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Análise: The Wolf Among Us é uma HQ jogável no seu PS Vita

Baseado na revista em quadrinhos Fábulas, o jogo conta com um roteiro excelente e mecânicas bem adaptadas ao portátil da Sony.

A Telltale está craque nos jogos estilo aventura com mecânica de "apontar-e-clicar". Ela vem lançando um game melhor que o outro — basta lembrarmos de The Walking Dead e Back to the Future: The Game —, e foi especialmente feliz ao levar o mundo da revista Fábulas (Vertigo) para os videogames, com The Wolf Among Us, em outubro do ano passado, para diversas plataformas, inclusive o PS3. Um ano depois, o game chega, já com os seus cinco episódios, ao PlayStation Vita. Vamos saber como o potencial do portátil da Sony foi aproveitado nesse ótimo título.

Fábulas

A Vertigo é uma editora que pertence à DC Comics — sim, aquela do Batman — e foi criada para publicar histórias com conteúdo mais maduro, buscando um público mais adulto. Violência, nudez e palavrões são permitidos sem muita censura, considerando que seus leitores estão preparados para isso e não serão afetados em seu caráter ou desenvolvimento psicológico.


Fábulas (Fables, em inglês) é uma das melhores revistas lançadas pela Vertigo. Criada por Bill Willingham em 2002 — e que chegará ao seu fim no início de 2015 —, ela conta com vários personagens das fábulas e folclore que crescemos apreciando, como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Bela e Fera, dentre outros. E adivinhem quem é o protagonista? O Lobo Mau em pessoa. Aquele mesmo que queria devorar aquela garotinha de capa vermelha e sua avó — como o tempo (ou o autor) muda as pessoas, não é mesmo?
Fábulas: um dos maiores sucessos da Vertigo.
Essa fábulas foram expulsas de suas terras natais pelo chamado "Adversário" — cuja identidade é uma bela surpresa — e fugiram para Nova Iorque, onde construíram uma comunidade chamada Cidade das Fábulas (Fabletown), na qual os acontecimentos ocorrem em sua maior parte.

Por outro lado, as fábulas que não apresentam forma humana são enviadas para a Fazenda, longe das vistas do mundanos — como nós, humanos, somos conhecidos por elas. Para poderem ficar com forma humana e passarem despercebidas, elas precisam se valer de um feitiço chamado "glamour", criado por feiticeiras a um alto custo, não sendo, portanto, acessível pela maioria. Ou seja, quem tem glamour vive na cidade numa boa, às vistas de todos, quem não tem vive à margem da sociedade — uma boa crítica do autor.



Em The Wolf Among Us, a história se passa cerca de duas décadas antes dos acontecimentos da revista, sendo um spin-off da mesma. Ainda assim, recebeu diversos elogios do próprio Willingham, que participou como consultor do enredo. Ele afirmou que o pessoal da Telltale praticamente não precisou de qualquer orientação por conhecerem a história completamente. Então todos podemos ficar tranquilos que, apesar de não ter sido criada pelo autor original, trata-se de um enredo de primeiríssima qualidade, sendo de fato o ponto mais forte do game.

Um lobo entre nós

O protagonista, que devemos controlar, é o xerife Bigby Wolf, o próprio Lobo Mau que tanto atormentou a Chapeuzinho e os três porquinhos. Mas ele tem forma humana e busca redimir-se de seus crimes passados — vale notar que todas as fábulas foram perdoadas por tudo que fizeram, ao participar da comunidade da Cidade das Fábulas.
Não era bem assim que o Lobo-Mau aparecia nas historinhas.
O enredo é simples: fábulas estão sendo assassinadas e devemos descobrir o culpado, que pode ser um dos membros da comunidade. As investigações por pistas acontecem interagindo com outras fábulas e examinando objetos, mas nada com muita liberdade de ir aonde bem entender, seguindo um trajeto predefinido. O que realmente muda é o roteiro, conforme você vai tomando decisões, que são o ponto-chave do jogo. Há escolhas pequenas, sem muita repercussão, como ser mais grosseiro ou mais gentil, mas há aquelas que mudam o desenrolar dos fatos, que podem levar à morte ou não de um personagem, por exemplo — isso vai fazê-lo jogar mais de uma vez os capítulos, que duram cerca de duas horas cada.

