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Análise: Digimon Story: Cyber Sleuth (PS4/PS Vita) é a redenção da franquia no mundo dos jogos

O título de PlayStation Vita chegou ao Ocidente quase um ano depois de seu lançamento oriental e ele dá novos ares à franquia, trazendo uma trama bem desenvolvida e batalhas empolgantes com nossos monstrinhos digitais favoritos.


A franquia Digimon fez considerável sucesso na década de 1990 e, apesar de ter uma base sólida de fãs até hoje, foi perdendo espaço no mercado ocidental com o passar do tempo. Com os jogos não foi diferente: muitos games da franquia sequer foram lançados deste lado do globo e a Bandai Namco tinha planos de seguir o mesmo caminho com Cyber Sleuth.

Este é o quinto título da série Digimon Story, que teve os primeiros jogos lançados para o Nintendo DS. O game foi lançado no Japão em março do ano passado para PlayStation Vita, mas sem nenhuma expectativa de chegar ao Ocidente. Porém, tudo mudou quando os fãs resolveram criar uma petição online pedindo para que a distribuidora localizasse o game e o trouxesse para estas bandas. Lembro-me de até ter contribuído com a campanha, mas sem muitas expectativas de que aquilo resultaria em algo maior. Felizmente, eu estava enganada: depois de 65 mil assinaturas coletadas e um grande trabalho por parte da Bandai Namco, Cyber Sleuth chegou às Américas com o objetivo de atrair principalmente os antigos fãs da franquia. Será que todo esse empenho valeu a pena?

Um anime jogável

Você assume o papel de Ami Aiba ou Takumi Aiba (dependendo do sexo do seu personagem), um(a) jovem que se aventura pelo mundo digital chamado EDEN, um lugar onde as pessoas podem interagir umas com as outras usando avatares. Tudo parecia estar tranquilo, até um hacker aparecer repentinamente e entregar à(ao) protagonista um aparelho chamado Digimon Capture que pode (adivinhe só) capturar criaturas digitais chamadas de Digimon. Sem maiores explicações, logo somos levados à descoberta dos Eaters, entidades formadas a partir de dados e os principais responsáveis pela disseminação de uma síndrome que deixa as pessoas em coma, fazendo com que seus corpos sejam semidigitalizados passando a viajar entre o mundo virtual e o real.
E não é que são fofos mesmo?
Por ter como público alvo os jogadores que curtiam a franquia 15 anos atrás (e que hoje são adultos), é de se esperar que o game traga uma história mais densa e complexa. Felizmente, é exatamente isso o que você vai encontrar aqui. A existência dos Digimon, as causas da síndrome de EDEN, as investigações sobre a empresa Kamishiro e o seu próprio passado e a origem dos Eaters são somente alguns dos mistérios que o jogador terá que investigar.

Inicialmente, a trama pode até parecer um pouco confusa, com muitas informações chegando a todo momento e que não parecem estar relacionadas, mas no decorrer do game a narrativa vai se amarrando de uma forma bem natural e instigante sem deixar nenhuma ponta solta. Cada capítulo do jogo se parece realmente com um digno episódio de anime, cheio de ação, reviravoltas e até uma boa dose de comédia (o café feito pela personagem Kyoko, por exemplo, é um assunto constante durante quase todo o jogo). 
Os Eaters não parecem muito ameaçadores, mas causam um belo estrago.
Os diálogos costumam ser bastante interessantes, misturando acontecimentos do game com o folclore japonês e também com casos reais, como o incidente ocorrido em Londres em que um carro foi derretido pela reflexão da luz solar. De forma despretensiosa, o jogo também aborda assuntos bastante presentes no nosso cotidiano, como a atuação dos hackers e o quanto nosso mundo digital está evoluindo. Você não aprenderá grandes lições de vida ou ensinamentos, mas provavelmente acabará refletindo um pouco mais sobre tais assuntos.

Falando ainda dos diálogos, um ponto bastante negativo é que eles não podem ser pulados. Isso é bastante irritante naqueles momentos em que você se depara com a tela de game over e precisa voltar ao ponto em que estava, sendo obrigado a assistir a uma sequência relativamente longa de cutscenes.
Cyber Sleuth também ensina sobre lendas germânicas.
Apesar da trama bem desenvolvida, Cyber Sleuth procura deixa claro que as estrelas do título não são os protagonistas, mas sim os Digimon. Portanto, não espere encontrar aqui personagens complexos e misteriosos: todos eles possuem uma certa simplicidade e alguns clichês, como a garota otimista e a moça tímida e antissocial. O trabalho de Suzuhito Yasuda, designer de personagens que também trabalhou em Digimon World Re:Digitize (PSP) e Shin Megami Tensei: Devil Survivor (DS), contribui ainda mais para essa sensação. Porém, isso está longe de ser ruim e combina muito bem tanto com a narrativa em si quanto com a proposta do game de destacar mais os monstrinhos digitais.

