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Análise: Com Watch_Dogs (PS4) o mundo está em suas mãos

O aguardado título da Ubisoft oferece uma experiência sólida, mas com alguns problemas que não podem passar batidos


Há pouco menos de dois anos, a Ubisoft surpreendeu a todos com o anúncio do seu primeiro título com feeling de nova geração. Watch_Dogs nos foi apresentado como um grande arrasa-quarteirões da indústria, principalmente graças a sua épica demonstração pública de protótipo que surpreendeu a todos pela grande fluidez de gameplay e pela beleza gráfica do jogo. O frisson gerado com o anúncio fez com que a desenvolvedora francesa roubasse completamente a cena da E3 de 2012, que se arrastava ao esbanjar jogos que começavam a deixar claro o fato de que os consoles HD estavam envelhecendo e que uma nova geração estava prestes a surgir. Durante todo o desenvolvimento do título, a Ubisoft manteve um controle rigoroso quanto às informações liberadas ao público, o que aumentou ainda mais a expectativa dos jogadores, ansiosos pelo grande título que os aguardava. Depois de um difícil atraso de seis meses para além da data de lançamento prevista inicialmente, finalmente colocamos as mãos no título. E com isso comprovamos mais uma vez que o hype é um dos maiores problemas da indústria.


Mexendo com gente grande

Em Watch_Dogs você assume o papel de Aiden Pearce, um hacker mercenário que consegue muito dinheiro obtendo segredos de pessoas importantes e descobrindo dados sigilosos de acesso a contas bancárias e fortunas escondidas. Tudo corria bem para esse rapaz, até que sua identidade é descoberta durante apenas mais uma de suas missões. Infelizmente, as pessoas que o descobriram não foram muito compreensivas e mataram, sem o menor remorso, a sobrinha de Pearce, e também passaram a ameaçar constantemente toda a sua família. Com a vida de todos os seus entes queridos por um fio, cabe a Aiden resolver o problema criado por sua própria ganancia, algo que acabará colocando-o no meio de uma enorme teia de crimes e conspirações de pessoas poderosas.


O promissor enredo de Watch_Dogs aborda temas atuais com muito cuidado, e isso faz com que a temática do título se sobressaia em relação a de jogos do gênero, como GTA, inFAMOUS e outros títulos de mundo aberto, já que situações como espionagem na era digital vêm se tornando cada vez mais relevantes, principalmente após o escândalo envolvendo a NSA e o governo dos Estados Unidos, no ano passado. Situada em Chicago, a aventura nos leva a um mundo contemporâneo em que a internet armazena e controla informações diversas sobre cada cidadão, um mundo que também é vigiado por diversos sistemas de câmeras e de outros aparatos tecnológicos que quase controlam totalmente a vida das pessoas, ainda que sob a boa e velha justificativa de que a segurança dos cidadãos faz valer as medidas drásticas. É o retorno do Big Brother do clássico 1984, só que em um contexto mais amplo, no qual você também pode controlar o que quiser.


Infelizmente o roteiro do jogo não se sustenta até o fim, contando com momentos rasos e sem muito desenvolvimento dos personagens. Aiden Pearce é bastante promissor, mas acaba se tornando apenas uma desculpa para que os jogadores mergulhem no incrível mundo criado pelo time da Ubisoft, que mesmo com alguns problemas, ainda é um dos mais interessantes já criados nos últimos anos. Os personagens secundários brilham em alguns momentos, mas ainda assim não tornam o enredo bom o bastante para prender os jogadores, que continuarão jogando graças às mecânicas divertidas do título.

O mundo em suas mãos

Certamente o maior atrativo de Watch_Dogs são as suas mecânicas, que diferenciam o título de todos os jogos de mundo aberto já lançados até hoje. Tudo porque Aiden carrega consigo o Perfilador, um smartphone capaz de interceptar os sinais do ctOS (sistema operacional utilizado para controlar o fluxo de dados da cidade) para que Aiden utilize-os em proveito próprio. Com o telefone em mãos, Aiden é capaz de descobrir uma série de informações sobre a vida de cada transeunte, desde o nome até os códigos de acesso da conta bancária, e isso pode ser feito com qualquer pessoa que estiver passando pelas ruas da cidade! Ao investigar os cidadãos, o herói pode descobrir crimes prestes a serem executados, segredos que podem valer fortunas e curiosidades mais simples, que ainda assim dão um toque de credibilidade ao universo do jogo, que se torna cada vez mais imersivo conforme você joga. E isso ainda é só o começo.


