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Análise: Deadpool - O mercenário tagarela estreia em grande estilo (PS3)

Em 2012, quando a Activision anunciou o desenvolvimento de um hack'n'slash estrelado por Deadpool , milhares de sombrancelhas s... (por Alex Campos em 16/09/2013, via PlayStation Blast)


Em 2012, quando a Activision anunciou o desenvolvimento de um hack'n'slash estrelado por Deadpool, milhares de sombrancelhas se ergueram ao redor do mundo (a minha inclusive). Seja pelo medo de receber um título vagabundo, pelo medo que desfigurassem um dos nomes mais interessantes dos quadrinhos para enquadrar o título no mercado infantil ou ainda pela terrível lembrança da aparição do personagem no filme do Wolverine. O fato é que, sinceramente, eu não esperava ver um título relevante, e talvez por isso que o jogo lançado tenha me agradado tanto.

Um jogo vulgar

Para os fãs do mercenário, fiquem tranquilos, para quem nunca ouviu falar… Se preparem. Nada de tratamento infantil, muito pelo contrário. Repleto de cenas absurdas, humor psicótico e piadas sexistas, Deadpool é um título vulgar e isso é ótimo. Na verdade, é exatamente o ponto mais alto do jogo.


Sejamos francos, o gênero hack'n'slash está entre os mais saturados desta geração. Em meio a grandes nomes como Bayonetta, DmC e Metal Gear Rising: Revengeance, não podemos dizer que Deadpool seja um expoente do gênero. Ainda que a proposta combine perfeitamente com o que se espera do personagem, a falta de polimento nas mecânicas fundamentais do título ficam evidentes, e o mercenário inclusive faz piadas com isso.

Problemas de câmera, ação repetitiva, cenários sem sal… Para quem lê, pode soar estranho que um jogo assim possa ser de algum modo encantador, mas, verdade seja dita: a High Moon Studios acertou a mão na apresentação do personagem, e isso foi definitivamente um grande feito.

Seguindo a fórmula do gênero

Como um tradicional hack'n'slash, em Deadpool você deve percorrer cenários praticamente lineares, destruindo tudo que existir pela frente. Armado de duas katanas e um arsenal de armas de fogo, a mecânica dos controles é simples: combinações de ataques leves e fortes podem ser misturadas para criar combos e aumentar um multiplicador, que ao derrotar um inimigo garante dinheiro para ser usado na aquisição de novas armas e poderes.


Assim como em outros títulos do gênero você pode também alternar entre os ataques de espada e tiros de armas de fogo, bem como utilizar apenas pistolas e granadas para eliminar adversários à distância.

Ainda que, teoricamente, os controles se mostrem simples e funcionais, alguns problemas fazem com que a jogabilidade do título seja também seu maior problema. Enquanto os botões de ataque respondem de maneira satisfatória, atividades simples como pular e contra-atacar apresentam alguns pequenos problemas, mas que podem incomodar.

Em primeiro lugar, a execução do pulo parece um pouco engasgada. Mesmo podendo realizar o tradicional double jump (salto duplo)  com o qual o herói faz piada sobre jogos ignorarem as leis da física  estes são um tanto curtos, de modo que mesmo para saltar pequenas distâncias você acaba tendo que usar o salto duplo e às vezes tentar mais de uma vez, seja pelo fato das plataformas encontrarem-se no limite de seu alcance ou pelo segundo problema fundamental: a câmera.


Em títulos de ação, é normal ficarmos cercados por hordas de adversários. Para compensar isso, games do gênero trabalham com câmeras inteligentes, ângulos pré-definidos que garantem ao jogador um grande campo de visibilidade durante o combate. Infelizmente, em Deadpool, grande parte do movimento da câmera é deixado nas mãos do jogador, fazendo com que muitas vezes seu campo de visão encontre-se fora de lugar na hora da ação, seja contra inimigos menores ou contra chefes.

Para contornar o problema, foi introduzida ao jogo uma mecânica de contra-ataque e esquiva, similar à encontrada em jogos como Sleeping Dogs e Bayonetta, infelizmente o comando mapeado para estas duas funções encontra-se no mesmo botão, fazendo com que o jogador acabe acidentalmente teleportando quando gostaria de contra-atacar e vice-versa.

Ainda assim, o título funciona de modo satisfatório e tais problemas podem passar despercebidos para jogadores menos exigentes.

