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Análise: Lost Dimension (PS3/PS Vita) ousa com um jogo de traição e eliminação

Com influências que vão de Valkyria Chronicles a reality shows, o título aposta numa interessante mistura de RPG tático e visual novel.

Lost Dimension é um misto de RPG tático baseado em turnos com visual novel que foi desenvolvido pela Lancarse, a mesma que se encarregou de Shin Megami Tensei: Strange Journey (DS) e do primeiro jogo da série Etrian Odyssey (DS). O título recebeu localização no continente americano pela Atlus e está chegando ao PlayStation 3 e ao PlayStation Vita (com total compatibilidade com o PS TV) neste dia 28 de julho.

13 dias para o fim

O jogo conta a história de um grupo de guerreiros que possuem dons psíquicos especiais, nomeado S.E.A.L.E.D. Convocados pelas Nações Unidas, eles têm de enfrentar um misterioso inimigo conhecido como The End (que significa, literalmente, "O Fim"). Esse vilão é o responsável por diversos ataques terroristas em diversos centros urbanos importantes ao redor do planeta Terra.

O jogador inicia o game no controle do protagonista Sho, um dos membros do S.E.A.L.E.D. Ele se encontra em um local que remete à cidade de Nova Iorque, só que a aparência lugar é estranha, pois tudo parece um pouco desfigurado. No mesmo ambiente, estão outros com uniformes semelhantes ao seu e seres com aparência robotizada que não parecem estar para brincadeira. Sua memória não o permite se lembrar como chegou lá, mas ele recorda de que foi enviado em uma missão para combater The End e reconhece os demais uniformizados como seus colegas. A partir daí, Sho é introduzido ao funcionamento das batalhas do jogo e deve derrotar os seres do mal com a ajuda de seus parceiros.


Após vencer o combate, Sho e seu time encontram uma sala. Lá dentro, eles se deparam com os demais membros da equipe especial. Todos sabem que estão em uma missão com a finalidade de derrotar The End, mas é comum a todos o desconhecimento de como foram parar naquele localidade peculiar, uma torre misteriosa infestada de inimigos. É neste momento que surge o antagonista e revela para todos a situação que arquitetou: bombas nucleares estão apontadas para diversos locais do mundo e serão detonadas em 13 dias. Para deter essa ameaça eles devem subir até o topo do Pillar (a torre em que se encontram) e enfrentar o vilão em uma batalha mortal. Mas não é só, ele avisa que dentro do grupo há um traidor e este deve ser apagado para que possam progredir na subida.

Utilize seus dons e mantenha sua sanidade

O gameplay se divide em duas partes essenciais: as missões de cada andar, nas quais ocorrem os combates, e a parte mais visual novel, que ocorre dentro da câmara em que os personagens aguardam entre uma missão e outra.

Nos combates, os personagens são representados por gráficos 3D e se movem um a um pelos cenários. Essa parte foi bastante comparada pela imprensa com as batalhas de X-COM (Multi) e, principalmente, Valkyria Chronicles (Multi). Há, sim, uma semelhança com o RPG táctico da Sega nesta parte, pois os dois jogos permitem uma movimentação em terceira pessoa até uma certa distância sem a utilização de um grid. A diferença é que no título da Atlus não é necessário mirar e depois disparar a arma, o jogador apenas posiciona o personagem e escolhe a ação, que será realizada automaticamente por ele.

O sistema de Lost Dimension tem personalidade própria e funcionalidades bastante interessantes. Durante o seu turno, o membro da equipe pode atacar com a arma que está portando, fazer uso de uma habilidade relacionada ao dom especial que possui, utilizar algum item, transferir a sua oportunidade de agir para algum aliado ao alcance ou, simplesmente, esperar. Após todos os personagens realizarem os comandos determinados, é a vez das unidades inimigas agirem.

Uma excelente adição ao gameplay são os pontos de sanidade. O personagem possui uma barra cheia deles quando inicia uma missão, mas, à medida que realiza ação baseada em Gifts (os dons especiais), recebe dano de algum ataque ou transfere a sua vez para algum aliado (Defer), esses pontos vão se reduzindo. Se chegar a zero sanidade, o guerreio fica descontrolado (berserk) e pode atacar tanto os inimigos quanto os seus parceiros com força aumentada. Em contrapartida, suas defesas ficam reduzidas.