Com o Perfilador, Pearce também é capaz de controlar diversos elementos da cidade, como semáforos, portões de casas, pontes levadiças e até mesmo a distribuição de energia das ruas e prédios. As mecânicas, que funcionam extremamente bem, dão ao jogador muita liberdade na execução das missões, que podem ser jogadas de muitas maneiras diferentes. Para deixar tudo ainda melhor, todas as suas ações são recompensadas com pontos de experiência que podem ser trocados por novas e poderosas habilidades, trazendo uma gratificante sensação de progresso aos jogadores, que, ao contrário do que ocorre em muitos outros títulos, se sentem realmente com um personagem cada vez mais poderoso conforme a história avança.


Infelizmente, mesmo com todo o refinamento dado pela Ubisoft nas mecânicas do jogo, algumas passagens ainda deixam a desejar. Controlar veículos em Watch_Dogs não é das tarefas mais simples, e uma perseguição policial pode se arrastar por muito tempo até que o jogador pegue as manhas de como fugir mais eficientemente. Além disso, é nessas horas de perseguição que a inteligência artificial do jogo se torna também um pouco falha e acaba destruindo parte da imersão do título, já que, na maioria das vezes, basta desligar o carro e apagar as luzes que você ficará bem, mesmo que seu carro esteja totalmente destruído na contramão de uma grande rodovia (acreditem, isso funcionou comigo).

A síntese de uma década

Watch_Dogs é um jogo extenso. Com 39 missões principais e uma quantidade imensa de missões paralelas, o jogo mistura elementos de jogabilidade de diversos sucessos produzidos pela Ubisoft na última década. A desenvolvedora, já posse do nível de qualidade atingido no consagrado sistema de mundo aberto que conhecemos na franquia Assassin’s Creed, decidiu criar sua nova série a partir da combinação de elementos de alguns de seus outros títulos de sucesso, como Splinter Cell e Ghost Recon. Pearce pode ser controlado com facilidade em quase todas as situações do jogo, seja quando precisa invadir um prédio sem ser notado ou quando se mete em um tiroteio no meio da cidade. Dificilmente tantos elementos são integrados à jogabilidade de um título de maneira tão próxima da perfeição, e isso é um grande mérito para a Ubisoft, que mostra empenho em quase tudo o que já entregou ao público até hoje.

Oportunidade mal aproveitada

Apesar da incrível ambientação e das muitas possibilidades de jogo criadas pela Ubisoft, as missões paralelas pouco fazem para tirar proveito disso tudo. Por serem quase sempre missões “mais do mesmo”, elas não chegam nem a ser um bom passatempo, já que é na campanha principal que estão os momentos mais divertidos do título. O maior problema das missões paralelas é que elas se parecem o tempo todo com as missões principais, só que postas de forma extremamente simples e sem oferecer o menor nível de desafio. Nos momentos iniciais do jogo elas podem até serem um pouco divertidas, mas tudo logo vai abaixo quando percebemos que não estamos fazendo nada por ser divertido, e sim porque nos sentimos na quase obrigação de testar tudo o que o jogo tem a oferecer. O mau balanceamento desse tipo de missão faz com que o jogo não desperte tanto em nós o desejo de explorar toda a cidade, algo que é comum de fazermos em outros títulos do gênero, como GTA ou mesmo Red Dead Redemption, o que é uma pena, visto que Watch_Dogs introduz elementos realmente novos e empolgantes na equação dos jogos de mundo aberto.

Multiplayer inovador

Uma das últimas funcionalidades reveladas pela Ubisoft também é uma das mais divertidas. O modo multiplayer de Watch_Dogs pode parecer comum aos olhos dos mais desatentos, mas graças ao modo de invasão, o jogo excede as expectativas e oferece uma experiência realmente diferente. Durante a campanha single-player, caso o jogador ative a funcionalidade para tal, a partida pode ser invadida por qualquer outro jogador do mundo, que tentará atrapalhar a aventura de Aiden a qualquer custo. A partir de então, sua missão será descobrir quem é o invasor e eliminá-lo.


