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Análise: Axiom Verge (PS4) é um Metroidvania com cara própria

Apesar das semelhanças com Super Metroid e Contra a um olhar desinformado, Axiom Verge possui características bem peculiares.

Depois de ter jogado umas duas horas de Axiom Verge, comentei em meu Facebook: se você acha que Axiom Verge parece Super Metroid (SNES), na melhor das hipóteses você não entendeu Axiom Verge. Na pior delas, não entendeu Super Metroid. Há semelhanças, claro. Ambos são metroidvanias futuristas com uma estética do tempo dos 16 bits, então, a confusão vendida pela mídia em geral é até razoável.

Elas param aí. O clima de solidão ao explorar um planeta vasto é desconstruído na primeira cena de Axiom Verge. Durante sua exploração, ele te pega mais na mão ao se comparar com o pai dos metroidvanias. Suas mecânicas e inimigos lembram muito mais a franquia Contra com temáticas de invasão alienígena do que qualquer Metroid e, por fim, mesmo sua estética é muito mais sinistra e irreal que a de Super Metroid. Axiom Verge tem, sim, todo um conceito único construído e é sobre como isso é bem executado que quero falar aqui.

Um mundo a ser explorado

Antes de mais nada, acho bom explicitar que o universo de Axiom Verge é imenso. A campanha principal tem tamanho razoável e é conduzida a um bom ritmo, mas apenas ela é aproximadamente metade do jogo. Fora dessa nítida linha, existem literalmente centenas de ramos que podem ser seguidos para conseguir armas, upgrades de armas e saúde, e documentos que contam parte de sua história. A maioria deles faz parte do mapa visível, mas alguns são trechos escondidos que só podem ser encontrados usando o poder de glitch na parede certa (uma das capacidades obtidas é a de “hackear” a realidade).
É MUITA ARMA MEU DEUS
Note que, excluindo a saúde, todos os upgrades ocorrem nas armas e equipamentos de Trace, o personagem principal. Nesse aspecto, Axiom Verge se difere bastante dos demais metroidvanias: enquanto a evolução dos personagens habitualmente se dá na conquista de novas habilidades, aqui praticamente todas elas ocorrem em sua arma, e umas poucas veem de seu jaleco. Pode parecer uma mudança sutil, mas o objetivo de manter uma coerência entre esta proposta narrativa e as mecânicas do jogo acabaram trazendo certas peculiaridades a ele. Por exemplo: passamos boa parte da campanha aguardando o momento no qual pegaremos o pulo duplo, como em qualquer metroidvania. Isso não existe aqui. Obtemos uma extensão da altura máxima do pulo que pode ser combinada com outros poderes para alcançar obstáculos. Este é apenas um dos diversos poderes originais obtidos, o que poderia dar uma certa sensação de não-obviedade aos desafios do level design.

Didático? Sim, um pouco demais até

Uma pena que há um esforço grande para explicar demais o jogo. É possível que, em algum momento da sua vida escolar, você tenha sido aluno de um professor bem didático e que explica cada mínimo detalhe da matéria, mas ele é tão prolixo que chega a ser irritante, porque ele nunca te deixa caminhar sozinho. O level design de Axiom Verge é esse professor. Você nunca vai travar em uma parte porque ele sempre te lembra a técnica necessária para resolver os desafios difíceis por cerca de três ou quatro telas antes. Ser didático demais em jogos é incômodo; em uma proposta de metroidvania, é fatal, porque tira um dos desafios mais interessantes do gênero. Este é outro dos fatores que contribui para a já citada nitidez da linearidade da campanha principal.


Isso não significa que Axiom Verge é fácil, apenas significa a dificuldade de seu level design não está em precisar pensar o que deve ser feito, como se fosse um puzzle. O jogo possui um level design muito bem estruturado em termos de posicionamento de inimigos e plataformas, e as dificuldades serão superadas de acordo com a perícia e intimidade que obtemos conforme progredimos. Falando em termos práticos, é exatamente o que se espera de um plataforma 2D baseado nos clássicos dos anos 90, inclusive no que se refere à quantidade de mortes. Tenha uma certeza, você vai morrer demais (mas também tem muitos pontos para salvar, então não costuma ser frustrante). Assim como o jogo lembra Metroid apenas nos olhares pouco atentos, também lembra Contra apenas por uns instantes (mesmo morrendo muito). As mecânicas de combate são bem parecidas, e torna essa semelhança realmente válida apenas nas lutas contra os chefes.

Uma história competente

Para não dizer que não falei da história, ela está lá, é minimamente interessante e contribui mais ainda para deixar o jogo bem linear. Digo, pelo seu andamento você sabe que está no caminho certo. Não vou dizer que ela é irrelevante ou que não me importei com ela, mas qualquer elogio além de “competente” seria um exagero. Para ser justo, o desfecho dela é ótimo, mas só ele mesmo. A história cumpre seu papel ao longo da narrativa, tendo seus pontos altos nos momentos certos para despertar nosso interesse, e para aí. Inventa pouco e entrega direito.

Axiom Verge é um ótimo jogo. Calhou de ser um exclusivo de PS4 lançado na mesma semana do excelente Bloodborne (PS4) e de sair em um ano lotado de metroidvanias em uma data muito próxima ao elogiadíssimo Ori and the Blind Forest (XBO/PC), mas mesmo assim, fez barulho na mídia. Não foi apenas por parecer com Metroid, até porque, como foi dito, isso não é verdade. No fim, inspirando-se em muita coisa, a equipe tentou dar uma cara própria a Axiom Verge e conseguiram.

Prós

  • Muito lugar para explorar
  • Level design inteligente
  • Originalidade na evolução do jogo
  • História competente com o propósito do jogo

Contras

  • Excessivamente didático
  • Linear demais para um metroidvania
*Axiom Verge é um exclusivo temporário de PS4. Versões para PSVita e PC estão previstas, mas sem data oficial.
Axiom Verge — PS4 — Nota: 8.5

Revisão: Alberto Canen
Capa: Angelo Gustavo
Roberto Rezende é engenheiro de computação e brinca de game designer nos tempos vagos. Acha que Mega Man X4 é o melhor jogo já feito e acha Battletoads o jogo mais superestimado da história. No pouco tempo que sobra, faz reflexões no Juiz Cachorro. Está no Facebook, mas fala muito mesmo no Twitter.

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