribuição dessa nova aventura.

Ganância descarada

Já não é de hoje que a Capcom adota políticas bem controversas em sua distribuição de conteúdo. Dessa vez, ao invés de lançarem Dark Arisen como um DLC (poderiam até cobrar um pouco mais, pelo seu tamanho) a empresa simplesmente decidiu ir direto para a versão Gold e relançar o jogo todo de novo, usando a desculpa de que iria consertar os bugs, aspectos gráficos e a IA dos personagens. Então ficou decidido: não importa se você comprou a primeira versão por 50 Obamas, vai ter que gastar esse mesmo preço por apenas uma nova quest.


Com uma atitude dessas, nem preciso comentar a ira de alguns jogadores. Prevendo uma chuva de críticas por conta disso, ainda tiveram a coragem de pensar no seguinte: todo jogador que tiver a primeira versão e comprar a segunda, irá ganhar 100.000 pontos para gastar com os Pawns e Ferrystones infinitas. Para quem não sabe, as Ferrystones são responsáveis pelas viagens rápidas e facilitam muito a vida de todos.

Mas não, esse não foi um suborno decente, Capcom. Esses itens de esmola não valem 50 Obamas, nem de longe. Você sequer pensou naqueles jogadores que passaram dezenas de horas desenvolvendo seus personagens, e que terão que comprar o jogo de novo apenas por uma aventura inédita? É claro que não.

E a raiva só aumenta quando você descobre que a Capcom entregou exatamente o mesmo jogo, sem nenhuma melhora prometida. Essa decisão que beira o charlatanismo é suficiente para percebemos o quanto a empresa se preocupa com os fãs. Parece que vale mais vender alguns bocados do que manter uma base fiel de seguidores. Essa é a mensagem da empresa nos últimos tempos.

E sabem o que é mais triste nessa história toda? O fato de Dragon’s Dogma ser um ótimo jogo e não ter culpa nenhuma de ter sido feito por uma empresa dessas. O senso de aventura do título é algo pouco visto nos últimos tempos, sem falar no combate extremamente divertido. É realmente uma pena que ele tenha sido prejudicado por conta de atitudes tão mesquinhas.

Apenas para novos jogadores

Vou ser bem sincero com vocês: Dragon’s Dogma: Dark Arisen é um jogo muito bom, mas que não vale o preço. Se você tem a versão antiga, divirta-se com ela e espere de joelhos que Bitterblack apareça um dia como DLC. Se não possui, compre a nova versão. Simplesmente não vale a pena comprar o mesmo jogo apenas por uma quest. Parece que o boicote é a única forma de mostrar que a empresa está no caminho errado. Quem sabe assim, doendo no bolso, ela não lembra os bons tempos em que levava os fãs a sério e se preocupava mais em fazer jogos divertidos do que vender DLCs?

Prós

  • Aventura prolongada;
  • Combate muito divertido;
  • Novas habilidades e equipamentos;
  • Uma ilha inteira para explorar;
  • A Morte é desafiadora.

Contras

  • Atitude enganosa e mesquinha da Capcom;
  • Preço abusivo;
  • Não possui melhoras significativas;
  • Bugs continuam irritantes;
  • IA dos Pawns continua deplorável;
  • Verdadeiro descaso com os fãs.
Dragon’s Dogma: Dark Arisen – PlayStation 3 – Nota: 6.0

Revisão:  Ramon Oliveira de Souza
Capa: Felipe Araujo

Rayner Lacerda é historiador, formado pela UFV. Eterno estudante e professor do mundo, se interessa por praticamente tudo, mas são os games a sua grande paixão. Tal fascínio o levou ao Blast, onde escreve atualmente. Encontre-o no Facebook

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