O modo, que já é bastante inovador por si só, aumenta a imersão e torna mais crível o universo do jogo, que gira em torno de espionagem, vulnerabilidades na internet e invasões hackers. A sensação de fragilidade do jogador perante a possibilidade de ser invadido a qualquer momento faz com que tudo se torne ainda mais imersivo. É claro que a modalidade não é obrigatória e pode ser desativada quando o jogador desejar, mas que os jogadores fiquem avisados que perderão muito da experiência de gameplay caso não a utilizem.
Os outros modos para mais jogadores são mais tradicionais e não passam de variações dos famosos Deathmatch e Capture the Flag, já exigindo que o jogador abandone a campanha single-player para jogá-los. Ainda assim, os modos são bem construídos e garantirão ainda mais diversão à Chicago virtual da Ubisoft.

Falsa promessa

Quando apresentado em 2012, Watch_Dogs possuía gráficos realmente impressionantes e rodava com uma fluidez de cair o queixo. Porém, assim como ocorre em quase todas as E3, fomos enganados por entrarmos sem pensar no hype train. O jogo da Ubisoft nunca chega a ser feio, muito pelo contrário, ele conta com uma cidade viva, lindos efeitos de luz e uma física extremamente realista, por mais que muitos insistam em dizer o contrário. Contudo, a promessa era de que o jogo seria um dos mais lindos já criados na história, e na realidade ele me impressionou bem menos que, por exemplo, Uncharted 3: Drake’s Deception (PS3), lançado ao final de 2011. Com muitas texturas em baixa resolução e rodando a 30 fps no PS4, o jogo decepciona apenas pelo fato de que a promessa da desenvolvedora era outra, bem mais grandiosa.


A trilha sonora é apenas satisfatória, mas é capaz de cumprir bem o seu papel, e o trabalho de dublagem é bastante competente, apesar de não ajudar muito no desenvolvimento dos personagens, já que eles são bastante sem graça. Contudo, a maior decepção fica por conta da localização do título. No entanto, se a dublagem para o português brasileiro de Assassin’s Creed IV: Black Flag (Multi) era uma vergonha, em Watch_dogs esse trabalho chega até a ser competente, quando não é atrapalhado por uma louca mistura de idiomas. Os personagens principais sempre falarão em português, se o jogador assim quiser, mas os NPCs ora falam em inglês, ora falam em espanhol e às vezes falam em nossa língua nativa. A falta de cuidado da Ubisoft neste quesito é bastante frustrante, ainda mais se considerarmos que a empresa é uma das pioneiras e referência de competência quando falamos em tradução e localização de jogos para o nosso idioma.

Os males do hype

Watch_Dogs é um jogo muito acima da média, com uma série de qualidades capazes de fazer inveja em muitas franquias consagradas que rondam o mercado. Contudo, a aventura de Aiden Pearce está longe de ser a grande revolução prometida pela Ubisoft dois anos atrás. Com um enredo falho, mas com mecânicas extremamente criativas e bem executadas, o jogo se revela como o início de uma grande franquia que tem tudo para se tornar o próximo Assassin’s Creed. Basta agora a Ubisoft tentar entender e corrigir os erros que cometeu e tentar não criar tantas expectativas sem ter a certeza de que pode atendê-las. Isso não deve ser tarefa difícil para a gigante francesa, já que ela é uma das melhores desenvolvedoras de todo o mundo.

Prós

  • Ambientação espetacular;
  • Possibilidades de jogo quase infinitas;
  • Mecânicas refinadas, principalmente para jogos de mundo aberto;
  • Sensação de evolução satisfaz os jogadores;
  • Multiplayer extremamente divertido.

Contras

  • Enredo falho;
  • Missões paralelas sem graça;
  • Personagens insossos;
  • Controle de veículos poderia ser melhor;
  • Trabalho de localização com problemas.
Watch_Dogs – PlayStation 4 – Nota 8.0
Revisão: Samuel Coelho
Capa: Stéfano Genachi
Gabriel Vlatkovic é economista formado pela Unicamp. Trabalha como Analista de Finanças e joga videogames há quase vinte anos. Adora ouvir música, assistir a filmes e seriados e discutir a Timeline de Zelda. Quando não está trabalhando, está no Facebook.

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