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Análise: The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel (PS Vita/PS3) é uma aula de como se fazer um bom JRPG

O título Nihon Falcom brilha em quase todos os aspectos e apesar de não inovar muito, traz uma aventura rica e envolvente.

The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel foi desenvolvido pela companhia japonesa Nihon Falcom, que no Ocidente é mais conhecida pela série Y’s. No entanto The Legend of Heroes é uma longa série de RPGs inciada por Dragon Slayer: The Legend of Heroes, jogo que possui grande importância na história dos videogames, pois é conhecido como o fundador da indústria dos RPGs japoneses e o primeiro Action RPG a ser produzido, tendo sido uma influência fundamental para o surgimento de The Legend of Zelda. Todavia, a maior parte dos games da franquia não chegou ao Ocidente.


Com início da sub-série “Trails” e o lançamento do elogiado The Legend of Heroes: Trails in the Sky para PC e PSP no continente americano, a Falcom pôde enfim fazer jus ao legado original de sua obra. Sendo oitavo jogo da franquia, Trails of Cold Steel (o primeiro de uma trilogia) surge para dar um passo adiante e solidificar o nome da série neste lado do mundo.

Uma turma especial

O jogo começa com início do ano letivo da Thors Military Academy, uma das mais prestigiadas instituições de formação de guerreiros do Império de Erebonia. Lá, jovens são treinados e educados em diversas artes e ciências, num processo que dura dois anos. Normalmente, os estudantes de cada ano são divididos em cinco turmas, duas compostas pelos advindos da nobreza (uniforme branco) e as outras três para as pessoas comuns (uniforme verde). Porém, desta vez, alguns alunos receberam uniforme vermelho e foram designados para uma nova turma sem diferenciação de classes sociais chamada Class VII.


Rean Schwarzer, o protagonista do jogo, está entre os membros dessa turma especial. No início ele seus colegas, que são bastante diferentes entre si, ficam curiosos para saber por que foram reunidos nesta turma. Mas pouco tempo depois a sua instrutora lhes explica a ideia base por trás da Class VII, eles são indivíduos que mostraram possuir aptidão para a utilização de uma nova tecnologia muito útil em combates chamado ARCUS que possibilita uma atuação em conjunto muito mais efetiva. Para isso, eles receberão um treinamento especial visando que desenvolvam não só suas habilidades como combatentes, mas também o espírito de equipe e outras qualidades.

Vida de estudante

Em muitos aspectos o título segue as convenções de JRPGs clássicos. Em outros, porém, ele se inspira em RPGs modernos, como os mais recentes da série Persona. Boa parte da rotina do protagonista está relacionada com sua vida na Academia Thors, há o passar dos dias, clubes escolares (esportes, artes, etc.) e, principalmente, há a possibilidade de se desenvolver elos de proximidade com outros personagens, os chamados bonding links. Há também minigames como o jogo de cartas durante as viagens de trem e a pesca.


Rean segue um ciclo de atividades que se repete até o fim do jogo. Há um dia em que ele assiste uma aula e normalmente deve responder a uma pergunta feita pelo professor relacionada com o que foi visto; o outro será um dia livre em que ele conversa com os personagens, amplia seus bonding links e cumpre missões para o conselho estudantil (uma delas será obrigatoriamente explorar a velha mansão). Há também o dia das avaliações práticas em que os alunos devem mostrar certas habilidades de combate de acordo com o que a instrutora exigir. Fora de Trista, cidade onde fica a Thors, há ainda os dias de atividades de campo em que grupos de alunos viajam para outras localidades de Erebonia para fazer algumas missões.

Uma trama madura

A divisão das turmas de alunos de acordo com a classe social não é apenas uma questão interna da academia, mas um reflexo do que ocorre em toda sociedade Ereboniana. Trails of Cold Steel não trata da questão da segregação classes de uma forma rasa, é possível ver os desdobramentos políticos disso de situações cotidianas como aumento abusivo de tributos que prejudica os pequenos comerciantes até o conflito entre grupos reformistas e nobres conservadores.


Embora o ritmo pareça por vezes um pouco lento, a narrativa é rica e cada diálogo traz o jogador mais para dentro daquele universo. Apesar do núcleo central de personagens ser composto por jovens e eles serem vários, todos são bem desenvolvidos e humanizados. Cada um deles, seus dramas e aspirações são bastante relevantes para para a história do jogo. Mas não somente os membros da Class VII, quase todos os personagens parecem únicos e tem seu carisma individual. O enredo de Trails of Cold Steel é composto pela história de todos eles.

Muita coisa para ler

A série já é conhecida pela grande quantidade de diálogos em seus títulos. Os tradutores sempre acabam tendo bastante trabalho (Andrew Dice que o diga), pois além dos grandes scripts, os termos utilizados não são dos mais simples e exigem um controle mais rígido de padrões de tradução. Em Trails of Cold Steel a situação não é diferente, os personagens tem bastante assunto e todos tem suas particularidades de vocabulário de acordo com suas origens e personalidades. De toda forma, por causa da boa construção e carisma deles, não serão muitas as ocasiões em que se desejará evitar um papo com algum colega ou conhecido de Rean.


