Discussão

O erro da Sony com o PS Vita

Altamente elogiado pela crítica especializada e armado com um poder de fogo de fazer inveja, o PlayStation Vita chegou no mercado com uma... (por Alex Campos em 10/10/2013, via PlayStation Blast)

Altamente elogiado pela crítica especializada e armado com um poder de fogo de fazer inveja, o PlayStation Vita chegou no mercado com uma incrível promessa. De fato, o console é certamente o mais poderoso dispositivo portátil da atualidade, entretanto, mesmo com uma janela de lançamento interessante e toda a incrível capacidade do aparelho, é notável o fato que o console segue uma trajetória de vendas descendente, seguindo o caminho contrário de seu concorrente direto, o Nintendo 3DS. Em uma olhada superior, pode-se argumentar que o alto valor cobrado pelo aparelho espanta os consumidores, enquanto o presidente dos estúdios da Sony fala abertamente em entrevistas que o mercado de celulares está matando o mercado dos portáteis. Será verdade? Não parece bem o caso.

Um portátil ou um console?

Desde o PSP, é fato que a Sony prima por criar um portátil com tecnologia de ponta, capaz de disputar com consoles e levar para o bolso do jogador experiências muito além do que outros dispositivos permitem. Deste modo, soa até estranho falar que o console foi decapitado por aparelhos tecnologicamente inferiores, muitas vezes tão caros quanto o próprio Vita. A questão no caso é que falar em concorrentes é fácil, jogar a culpa de seu fracasso na qualidade alheia é a tradicional saída pela direita do covarde leão da montanha, sem saber admitir seus erros, ou pior, sem conseguir enxergá-los.

Infelizmente, talvez seja mesmo a segunda opção. Apesar dos ótimos títulos, podemos com tranquilidade falar que o PlayStation Vita não sabe ao que veio. Concebido para trazer aos jogadores a melhor experiência dos consoles em um portátil, o dispositivo acaba por não construir nenhuma personalidade própria, apresentando muitas versões enxutas de jogos já consagrados. Se em um primeiro momento a ideia de jogar um Uncharted ou outro grande título em um portátil parece atraente, pense na atenção que estes jogos demandam. Você não vai conseguir aproveitar o jogo em locais abertos, simplesmente por não dar a devida atenção ao game.

Para de falar um pouco que meu ônibus chegou...
Naturalmente, os estúdios da Nintendo também trazem jogos de porte para seus portáteis, todavia, se você perceber, estes não são o foco da companhia no mercado móvel, mas sim jogos com dinâmicas mais rápidas, que possam ser interrompidos a qualquer momento. Do mesmo modo, mesmo grandes títulos como Mario, Zelda e Metroid são também pensados de modo a não carregar a mesma abordagem de suas versões de console, sempre apresentando um design e uma jogabilidade exclusiva, focada no dispositivo em questão e nos contratempos de jogar na rua.

Trocando por miúdos: quem prefere jogar Uncharted dentro de casa em uma tela pequena a jogá-lo em uma tela grande? Pegar versões simplificadas ou as versões "completas" do mesmo título em um console… Digo uma tela pequena pois já concluímos que não é o título ideal para ser jogado na rua, logo, presume-se que o jogador precise estar em um ambiente que lhe permita garantir atenção ao jogo… O Vita é um portátil que sonha em ser um console, e a Sony acaba de perceber isso.

Concorrendo com você mesmo

Para tentar remediar a situação, PlayStation Vita TV é a nova aposta da companhia. O portátil (agora destituído de suas funções portáteis) tornou-se mais um aparelho a ser ligado em sua TV para que você possa jogar os títulos do Vita… Grande sacada? Provavelmente não. Embora possamos ver um aumento no número de vendas do console e de seus títulos, o resultado desta operação é que a Sony estará concorrendo na sala de estar com ela mesma.

De um lado temos o já estabelecido PlayStation 3, com inúmeras franquias, opções, usuários e tempo de casa, do outro, temos o PlayStation 4, que chega no fim do ano, buscando por um espaço no coração e no quarto dos jogadores. Será que faz sentido apostar em mais um console de mesa, mais caro e com menos jogos que o PS3 em cima do lançamento do PS4? Poucos vão gastar duas vezes, ainda mais quando, como já dissemos, os jogos do Vita consistem em versões simplificadas de jogos de PS3, logo, teremos dois consoles semelhantes, da mesma companhia, concorrendo por um mesmo nicho, o que além de tudo pode tornar o ecossistema da empresa muito difuso.

