Blast from the Past

Revisitando Spira dois anos após a derrota de Sin em Final Fantasy X-2 (PS2)

Em 2002, com Final Fantasy X , a antiga Squaresoft revolucionou, inovou e criou rupturas na estrutura da até então mais aclamada franquia ... (por Samuel Coelho em 05/08/2013, via PlayStation Blast)

Em 2002, com Final Fantasy X, a antiga Squaresoft revolucionou, inovou e criou rupturas na estrutura da até então mais aclamada franquia da qual ela era detentora. Pela primeira vez na história da série pudemos ver os protagonistas do jogo ganharem voz e, através das inovadoras e caras tecnologias de captura de movimento, uma enorme gama de animações e expressões faciais realistas, que permitiram adicionar à sua narrativa um admirável roteiro cinematográfico digno de uma superprodução hollywoodiana.

Quebrando tradições

Mas a história de Tidus e da épica peregrinação da jovem Yuna não serviria de marco apenas em questões de inovação técnica. Final Fantasy X também foi o primeiro Final Fantasy que fez sua produtora quebrar uma tradição de mais de uma década, que pregava jamais utilizar universos e histórias de um jogo da franquia por mais de uma vez.

Final Fantasy X nos contou uma história digna de ser ouvida

Final Fantasy X-2 foi o primeiro resultado dessa mudança de pensamento, que em uma tentativa de manter de alguma forma a antiga tradição da não repetição de universos, ao invés de receber em seu título um novo número em algarismo romano que o definisse realmente como um novo capítulo oficial da franquia, acabou recebendo o "X-2", para simbolizar que este ainda era Final Fantasy X, só que estaria contando a segunda parte da história que se inicia no décimo episódio. Algo que virou moda daí em diante para as publicações da Square Enix direcionadas para o público de sua antiga série de RPGs.


A nova tendência foi motivo de alegria para aqueles que se apegam a um dos universos ou conjunto de personagens da série, e de desgosto para aqueles que sempre amaram Final Fantasy justamente pela capacidade que seus criadores tinham de compor universos cada vez mais diversificados, exuberantes e fascinantes a cada novo lançamento com o nome da franquia.

Verdade seja dita, antes de Final Fantasy X-2, a série tinha nela direcionada uma reunião de esforços criativos bem maior, capaz de gerar uma obra-prima atrás da outra. Contudo, apesar disso, não podemos desmerecer a qualidade de Final Fantasy X-2 que, mesmo estando carregado de símbolos de ruptura com anos de tradição conceitual, nem por isso deixa de ser um ótimo jogo.

Os anos depois de Sin

A história desta vez é contada sob a perspectiva de Yuna, a ex-evocadora de aeons, que depois de receber de Kihmari uma esfera de memórias milenar mostrando um jovem muito parecido com Tidus, parte em busca de respostas e de uma forma de se conectar novamente com o rapaz que desapareceu junto com o sonho e a existência dos aeons ao final da história de Final Fantasy X.

Isso tudo acontece dois anos após o triste e emocionante desfecho do primeiro jogo. Yuna, que é vista como a principal responsável pela derrota definitiva de Sin e pela libertação de Spira, se tornou mundialmente reconhecida como a heroína que trouxe a Eternal Calm para o mundo, um período de paz que todos julgavam ser definitivo para Spira.

Rikku, Yuna e Paine. A ex-evocadora não enfrenta seus novos obstáculos sozinha.
Nesse novo mundo o povo se viu livre do medo que perdurou por mais de mil anos e, a partir de então, passou a sonhar com a possibilidade, agora completamente palpável, de construir uma vida e um futuro cheio de novas possibilidades para Spira e seus habitantes.

Confronto de ideais

Contudo, como nem todo mundo pensa da mesma forma, começaram a surgir facções guiadas pelas mais diversas linhas de pensamento.  Uns ainda achavam necessário manter-se ligados a um sistema de devoção religioso, ainda que reformado e com preceitos supostamente mais humanistas, já outros, acreditavam que o progresso da humanidade só poderia recomeçar justamente depois que todos pudessem deixar os dogmas para trás a fim de abraçar um futuro onde a estrada do progresso é iluminada pelo conhecimento e pela ciência.

Baralai, Gippal e Nooj, os líderes das novas organizações de cunho político e religioso de Spira
Vários membros de grupos políticos e religiosos sonham em ter o apoio daquela que salvou a humanidade da ameaça de Sin, mas Yuna tenta manter-se imparcial o máximo que pode. Contudo, no fim das contas, caberá ao jogador decidir ao longo do jogo de que lado o grupo da ex-evocadora vai ficar nisso tudo.

Em meio a esses conflitos políticos e ideológicos quase pacíficos e durante a própria busca de Yuna, uma nova ameaça milenar surge, vinda diretamente do período em que ocorrera a grande guerra entre Zanarkand e Bevelle, que resultou no aparecimento de Sin e na destruição de Zanarkand. Ao longo da narrativa, passado e futuro se conectam novamente, e o jogador deve a todo o custo tentar impedir mais uma vez a destruição do mundo.

Mesmo mundo, nova atmosfera

"Brother's Angels"
Uma das coisas que mais surpreendeu e até incomodou alguns dos fãs de Final Fantasy X, e até muitos da própria série, foi o fato de o universo de Final Fantasy X-2 ter conceitualmente se diferenciado demais do de Final Fantasy X. Graficamente, ainda estamos vivendo na Spira que percorremos com Tidus e Yuna, mas a sensação de que passamos a viver uma versão nipônica de Charlie's Angels é algo mais do que recorrente nesta continuação.  Isso por si só não seria exatamente um defeito, mas a impressão inicial que temos é a de que o universo da história se descaracterizou bastante.