Outro elemento bastante interessante é a possibilidade de se adquirir e ler: o periódico Imperial Chronicle, com um resumo dos acontecimentos de Erebonia no momento; e romances inteiros, capítulo por capítulo, como Carnelia e Red Moon Rose. Além disso, na biblioteca de Thors, é também possível coletar todo mês uma leitura sobre algum tema relevante como, por exemplo, o folclore local e ler nos livros das estantes fatos importantes não só sobre o Império Ereboniano, como também das nações vizinhas: o Reino Liberl, o Estado de Crossbell e a República de Calvard.

É preciso uma boa tática para vencer

O sistema de combate é um dos pontos altos jogo. A maior parte de seus elementos foi herdada de Trails in the Sky. Cada personagem, em seu respectivo turno, pode: fazer um ataque básico com sua arma, utilizar uma técnica própria de ataque ou de suporte (Craft); fazer uso de alguma magia baseada em orbs equipados (Arts); se mover pelo campo de batalha; fugir; ou ainda realizar um ataque especial, semelhante aos Limit Breaks de Final Fantasy, quando o marcador de Craft Points estiver cheio.


Um ganho muito grande foi a inclusão dos Combat Links, graças à tecnologia ARCUS. Quando um personagem estabelece um elo com algum de seus companheiros, ao realizar um ataque crítico ou que deixa o inimigo vulnerável, o parceiro realiza um ataque complementar que ajuda a causar ainda mais dano. Somado ao fato de que os inimigos são visíveis durante a exploração, sendo possível, além de encará-los de frente, correr e evitar o conflito ou iniciar o embate atacando-os por trás dando vantagem ao enfrentá-los (o contrário também pode ocorrer com o time sendo encurralado pelos monstros), isso aumenta o fator estratégico da batalha.


Graças ao bom planejamento de XP scaling, praticamente não é necessário fazer grinding. Os personagens de sua equipe nunca estarão em um nível muito diverso dos inimigos, o enfrentamento é sempre bem balanceado. Uma boa lição de game design foi aplicada ao combate de Trails of Cold Steel, o sucesso depende de um estudo de quais são as fraquezas do oponente (a qual tipo de ataque ou magia ele é mais vulnerável) e de um planejamento tático das parcerias, das técnicas de suporte e de como escapar ou se defender das investidas inimigas. Em suma, a vitória ocorre porque o jogador raciocina e aprende como combater e não porque passou horas subindo o level de sua party.

Um belo trabalho

O mundo de Cold Steel é amplo e há sempre muito a se conhecer. As cidades são diferentes entre si e cada uma delas tem características e estilo únicos. O mesmo se pode dizer das dungeons e locais de exploração e combate. Graficamente, o jogo não traz o mais alto nível de detalhes e alguns elementos dos cenários possuem poucos polígonos. Todavia, esse é um contra de menor relevância, pois o estilo artístico é encantador e é quase impossível não gostar do visual geral do game.


A parte sonora é um dos grandes destaques do jogo. Devido à excelente localização feita pela XSEED, grande parte das falas do personagens foi dublada na língua inglesa e o trabalho de atuação vocal foi realizado brilhantemente. Esse é um fator que contribuiu muito para a caracterização do personagens e de todo carisma que eles têm. A trilha sonora também dá seu próprio show, sendo que músicas passam perfeitamente o clima de cada situação.



Considerando o título no seu conjunto, temos uma grande obra, elaborada com capricho e devida atenção aos elementos que importam. É, facilmente, um dos melhores jogos disponíveis para o PlayStation Vita e também não faz feio diante do catálogo de JRPGs do PS3. Com The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel, a série se confirma como uma das mais interessantes da atualidade no ramo dos Role Playing Games. Só nos resta aguardar que as suas continuações também cheguem por estas bandas. "Trails of Cold Steel 2" já foi lançado no Japão e o terceiro está em desenvolvimento.

Prós

  • Belo estilo artístico e visual geral;
  • Ótimo trabalho de atuação vocal;
  • Personagens carismáticos e únicos;
  • Enredo bem trabalhado e maduro;
  • Sistema de combates bem elaborado;
  • Mundo rico e variado;
  • Recurso cross-save entre as versões de PS Vita e de PS3.

Contras

  • Ausência de detalhamento gráfico em algumas partes;
  • Em alguns momentos a câmera não acompanha devidamente o personagem atrapalhando um pouco a sua movimentação, como ao descer escadas, por exemplo.

The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel — PS Vita/PS3 — Nota: 9,0     Versão utilizada para a análise: PS Vita

Revisão: Gabriel Verbena
Capa: João Gilberto Melo
Luiz Filipe Cremonezi do Valle é formado em Direito pela UFJF. Adora videogames desde que se entende por gente. Gosta de jogos antigos, mas está sempre ligado nos novos games e tecnologias. Pode ser encontrado no Facebook e no Twitter.

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