O posicionamento é a principal coisa a ser observada durante os confrontos. Atacar um inimigo que está também ao alcance de um aliado possibilita a ocorrência de um ataque de assistência (Assist Attack), fazendo com que se cause mais danos à unidade adversária. Mas deve-se tomar todo o cuidado ao se avançar, pois o inimigo também pode se beneficiar dessa funcionalidade.

A equipe levada para as missões tem sempre o limite de seis membros, enquanto as forças adversárias podem variar tanto em número de unidades quanto em poder de cada uma delas. No entanto, as batalhas são equilibradas e podem se tornar fáceis com o tempo, conforme o jogador passa a ter domínio sobre como fazer bom uso das assistências, dos defers e das habilidade únicas de cada personagem.

O ponto negativo com relação a essa parte das missões está nas câmeras, principalmente durante o turno adversário. Muitas vezes, o que aparece na telas durante a movimentação de uma unidade inimiga é a imagem de alguma parede ou do chão, o que impossibilita ao jogador de planejar adequadamente o posicionamento dos membros da equipe. O radar no canto superior da tela ajuda a ter uma ideia. O que melhor auxilia com o problema é a possibilidade de se checar o mapa completo do cenário antes de realizar uma ação com o personagem da vez ao se apertar o botão triângulo. Só que, apesar de haver vários tutoriais, essa funcionalidade não é mencionada em momento algum e o jogador tem que adivinhar que ela existe.

Algumas vezes, isso é tudo o que se vê durante o turno adversário.

“Enquanto isso, na sala da justiça...”

Entre uma missão e outra, os personagens aguardam em uma câmara. Esta sala é a base a partir da qual vai se dando prosseguimento ao jogo já que nela é possível: acessar o gerador de armas, equipamentos e itens; verificar os status de cada personagem e melhorar suas habilidades com os pontos de incrementos obtidos nas missões; conversar com os S.E.A.L.E.D; verificar a sua proximidade com cada membro do grupo, os seus pontos de desempenho nas missões e ter uma ideia de quem pode ser o traidor da equipe. O recinto passa uma sensação de lugar reservado; a trilha sonora do local, apesar de moderna, chega a passar a impressão de um local para reflexão. The End faz suas aparições na sala, mas nunca em seu corpo físico. Nada é uma ameaça enquanto estiverem ali dentro, a não ser a presença do traidor.

Durante os diálogos, os personagens são representados por desenhos no estilo anime (ou mangá). Isso traz uma expressividade especial para eles. Apesar de alguns fãs do gênero do game preferirem o áudio original em japonês, deve-se ressaltar o belo trabalho de atuação vocal feito na localização americana. As vozes se encaixam perfeitamente com a personalidade de cada um dos heróis e também do vilão.

Puxando mais para o lado visual novel do jogo, é possível estreitar os laços com os membros do time através das conversas — como nos Social Links de Persona — e através de ações de suporte durante os combates — de forma semelhante com o que ocorre em Fire Emblem. Com isso, vamos progredindo numa escala que mede a proximidade de Sho com os demais. Maximizar os laços com algum dos companheiros desbloqueia missões especiais que levam à revelação do drama pessoal de cada um. É interessante ver como isso está intimamente relacionado aos seus dons especiais, uma referência a clássicos dos quadrinhos como X-Men, por exemplo.

Ao fim de cada missão, Sho ouve pensamentos dos membros da equipe que o acompanharam nela, só que não é possível saber quem disse o quê, apenas quantos suspeitos manifestaram ideias de desagrado. Em cada andar, três personagens serão suspeitos de tramarem contra o grupo. Para descobrir quem são, diferentes combinações de times devem ser levadas para os combates e, por associações lógicas, chegar à conclusão.

Saber quem são os suspeitos ainda não é o suficiente, precisamos encontrar aquele que é o farsante. O protagonista, dentre a sua gama de habilidades, possui uma chamada Deep Vision, que permite ler a mente dos seus companheiros e descobrir se alguém de que se suspeita é de fato o traidor. Embora esse poder seja limitado e deva ser usado de forma comedida, normalmente temos o suficiente para testar os três de que temos desconfiança. Outro elogio deve ser feito ao trabalho sonoro do jogo nesta parte: durante o minigame da Deep Vision, caso o jogador use fones de ouvido, é possível perceber perfeitamente de onde vem o som da voz (chega a lembrar o famoso vídeo "Virtual Barber Shop"), e isso contribui bastante para a imersão.

