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Análise: Aventure-se no Tartarus durante a Dark Hour para salvar o mundo em Shin Megami Tensei: Persona 3 Portable (PSP)

Em 2007 o mercado ocidental recebia Persona 3 , para PlayStation 2, o terceiro título de um spin-off da famosa série Shin Megami Tensei  ... (por Rodrigo Estevam em 27/08/2013, via PlayStation Blast)

Em 2007 o mercado ocidental recebia Persona 3, para PlayStation 2, o terceiro título de um spin-off da famosa série Shin Megami Tensei com fortes raízes na psicologia Junguiana. Menos de um ano depois, chegava às prateleiras norte-americanas Persona 3 FES, uma nova versão de P3 que contava com um epílogo com cerca de 30 horas de duração, também para PS2. Foi somente em julho de 2010, 3 anos após o lançamento do game original, que o jogo aportou no PSP, sob o título Persona 3 Portable.


A versão portátil de P3 trazia todas as melhorias de P3 FES e uma novidade muitíssimo bem-vinda: além da história original, onde o protagonista é um jovem rapaz, uma nova personagem principal foi adicionada, alterando completamente boa parte das interações com coadjuvantes e até mesmo permitindo que novos locais fossem visitados. Ambos os protagonistas, porém, compartilham a mesma Persona (uma criatura moldada a partir da manifestação da personalidade dos personagens), Orpheus, que recebe algumas modificações de design de acordo com o gênero do personagem principal.

Em Persona 3 Portable você também pode jogar com uma menina

Seja bem-vindo à Dark Hour

Logo no início do jogo, somos apresentados à Dark Hour, um período do dia que começa exatamente à meia-noite e que funciona como uma hora “extra” para o intervalo de 24 horas do dia comum. Somente aqueles com o potencial de evocar Personas conseguem aproveitar esse intervalo, pessoas normais não têm consciência da existência desses 60 minutos adicionais. Durante a Dark Hour, todos os seres humanos normais são transformados em caixões e assim permanecem por exatamente uma hora; passado esse período todos recuperam suas formas normais.

Fica bem claro, então, que nosso personagem não é uma pessoa comum. Ao se dirigir para o dormitório onde vai ficar hospedado, ele (ou ela, dependendo do personagem que você escolher no início do jogo) acaba se deparando com alguns caixões no meio da rua. Não demora muito e uma Shadow (um tipo de criatura sombria que aparece durante a Dark Hour) ataca o local. É aí que o protagonista descobre que é capaz de controlar Personas. Os demais moradores do dormitório assistem à batalha e o convidam, então, para participar do S.E.E.S. (sigla para Specialized Extracurricular Execution Squad), um grupo dedicado a exterminar Shadows nas horas vagas.

Orpheus salva sua vida e ainda te descola uma turma nova

A partir daí o jogo assume o seguinte ritmo: em uma mistura de JRPG com Dating Sim, você vai precisar gerenciar seu tempo entre atividades como ir para a escola, interagir com os amigos, participar de clubes e, claro, erradicar criaturas sombrias em noites de lua cheia. Como só é possível lutar contra os monstros depois da meia-noite, a maior parte do seu tempo vai ser gasto estudando ou passeando com os amigos. Por falar em monstros, meia-noite e escola, a Gekkoukan High School toma uma forma um tanto diferente durante a Dark Hour. Em seu lugar surge uma imensa torre com muitos, muitos andares (mesmo!) recheada de Shadows de todos os tipos. A escola se transforma no Tartarus.

Tá achando que 59 andares é muita coisa? Acredite, tem muito mais de onde esses vieram...

A importância da vida social

Um dos maiores focos da série Persona está na interação entre os personagens do jogo. Se relacionar com os outros é tão importante quando visitar o Tartarus todas as noites para chutar algumas Shadows. É a partir desses vínculos, chamados Social Links, criados com os demais personagens — sejam eles importantes ou não para o desenrolar da trama principal — que ganhamos o acesso a Personas cada vez mais poderosas. Cada personagem tem seu próprio Social Link, que por sua vez tem seu próprio Arcana (atributo erroneamente utilizado na série, o correto seria "Arcanum"), que nada mais é do a classe atribuída a cada um deles e relacionada a cartas de tarô.

Interagir com outros personagens é essencial em Persona 3 Portable

Nos games da franquia Shin Megami Tensei é possível recrutar demônios para o seu time durante as batalhas; mas, apesar de Persona ser um spin-off dessa série, a coisa aqui funciona de outra forma. Só existem duas maneiras de se conseguir novas personas: 1) através do Shuffle Time, que acontece ao final das batalhas, onde diversas cartas de tarô são exibidas na tela e você pode tentar pegar uma que tenha a gravura das Personas; ou 2) fundindo as Personas já adquiridas por cartas na Velvet Room. Quanto maiores os níveis de seus Social Links, mais fortes podem ser as criaturas adquiridas em fusões.