As tais escolhas são quase sempre em número de quatro e podem ser selecionadas pela tela de toque do PlayStation Vita, ou pelos botões. Algumas são bem corriqueiras e devem ser escolhidas em um curto tempo, enquanto outras demoram um pouco mais, por serem mais importantes. São quatro saves disponíveis, então fique à vontade para usá-los, até porque as suas escolhas no capítulo são levadas para o seguinte, e você vai querer saber o que teria acontecido se tivesse feito opções diferentes.
Escolhas com botões.
Escolhas com a tela de toque.
Na verdade, você mais assiste do que joga propriamente, mas há cenas de perseguição e luta para quebrar a rotina de investigação e diálogos. Elas são muito legais e fáceis de lidar no PS Vita. Basta tocar nos pontos vermelhos marcados e escolher qual deles se adequa melhor ao momento, ou deslizar o dedo na tela na direção que a seta aponta para desviar de algum objeto lançado. O nível de desafio nesses momentos de ação é muito baixo, mas são bem divertidos mesmo assim.
Há escolhas até durante as lutas.
Basta deslizar o dedo na tela para desviar.
O visual do jogo é fiel à revista e muito bonito. A trilha sonora é original e bem feita. A dublagem ficou excelente. Juntando todas essas peças, o pessoal da Telltale conseguiu criar uma ótima atmosfera noir com bastante neon ao game, típica dos anos 1980, década que se passa o título. É uma pena que não haja sequer legendas em português, o que pode dificultar bastante para aqueles não familiarizados com a língua inglesa, na medida que as respostas têm que ser escolhidas em um tempo muito curto.

Tartaruga manca em pele de lobo

O jogo é ótimo e quem gosta do gênero vai ficar muito satisfeito com ele. O problema é que a versão de PlayStation Vita, mesmo tendo sido lançada um ano depois, conta com muitos problemas. Primeiro, as telas de carregamento constantes. O game é feito por cenas, você sai de uma para outra com frequência, e a cada mudança (todas) há um loading de 30 segundos. Acha pouco? Leia uma revista e a cada cena pare por esse período, ou pare um filme quando a cena for alterada nesses mesmos termos. Garanto que vai entender. O tempo para não perder a dinâmica deveria ser de uns três segundos apenas, mas dura dez vezes mais.
Acostume-se com essa tela: ela aparece a cada cena por 30 segundos.
Outro problema é que o jogo congela; ele meio que engasga em diversos trechos — quase sempre, na verdade. A câmera vai se movimentando, dá um travadinha para carregar e continua. O pior é que isso acontece nos momentos de ação: durante lutas e perseguições. Levar uma bordoada na cara porque o jogo teve um lag é enervante.

Não dá para entender porque um console tão potente e moderno como o PS Vita não recebeu uma versão adequada para ele. O pessoal da Telltale tem muito crédito, mas a versão de The Walking Dead para o portátil também sofreu com esse tipo de problema. Parece que eles realmente não se dão muito bem com o Vita.
Com um enredo bem feito e escolhas decisivas para o desenrolar da trama, o pessoal da Telltale conseguiu criar mais um jogo excelente. The Wolf Among Us faz jus à ótima revista no qual é baseado, com aprovação do próprio autor. A mecânica é bem feita, e é uma pena que os loadings e lags atrapalhem a experiência da jogatina, que tinha tudo para ser quase perfeita.

Prós

  • Enredo excelente, com aprovação do autor da revista na qual o jogo se baseia;
  • Boas mecânicas, utilizando bem a tela de toque do PS Vita;
  • Escolhas alteram a trama e são levadas para o capítulo seguinte.

Contras

  • Loadings demorados a cada nova cena;
  • Lag constante.
The Wolf Among Us — PlayStation Vita — Nota: 7.0
Revisão: Catarine Aurora
Capa: Diego Migueis
Alberto Canen é formado em Direito pela UFRN. Joga videogame desde os tempos do Atari e sempre acompanha as novidades na indústria de jogos. Está no Facebook e no Twitter.

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