Porém, quando analisamos o jogo com cuidado e calma, percebemos que até mesmo o fato de Yuna parecer drasticamente diferente logo se mostra como algo que está muito mais ligado ao seu visual do que à sua personalidade. A personagem, apesar de um pouco mais animada e ousada, continua sendo aquela mesma garota altruísta e determinada com um leve toque de timidez e inocência que conhecemos em Final Fantasy X.


Já a nova atmosfera de Spira, que parece muito mais alegre e festiva, pode ser mais bem aceita quando levamos um pouco em consideração que, depois da derrota de Sin, o planeta não é mais um lugar triste que teme constantemente a ameaça de uma entidade que espalha morte e devastação pelo mundo inteiro.

Asas de Gaivota

No período em que se passa o jogo, estão surgindo grupos de pessoas por todo o planeta que passam a caçar tesouros e relíquias antigas do período de antes de Sin, que remontam um passado pouco conhecido para os habitantes de Spira. Dentre estes estão os Sphere Hunters (Caçadores de Esferas), que varrem o mundo em busca dos artefatos de memória. Yuna, após receber a esfera de memória de Kihmari, acaba decidindo participar de um grupo de Sphere Hunters, ao lado de Rikku, Paine (uma nova personagem), Brother (irmão de Rikku) e Shinra, uma criancinha superdotada que disputa a liderança do grupo com Brother. Juntos, esses engraçados e carismáticos personagens são conhecidos como os Gullwings (Asas de Gaivota).

Brother e Shinra, auto-intitulados cérebros da equipe

Dresspheres

Dentre essas esferas de memória, existe um tipo muito especial que confere, a quem a possuir, acesso direto às habilidades do seu portador original. No decorrer do game, Yuna, Rikku e Paine coletarão e poderão utilizar tais esferas para habilitar um dos mais robustos e dinâmicos sistemas de classe já vistos em um Final Fantasy. Um sistema em que você controla as três personagens através de batalhas em tempo real com suporte a um estiloso esquema de troca de classes durante o decorrer das lutas. Algo que chega a ser até mais funcional e robusto que o recentemente criado Paradigm System, de Final Fantasy XIII.


As batalhas abandonam o sistema quase estático de turnos que fora usado em Final Fantasy X e voltam a acontecer em tempo real, fazendo uso da já bastante familiar barra de ATB. Algo que deixou os embates bem mais dinâmicos, ainda mais que agora todos os participantes da luta podem executar suas ações simultaneamente. As cinemáticas evocações de aeons saem de cena e abrem espaço para o visualmente impactante sistema de troca de classes através das dresspheres.

Vários caminhos para uma mesma história

Celsius, a airship artrópode
Diferente da jornada bastante linear que vivemos em Final Fantasy X, na aventura protagonizada por Yuna exploramos o mundo de uma forma relativamente bem livre através dos cinco capítulos pelos quais se desenrola a história. A bordo da Celsius, uma aeronave estranhamente articulada, o grupo de caçadores de esferas pode viajar quase que instantaneamente para qualquer parte de Spira. Estando no solo, você pode percorrer o mundo da mesma forma como o percorria em Final Fantasy X, ou pode voltar para a Celsius e ir para outra missão em um outro ponto do planeta.

Menu de navegação acessado pela ponte de comando da Celsius

Em cada região do mundo há várias coisas acontecendo e várias coisas a serem feitas que se ligam direta ou indiretamente à narrativa principal. Para avançar na história, o jogador deve visitar alguns pontos-chave, denominados de Hotspots, e executar alguma missão. Porém, por todas as regiões de Spira, e em cada um dos capítulos, sempre há algo de opcional e de muito interessante e recompensador a ser feito. Se você quiser desbloquear o melhor final e conseguir os equipamentos realmente fortes, terá de fazer de tudo para completar cem porcento de todas as missões que existem no jogo. Algo que nem de longe chega a ser tedioso. Pelo menos não durante quase toda a aventura. A exceção para essa regra é a dungeon opcional Via Infinito, com seus cem andares de monstros poderosos e música melancólica.

Essa reunião nem sempre se torna possível

Ao completar o jogo você ainda poderá reiniciá-lo em um modo New Game+ que conserva todos os itens e habilidades do jogo terminado, sendo que só o nível dos personagens não é mantido.

O iconoclasta fiel às origens

Nem todos apreciaram Final Fantasy X-2, mas a verdade é que ele é um jogo com gameplay e narrativa muito bem executados, que com certeza foi um dos melhores lançamentos para o PlayStation 2 e que ,em alguns aspectos, foi até mais fiel às raízes da série do que o próprio Final Fantasy X, graças, por exemplo, ao seu ostensivo sistema de classes, ou mesmo graças à volta da utilização dos pontos de experiência e dos pontos de habilidade para subir o nível dos personagens e das classes. Com o lançamento da versão em HD a caminho do PS3 e do PS Vita, este se torna um título do passado mais do que recomendado para se por nas listas de jogos a serem jogados num futuro próximo.
Capa: Daniel Silva
Samuel Coelho é apaixonado por literatura, música, filosofia e arte digital. Ex-aluno de Ciência da Computação na UFPa, ator amador e notívago inveterado, ele passa noites e noites em claro se afogando em tudo o que o fascina. Encontre-o no Facebook ou no Twitter.

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