Rankings altos de Social Links garantem acesso a Personas cada vez mais poderosas

Muito bom, mas podia ser melhor

Persona 3 Portable é um daqueles games memoráveis que ficam guardados na nossa lembrança por muito, muito tempo. Desde a trama bem construída e interessante aos personagens com motivações e personalidades próprias, o jogo nos prende do início ao fim. É bem difícil querer parar de jogar, pois a todo tempo coisas novas são lançadas no meio da história de forma inesperada. O seu melhor amigo de repente pode passar a te odiar ou, subitamente, você pode descobrir que uma família respeitável pode ter segredos terríveis escondidos debaixo dos panos. Nem tudo é o que parece em Persona 3, e a possibilidade de descobrir cada vez mais coisas conversando com cada personagem é simplesmente viciante.


As batalhas dão um show à parte, com cenários e personagens totalmente tridimensionais e bem animados. O jogo permite que você controle cada membro do time individualmente ou os deixe livres para atuar como bem entenderem. Cada um deles tem movimentação própria, com diferentes animações para golpes físicos e invocação de Personas, além de algumas animações de combo. Caso algum inimigo permaneça de pé após um ataque bem sucedido, é possível desferir um ataque em dupla capaz de levar ao chão qualquer adversário. Aliás, é possível aplicar poderosos ataques em conjunto quando todos os monstros são derrubados no chão: assim que essa brecha se abre, algum dos seus parceiros de batalha vai sugerir que seja executado um All-Out Attack, que consiste em realizar um ataque pesado em grupo, sem dó nem piedade.

Quando o inimigo dá uma brecha, o negócio é atacar com tudo!

A quantidade absurda de coisas para se fazer em Persona 3 Portable é um de seus maiores pontos positivos: você vai facilmente alcançar mais de 100 horas de jogo no seu primeiro gameplay. As visitas ao Tartarus, apesar de durarem “apenas uma hora”, felizmente podem passar (e muito) desse prazo: a limitação de 60 minutos existe apenas para fins narrativos. Não existe qualquer tipo de cronômetro. Então, você pode continuar suas andanças pelos corredores estreitos da torre sombria sem medo de ser feliz. Além de ter de assistir às aulas todos os dias enquanto tenta manter alguma interação com os amigos, também é possível gastar seu tempo indo ao cinema, tomando um cafezinho, jogando fliperama e até mesmo cantando em um karaokê. Também contribuem bastante para o aumento das horas de jogo as side-quests, oferecidas pela misteriosa Elizabeth, na Velvet Room. As missões vão desde conseguir um drink até levá-la para passear, mas as que vão te fazer gastar um bom tempo de exploração são as quests de entrega.

Uma das quests de P3P é levar a moça da imagem pra dar uma volta

Mas, como nem tudo são flores, o jogo peca em diversos aspectos. A começar pela ausência das belíssimas animações de abertura e das cutscenes vistas em P3 FES: removidas provavelmente por conta de limitações técnicas do PSP. Todas as cenas em anime foram substituídas por conversas exibindo apenas imagens estáticas e alguns diálogos. O jogo também perdeu cenários e personagens tridimensionais (exceto quando na exploração de dungeons como o Tartarus e durante as batalhas), sendo que boa parte de sua navegação passa a funcionar em um esquema point-and-click.

As batalhas e a exploração do Tartarus acabam se tornando bem repetitivas com o passar do tempo. Por mais que diferentes inimigos surjam a cada novo bloco da torre, é inevitável se pegar fugindo de algumas lutas simplesmente por estar enjoado de batalhar. Para dar uma chacoalhada nas coisas, por vezes o jogo avisa que o Tartarus está “instável”, podendo apresentar algumas deformidades e, portanto, estar mais perigoso que o normal. No final das contas isso pouco importa, já que boa parte dessas variações pouco vão impactar na sua exploração — exceto, talvez, pelos andares sem luz e sem mapa, e pela aparição súbita do Reaper em algumas explorações mais demoradas.


No final das contas, Persona 3 Portable sai com saldo positivo. Por mais que o jogo pareça datado para um lançamento de 2010, isso é facilmente justificável e até mesmo perdoável. A adição da personagem feminina deu novos ares ao game, que tem potencial para ser novidade até mesmo para quem jogou as duas versões anteriores de P3. Por ser um jogo singular, com uma trama um tanto pesada e adulta (contendo, inclusive, diversas referências a sexo e drogas) e por fazer a ponte com Persona 4, o seu sucessor, Persona 3 Portable é um jogo essencial para fãs de RPG, Dating Sims e, por que não, de psicologia.
Persona 3 Portable - PSP - Nota: 8.5
Revisor: Samuel Coelho
Capa: Vitor Nascimento
Rodrigo Estevam é formado em Administração, mas seu negócio mesmo é jogar videogames. Além de escrever no PlayStation Blast, também é colaborador e colunista da Revista Nintendo World. Está no Facebook e no Twitter.

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