A dublagem japonesa é outro show à parte e garante ainda mais imersão. Infelizmente, quem espera pela dublagem americana ou pelas legendas em português pode acabar se decepcionando, já que as vozes japonesas e legendas em inglês são as únicas opções disponíveis no game.

Digimon para todos os gostos

Mesmo com essas novidades, a desenvolvedora Media. Vision não se esqueceu dos fãs que experimentaram os games mais antigos e conseguiu manter (e até aprimorar) certas mecânicas que são bastante semelhantes a de jogos como Digimon World 3 (PS). Você continuará explorando regiões, mas é no sistema de captura e nas batalhas entre Digimon que o jogo realmente brilha.
Aqui, os monstrinhos também seguem o(a) protagonista.
Assim como em muitos RPGs tradicionais, as batalhas são em turnos e acontecem de maneira aleatória. No campo de batalha, você pode visualizar seus monstrinhos e uma barra vertical à direita que define a ordem de ataque de cada Digimon e possibilita ao jogador bolar estratégias para cada turno, algo muito parecido com o que encontramos em Final Fantasy X (PS2)

Além disso, os Digimon são definidos em três tipos (Data, Vaccine e Virus) e oito padrões de ataque diferentes (água, fogo, planta, etc.), cada um apresentando vantagens e desvantagens em relação aos demais tipos. Por exemplo, um monstrinho do tipo Vaccine apresenta vantagem sobre o do tipo Virus independentemente do padrão de ataque de ambos. Porém, se o Digimon Vaccine em questão possuir ataques do tipo água, a vantagem sobre um Digimon de Virus com ataques do tipo fogo vai ser ainda maior, o que acaba ampliando o dano causado pelo ataque. Isso sem contar, é claro, com os poderes especiais e em conjunto que você pode realizar com dois ou mais monstrinhos de uma só vez.
Com Geogreymon e Ikkakumon no time, não tem pra ninguém.
Essa mecânica pode ser um pouco difícil de dominar, mas é bastante divertida e aumenta ainda mais as possibilidades de estratégia do game. E isso não se aplica só às lutas, mas sim ao jogo como um todo. Algo que me agradou é que o jogo sempre me incentivava a avaliar quais os tipos de Digimon seriam mais úteis para cada situação e a testar novas combinações. É realmente difícil manter os mesmos Digimon na sua equipe durante muito tempo, isso força uma certa diversidade que é muito bem vinda ao sistema.

Outro ponto bastante interessante são as digievoluções, que agora ocorrem obrigatoriamente fora das batalhas. Cada monstrinho pode evoluir diversas vezes, tanto para um Digimon superior quanto para uma forma anterior (voltando à fase de Bebê). Evoluir para monstros mais fortes exige o cumprimento de alguns requisitos, como “atingir um level X”, “evoluir um número Y de vezes”, “alcançar um valor Z de poder de ataque” e por aí vai. 
Não, não é um ovo do Yoshi.
É verdade que treinar tantos Digimon (são mais de 200) não seria uma tarefa fácil, já que você só pode carregar 11 deles e utilizar apenas três em batalhas, mas existe uma ferramenta muito útil para isso: o Digifarm. Trata-se de uma espécie de “depósito” onde você pode deixar os monstrinhos capturados e atribuir ordens a eles, como treinar ou procurar quests e itens. Dessa forma, alcançar as evoluções mais elevadas se torna uma tarefa menos maçante e mais divertida.