Hoje é dia de paredão

Concluindo-se as missões principais de cada andar, é liberado o acesso à sala de julgamento, onde todos devem votar e eliminar aquele que acreditam ser o traidor, algo que nos remete a Danganronpa (PS Vita). É um momento que acaba sendo de certa forma traumático, seja porque nos afeiçoamos a um personagem que devemos excluir ou porque esse personagem possui habilidades muito úteis, como cura, por exemplo. Mas se você é da zoeira, logo irá se acostumar, e quando entrar na sala de julgamento, já vai ouvir a voz de Paulo Ricardo cantando "Vida Real", tema do BBB. Ou então o tema de No Limite, se for mais velho.

Quando um personagem é apagado pela máquina, ele deixa cair uma espécie de pedra que contém as suas habilidades. Isso minimiza o problema de perder um guerreiro muito útil, pois o outro poderá usar seus gifts de forma complementar os que já possui.

Os personagens votam com base em vários fatores, como proximidade de laços, o desempenho de cada um durante os combates e também balanceando de acordo com as opiniões que solicitam a Sho após as missões. Apesar de parecer uma soma complexa em teoria, na prática acaba sendo bem simples fazer com que aquele que você deseja apagar seja o mais votado: é só deixá-lo de fora do time que vai para as batalhas, assim o seu índice de desempenho ficará abaixo dos demais.

É uma aventura um pouco curta

Pode-se terminar o jogo com aproximadamente 20 horas de jogatina, ou talvez menos tempo. Porém, ele possui um alto fator replay por causa da aleatoriedade do traidor para cada andar do Pillar, pois apenas na primeira vez aquele que trai a equipe no primeiro piso é fixo. Cada playthrough revela diálogos únicos que não foram possíveis por causa de uma eliminação diferente da outra vez que se jogou.

O New Game + acaba sendo uma exigência para quem quer aproveitar o título por completo. Nele é possível acessar áreas que estavam bloqueadas na primeira vez, são liberadas missões extras e novos detalhes da trama são revelados. Na primeira vez em que se joga a história, não é possível elevar os laços com todos os seus colegas ao máximo, mas é necessário jogar novamente no mesmo save file para se inteirar de todos os detalhes do background de todos membros do S.E.A.L.E.D. O final verdadeiro só é possível de ser alcançado a partir do segundo playthrough. Então, podemos considerar pelo menos umas 30 horas para se ver tudo do jogo e alcançar a platina.

Lost Dimension não faz feio

Lost Dimension foi desenvolvido para o PlayStation 3 e para o PlayStation Vita e não há diferenças muito relevantes entre as versões. Ele não tira vantagens das qualidades específicas de cada uma das plataformas como a tela e o painel traseiro de toque do portátil e maior poder do hardware do console de mesa. Por outro lado, ele também não faz feio em nenhuma das duas, já que possui qualidades técnicas decentes e permitiu uma compatibilidade perfeita com o PS TV, democratizando o acesso ao título.

Em suma, Lost Dimension é um jogo interessante e divertido. Possui pequenas falhas na parte do combate tático, mas que não chega a comprometer a experiência. Talvez, uma falha maior seja não explorar um pouco mais a sua proposta e enredo, o que torna o jogo curto. Elementos como o prazo de 13 dias para o fim da Terra não interferem em nada no desenvolvimento da história e do gameplay. Isso é compensado, em parte, pelo bom fator replay do jogo.

Prós

  • Elementos táticos de combate bem encaixados, como assist atacks e medidor de sanidade;
  • Variedade de personagens, cada um tem estilo único e bem caracterizado;
  • Trabalho de sonorização e atuação vocal bem realizado;
  • Divertido jogo lógico para se descobrir os suspeitos;
  • Bom fator replay.

Contras

  • Câmeras com ângulos ruins durante algumas partes das missões;
  • Curta duração do jogo;
  • O enredo poderia ser um pouco mais desenvolvido;
  • Não utiliza recursos específicos de cada console.
Lost Dimension — PS3/PS Vita — Nota: 8.0
Revisão: Jaime Ninice
Capa: Angelo Gustavo
Luiz Filipe Cremonezi do Valle é formado em Direito pela UFJF. Adora videogames desde que se entende por gente. Gosta de jogos antigos, mas está sempre ligado nos novos games e tecnologias. Pode ser encontrado no Facebook e no Twitter.

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