Discussão

Uma reflexão sobre o preço do PlayStation 4

"Quatro mil"? Tenho certeza que não fui o único a engasgar vendo este valor. Não imaginava. Quem imaginaria? Colocar um consol... (por Alex Campos em 31/10/2013, via PlayStation Blast)


"Quatro mil"? Tenho certeza que não fui o único a engasgar vendo este valor. Não imaginava. Quem imaginaria? Colocar um console a este preço com seu concorrente direto custando praticamente metade poderia parecer um absurdo para todos… todos menos o pessoal da Sony Brasil. Após semanas de conversa, gráficos enganosos e uma BGS para mostrar o produto, parece que muitos já esqueceram. Eu não esqueci, e você também não deveria.

Um preço enganoso

Sou fã dos consoles da Sony, admito. Se pudesse optar entre o PlayStation 4 e o Xbox One, não tenho dúvida de que eu escolheria o primeiro. Com belíssimas franquias já estabelecidas, cross e remote-play com o Vita, preço menor e sem um olho maligno te vigiando 24h por dia, certamente, o console da Sony seria minha primeira opção... se não fosse a Sony.

Para quem acompanha o mercado de consoles, o preço do PS4 no Brasil não veio como um choque, mas sim como um soco, dado com o pé, no meio do nariz. Como pode? Um console que custa 400 dólares (850 reais em uma conversão aproximada) chegar aqui custando 4.000 reais, quase 500% mais caro, ainda mais levando em conta que seu concorrente direto, o Xbox One (que nos EUA custa 100 dólares a mais) vai chegar aqui por 2.200 reais, praticamente a metade do preço.


"Impostos", justificou o braço brasileiro da Sony. Um gráfico bonitinho apresentado por eles semana passada fala dos custos de transporte, do lucro dos lojistas, do lucro da Sony Brasil. Sabe o que é isso? É um grande "o problema é de vocês" em um linguajar bonito e mentiroso. De saída, temos a empresa apresentando como valor inicial do console U$ 400, um valor que estaria correto, se você estivesse comprando o console em uma loja americana. Estes 400 dólares já incluem o lucro dos lojistas, os custos de transporte e toda estrutura garantida pela Sony a consumidores americanos. Como já vimos com a Nintendo e outras empresas, todos sabemos que a mesma estrutura não é disponível em território nacional, ao menos não com a mesma qualidade.

Difícil dizer qual o valor do console para os lojistas, mas pelo que sabemos, a Sony está subsidiando parte do valor, assim, parece seguro afirmar que o valor subsidiado dos consoles americanos vai sair do bolso de alguém… do nosso, caso contrário teríamos o PS4 chegando a U$ 340, em oposição aos 400 dólares. Corrigido este valor, aí sim entram as taxas aplicadas diretamente pelo governo. Neste ponto, os cálculos apresentados pela empresa mostram-se corretos, entretanto ainda fica a dúvida, porque a Microsoft consegue valores menores?

Como diria o Capitão Planeta: O problema é de vocês.

Uma empresa sem personalidade

Como já comentamos anteriormente, a Sony é uma empresa atrapalhada. Apesar do inegável sucesso de produtos como o primeiro PlayStation e o PS2, ultimamente, toda vez que você acha que a companhia tem tudo pra dar certo em uma geração, um ou mais de seus produtos terminam como tiros pela culatra. Foi assim com a arquitetura Cell, com o PSP e atualmente com o Vita. Ao que tudo indica, enquanto o laboratório de desenvolvimento da Sony busca constantemente trazer tecnologia de ponta para os produtos da empresa, seus braços comerciais não dão conta do recado, apostando no público alvo errado e em estratégias de mercado esquisitas.

Para quem lembra da E3 2013, um dos grandes momentos da feira foi o anúncio do preço do console. U$ 400 é uma verdadeira bagatela, ainda mais levando em consideração o custo de U$ 500 do One. Pouco depois da feira, o que soubemos, no entanto, foi uma história um pouco diferente, mas tão interessante quanto. A verdade é que a Sony esperou a Microsoft determinar seu preço para então escolher o preço do PS4. Acessórios inclusos foram cortados, a câmera foi removida, tudo para garantir que o console estivesse um passo à frente de seu concorrente, ao menos em termos comerciais.

E nós acreditamos...
Por um lado a empresa sacrificou funcionalidades e, assim como vimos com o Move, provavelmente o ecossistema do console vai sofrer para apresentar títulos relevantes para acessórios opcionais. Por outro lado, entretanto, a mensagem foi bem clara: antes de dar prioridade a bugigangas, a Sony estava dando prioridade a seus consumidores, facilitando a transição do público entre as gerações, e essa atitude determinou uma grande vitória para a empresa na E3.

Contudo, voltando ao Brasil, parece que a estratégia da empresa não foi adotada por todas as suas filiais. Além de ter todo o subsídio removido, o braço nacional da empresa não se deu ao trabalho de buscar uma redução nos impostos. Há muitos anos o Xbox 360 já chegava ao país por importação, sem nenhum componente nacional e com valores razoáveis, com a fabrica em Manaus a situação melhorou ainda mais. O Xbox One nem foi lançado ainda e já possui facilidades. Falta vontade e sobra gente disposta a pagar 4.000 reais em um PS4, assim como pagavam 10.000 reais em um Sony Vaio. A verdade é que a empresa nunca se deu ao trabalho de tentar baratear a entrada de seus produtos aqui, afinal, tem quem pague.

Só pros gangsta

Não pode pagar? tem quem possa

É difícil gostar de jogos neste país. Não falo apenas dos impostos, nem da falta de localização de títulos, nem da falta de produtoras e nem mesmo da falta de serviços. O que me irrita? A falta de interesse. Não é de hoje que somos vistos como um grande mercado a ser explorado, lemos isso todos os dias e o problema é a sinceridade nefasta desta frase. Ninguém está disposto a investir, apenas explorar. A Sony, a Nintendo, a Microsoft só querem vender seus consoles e aumentar sua base instalada. Alguns fazem isso de modos mais eficientes, a Sony do pior modo possível, mas o resultado é o mesmo. Enquanto existir quem pague, continuaremos como um mercado a ser explorado.

Para nós, o que resta? Nada. Um grande nada. Não somos o público alvo, não para esta empresa e para este produto. Se eles querem continuar vendendo um console a 4.000 reais, o problema é deles. Em pouco tempo eles estarão cortando "investimentos" e falando que o público brasileiro não consome seus produtos. E nós? Estaremos com outras alternativas. Um Xbox One, um Wii U, um PC gamer… com essa grana você vai ao Paraguai e compra os três.

Aos ricos, o console e a diversão... Ao jogador, a banana.


Revisão: Vitor Tibério
Capa: Stefano Genachi

Alex Campos é graduando em Produção Sonora pela UFPR. Trabalha como músico freelancer e participa ativamente no cenário de jogos indie nacionais. Estuda por diversão sobre a indústria de games e está no Facebook.

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