Cyber Sleuth, apesar de pegar emprestado sistemas de outros jogos da franquia e também de outros RPGs, consegue ter personalidade própria. A união de todas essas mecânicas traz bastante imersão e diversão a um sistema já consagrado. Capturar e treinar os Digimon nunca se torna cansativo ou maçante. Das 40 horas que levei para zerar o jogo, eu devo ter dedicado cerca de 20 delas apenas para administrar meus monstrinhos e para bolar estratégias melhores antes das batalhas.
Este é o Digilab, lugar onde você pode evoluir seus Digimon e acessar o Digifarm.
Os fãs do anime terão ainda mais motivos para investir nesse processo, já que todos os Digimon populares estão presentes no game, o que torna gratificante a tarefa de procurar e treinar esses monstrinhos queridos. Isso é ainda mais recompensador e empolgante quando observamos que todos os personagens estão muito bem representados no game, cheios de detalhes e características idênticas aos que já vimos no anime. 
Para a nossa felicidade, eles voltaram!
E aqueles que não dispensam um modo online em jogos ficarão felizes em saber que Cyber Sleuth apresenta o Colosseum, um modo em que você pode batalhar com jogadores do mundo todo (inclusive do Japão). Se a maioria das batalhas do game não apresenta grandes dificuldades, os duelos contra outros jogadores, em compensação, são bastante desafiadores. Arrisquei algumas partidas nesse modo e apanhei bastante, mesmo possuindo alguns Digimon no último estágio de evolução.

Jogo digital, problemas reais

Se o jogo se destaca no seu desenvolvimento e na atuação dos Digimon, por outro lado ele peca em alguns pontos, principalmente na exploração. O game apresenta uma certa variedade de dungeons, mas a maioria delas é bastante linear e apresenta cenários pouco inspiradores, muito semelhantes uns aos outros. Alguns destes cenários até tentam incentivar a exploração utilizando puzzles, mas estes acabam sendo muito simples resumindo-se em “pegar um item no ponto A e levá-lo ao distante ponto B”. Por isso, a não ser que você pretenda caçar alguns monstrinhos específicos de cada área, você provavelmente não gastará muito tempo em cada dungeon.
Azul é legal, mas não precisavam exagerar.
O mesmo vale para a exploração da cidade de Tóquio e de suas regiões. No game, você tem à sua disposição uma lista de lugares pré-definidos e você pode escolher visitar qualquer um deles em um mapa limitado, algo semelhante com o sistema de Persona 4: Golden. A metrópole está muito bem representada no game e, ao contrário das dungeons, apresenta cenários belíssimos e bem construídos, inspirados em locais reais como a Nakano Broadway e o famoso distrito de Akihabara. Porém, o jogo constantemente sofre com o problema das paredes invisíveis e chega a ser frustrante existirem cenários tão bonitos, daqueles que pedem para serem explorados em cada canto, mas que nos impedem até de atravessar uma rua ou de entrar em uma porta que parece estar aberta.
Você já se deparou com uma parede invisível no meio da rua? 
Outro ponto que pode incomodar um pouco é a câmera fixa. Você controla o personagem com o analógico esquerdo, enquanto que o direito serve apenas para dar zoom in ou zoom out. Por estar acostumada a mexer a câmera em outros jogos, confesso que estranhei isso no começo e diversas vezes me peguei girando o analógico inconscientemente na expectativa de que a câmera virasse também. Entendo que seja uma questão de costume, mas isso acaba ficando um pouco estranho para um jogo de PlayStation 4 que exige uma tela maior.

A trilha sonora do game também deixa um pouco a desejar. Apesar de ter sido criada por Takada Masafumi, que também trabalhou em toda a franquia Danganronpa, as músicas aqui não têm o mesmo brilho da série de visual novel, tornando-se bastante repetitivas com o passar do tempo (principalmente os temas das dungeons, lugares em você passará grande parte do game).

A redenção da franquia

Digimon Story: Cyber Sleuth conseguiu cumprir seu objetivo de renovar a franquia nos corações daqueles que a acompanhavam anos atrás e, de quebra, conseguiu também revitalizar toda uma série de jogos que sofria com a falta de títulos realmente marcantes. A longa campanha e o conteúdo do jogo acabam compensando alguns problemas de limitação, por isso, apesar de não poder ser considerado como o RPG definitivo, o jogo diverte e empolga tanto os fãs de Digimon quanto os fãs de um bom RPG.  

Prós

  • Trama densa e interessante;
  • Capturar e batalhar com monstrinhos digitais nunca foi tão divertido;
  • Belos gráficos.

Contras

  • Paredes invisíveis e câmera fixa atrapalham a experiência;
  • Cenários lineares e repetitivos;
  • Trilha sonora pouco variada.
Digimon Story: Cyber Sleuth — PS4/PS Vita — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Érika Honda
Capa: Diego Migueis 
July Dourado é aspirante a jornalista e redatora no PlayStation Blast. Sua paixão por games começou com o Nintendo 64 e só tem crescido desde então. Além dos games, também é viciada em séries de TV e gatos.

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