O primeiro portátil de mesa.
Tendo dinheiro suficiente para um dos três consoles, qual seria sua lista de prioridades?

Custos exorbitantes

Com grandes poderes vêm grandes preços, e o PS Vita é certamente poderoso. Temendo pelo mal da pirataria, uma das mais arriscadas apostas da Sony para com o aparelho foi a utilização de um cartão de memória proprietário. A ideia por trás é simples: se tal cartão não consegue ser utilizado por computadores convencionais, fica mais difícil que usuários utilizem-no para reproduzir jogos baixados pela internet (será?). Na vida real, entretanto, o resultado é que o cartão mágico custa muito mais do que qualquer valor razoável. Claro que ele afasta a pirataria… ele afasta usuários.
Notando o fato, a Sony tentou em sua nova versão do aparelho reduzir um pouco do preço pela mudança dos materiais: a tela OLED foi substituída por uma LCD mais convencional e provavelmente os custos de fabricação da nova versão do aparelho são também menores, entretanto, o problema principal continua: além de gastar uma grana comprando o aparelho, você certamente terá que desembolsar ainda mais um bom dinheiro pelo cartão de memória, que permanece inalterado.

Atacando o público errado

Como já citado, em entrevista recente, o representante da empresa atribuiu as baixas vendas do portátil ao amplo sucesso das empresas de smarthphones. Além de toda questão já discutida sobre o foco de cada um dos dispositivos, devemos ainda lembrar: a Nintendo vai muito bem e não parece se importar muito com os celulares. Estaria a empresa focando o público errado? Possivelmente.

A falta de conhecimento do núcleo de entretenimento da Sony é notável. Enquanto a divisão de celulares obtém um desempenho razoável frente a gigantes como Samsung e Apple, a tentativa de híbrido da empresa, o Xperia Play mostrou-se um fracasso cabal.

Em uma breve avaliação, a empresa aposta em um mercado que não existe, acreditando de pés juntos que jogos como Killzone e LittleBigPlanet concorrem com Angry Birds e Dead Trigger. Seria mais ou menos como lançar uma Ferrari pra concorrer com um patinete, e culpar o fabricante de rolamentos pelas baixas vendas. A empresa tenta a qualquer custo abocanhar um mercado que não pertence ao aparelho, lançando jogos que não interessam ao consumidor alvo, sem perceber o amplo mercado de pessoas que querem um Vita mas que esperam experiências diferentes no portátil.

Existe concorrência entre estes aparelhos? Alguma, certamente, mas apenas para o público casual, que não busca um aparelho dedicado. Enquanto isso, as vendas do 3DS mostram que o modelo vai muito bem, e que existe sim um enorme público interessado, apenas esperando por bons lançamentos.

Uma luz no fim do túnel?

A Sony é uma empresa curiosa. Vindo de altos e baixos nos últimos anos, a companhia não poupa esforços para tentar se recuperar, vimos a astronômica recuperação do PlayStation 3, a preocupação com os jogadores no anúncio do PlayStation 4 e a evolução espetacular da PSN, com o programa de jogos gratuitos para assinantes. Nota-se que a empresa está definitivamente se esforçando para conquistar mais seus consumidores, mas ainda falta um pouco de foco.

Além de estudar melhor o mercado de portáteis, faria bem a companhia parar de procurar pelo em ovo e atacar os reais problemas que atrapalham o sucesso do PS Vita, como a falta de títulos dedicados e os problemas de custo. No fim, como jogadores, todos torcemos para o sucesso do console, mas é bom que a Sony tenha um plano de re-estruturação para o sistema, pois, se o único plano for o Vita TV, é possível que a luz do fim do túnel se mostre um trem.

Revisão: Vitor Tibério
Capa: Stefano Genachi
Alex Campos é graduando em Produção Sonora pela UFPR. Trabalha como músico freelancer e participa ativamente no cenário de jogos indie nacionais. Estuda por diversão sobre a indústria de games e está no Facebook.

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