Uma vastidão de personalidades

Para quem não acompanha os quadrinhos: Wade Wilson era um mercenário de elite, até passar por um processo de mutação induzida, no projeto Weapon X, recebendo os genes de Wolverine, o que garantiram a ele o mesmo fator de cura acelerada do famoso herói. O problema é que o processo acabou por deixar o rapaz biruta. Biruta mesmo, habitado por uma vastidão de personalidades, que conversam constantemente entre si e discutem em voz alta estratégias para derrotar os inimigos a sua volta.


Em termos de jogabilidade, a premissa insana do herói foi traduzida de modo perfeito. Além da excelente dublagem por parte de Nolan North, que trabalha cada diálogo (ou monólogo…) de modo magistral, temos uma multiplicidade de aspectos apresentados de modo ousado, fugindo um pouco do marasmo de enfrentar horda atrás de horda.

Trabalhando dentro da insanidade, além dos textos, o gameplay foi também desenvolvido de modo a explorar este viés. Subitamente o jogo passa por momentos de 8-bits que remetem a títulos como Pacman, e platformers antigos. Estes eventos chegam de modo inesperado e são sempre notados pelo protagonista, garantindo algumas boas risadas ao jogador.


Além destas curiosas surpresas na montagem dos cenários, Deadpool carrega também um certo senso sobre a quarta parede… A todo momento ele lembra o jogador de que este é um jogo e que ele é apenas um personagem, dialogando diretamente com você e não com os outros personagens na tela. Deste modo, são comuns cenas em que o protagonista fala olhando diretamente pra você, comentando sobre o absurdo dos quadrinhos ou sacaneando heróis como Wolverine e Spider-Man.

Uma história dentro de uma história

Acompanhando a maluquice do protagonista, a história também enquadra-se em algo entre o mundo dos jogos e o mundo real. Por uma razão qualquer, Deadpool resolveu encomendar para o High Moon Studios (o mesmo que desenvolveu o jogo no mundo real) um jogo sobre si próprio. Depois de uma breve negociação envolvendo alguns quilos de dinamite, o presidente do estúdio concorda com a proposta e envia um roteiro do jogo para a avaliação do personagem. Sem saco para ler, Deadpool rabisca o roteiro com crayon e parte para o mundo chutar bundas.

Exato: essa é a história. Você dificilmente vai entender alguma coisa do roteiro original proposto, até porque, quando algum personagem como Cable tenta explicar alguma coisa, Deadpool se perde em seu mundo psicótico e começa a dialogar por cima, fazendo com que o roteiro torne-se simplesmente incompreensível. Por incrível que pareça, esta foi uma sacada genial, tornando o que poderia ser uma história medíocre em uma grande piada auto-referencial que transita entre elementos do mundo real e do mundo dos quadrinhos, com direito a piadas sobre os roteiristas e animadores do jogo e sua falta de habilidade.

Por fim

Deadpool é um título interessante. Mesmo que não seja um jogo fundamental para amantes de ação ou do personagem, ele consegue permanecer fiel ao personagem e ainda garante ao jogador bons momentos de entretenimento, ainda que travados pelas pequenas falhas em sua jogabilidade e pelo excesso de inimigos repetitivos. Ainda assim, guiado por um absurdo senso de humor (que de vez em quando escapa para um sexismo um pouco vergonhoso), e algumas mecânicas realmente interessantes dentro da psicose do personagem, o jogo garante bons momentos de diversão ao longo de suas 8 horas de duração.

Existem ainda alguns desafios online e uma tradicional lista de trophies a serem conquistados, mas infelizmente, este não é um jogo com um fator de replay muito alto, a não ser que você realmente ame o Deadpool. Todos amam o Deadpool, menos o Cable… e o Wolverine.


Prós

  • Humor acido e escrachado;
  • Roteiro inesperado;
  • Dublagem de alta qualidade;
  • Grande variedade de armas e combos.

Contras

  • Gráficos sem sal;
  • Ação repetitiva;
  • Controles sem acabamento.


Deadpool – PS3 – Nota: 7.0


Capa: Vitor Nascimento
Revisão: Alan Murilo
Alex Campos é graduando em Produção Sonora pela UFPR. Trabalha como músico freelancer e participa ativamente no cenário de jogos indie nacionais. Estuda por diversão sobre a indústria de games e está no Facebook.

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