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Análise: Shadow of the Colossus (PS4): um gigante nunca perde a majestade

O remake é um trabalho primoroso de como melhorar sem estragar uma obra já considerada clássica.


Sempre que falamos sobre algum jogo que ganhará um remake, geralmente surgem dois sentimentos conflitantes. Por um lado, existe a esperança de o jogo se tornar uma experiência ainda melhor, usando de tecnologias mais modernas que, na época do lançamento original, ainda não existiam e, talvez, tenham limitado sua produção. Por outro, há aquela desconfiança de que a nova obra não respeite o legado do game original, tornando-se um mero caça-níquel. E quando falamos de um clássico como Shadow of the Colossus essas duas correntes de pensamento são ainda mais fortes.


Criado pelo designer japonês Fumito Ueda para PlayStation 2, Shadow of the Colossus foi uma obra singular em sua época, sendo algo diferente de tudo que foi visto até então. As lutas contra os colossi (plural de colossus) impressionaram tanto pela magia de nós, pequenos humanos enfrentando criaturas enormes, quanto por levar o segundo console da Sony aos limites do processamento.

Treze anos depois, esse épico da história dos videogames ganhou um remake feito pela Bluepoint, especialista em adaptações e remasters, e que já havia trabalhado no próprio remaster do jogo para PS3. Agora, no entanto, é diferente: tudo foi refeito do zero. Como refazer uma obra sem que ela perdesse sua essência?

 

Opened Path 

Para os que não sabem do que o game se trata, em Shadow of the Colossus comandamos Wander, um jovem que se dirigiu até um templo proibido em busca de uma entidade chamada Dormin. O herói vai até esse lugar pois seria a única chance de ressuscitar Mono, uma garota que, segundo ele, foi sacrificada injustamente, nas palavras do próprio herói. Dormin se dispõe a ajudar o protagonista, contanto que ele derrote os 16 colossi que habitam aquela terra.

Tudo é exatamente igual a antes, o que é algo positivo. A simplicidade e as mensagens colocadas nas entrelinhas do jogo são uma de suas forças e nada disso foi alterado. Embora o jogo tenha alguns segredos novos (que comentarei mais adiante), não espere por nada que explicitamente adicione mais à história de Shadow of the Colossus.


A primeira grande mudança dessa versão é na parte gráfica, totalmente refeita aproveitando o poder do PlayStation 4. E devemos dizer aqui que o trabalho feito pela Bluepoint foi excepcional. Toda a construção do mundo e seus diversos biomas é de encher os olhos de alegria, especialmente para quem jogou a versão original no PS2. Considerando que essa análise foi escrita jogando o game no PS4 normal, imagino que no PS4 Pro o resultado seja ainda mais belo.

Essa mesma qualidade se aplica aos colossi. Os modelos são extremamente bem detalhados, com destaque para as texturas de pelos e cabelos. A cada novo adversário encontrado eu não podia deixar de ficar impressionado com a estética das criaturas. Batalhas que se passam na água e na areia que envolvem muitas partículas são incríveis da mesma forma, com tudo fluindo de uma excelente maneira.

Toda essa beleza visual pode ser ainda melhor aproveitada pelo novo Modo Fotografia. Com muitas opções de filtros e ajustes diversos, não é difícil se pegar vagando apenas no intuito de tiranr fotos daquele mundo. Uma excelente adição ao jogo, que sempre teve entre suas qualidades uma ótima direção de arte.


Resurrected Power

Um dos pontos controversos de Shadow of the Colossus sempre foi seu esquema de controle, já bastante datados para os padrões atuais. Particularmente, de maneira geral nunca vi problemas para controlar o herói, era uma questão de se habituar, mas é fato que havia espaço para melhorar nesse aspecto. Nesse remake, por sua vez, existem quatro opções de controle. Além do mapeamento clássico, há um Moderno e dois modos intermediários, cabendo ao jogador encontrar o que mais lhe agrada.


Há também outras mudanças que merecem menção. O jogo conta agora com salvamento automático, mesmo que também seja possível salvar manualmente a qualquer momento. Além disso, os altares espalhados pelo mapa servem agora apenas para recuperar HP e como checkpoints. O nível de dificuldade “difícil”, por sua vez, já é aberto desde o começo e todos os itens especiais ganhos no modo Time Attackjá são descritos no menu do mapa, com seus requisitos explicados claramente. Por fim, uma galeria com várias imagens conceituais e comparações de versões foi também adicionada.

Algo que não mudou nada em relação ao original foi a câmera do jogo, que continua com os mesmos problemas. É fácil perder o foco em algumas lutas e até mesmo errar alguns pulos. Os momentos mais sofríveis foram as batalhas nas quais é necessário lutar junto com Agro, a égua fiel escudeira de Wander.

Outra coisa que não mudou, mas agora como um ponto positivo, foi a trilha sonora. As músicas continuam as mesmas, mas regravadas com mais qualidade e parecem ainda mais poderosas do que já eram. Recomendação pessoal: jogue com o volume bem alto porque vale muito a pena. A junção da ação na tela com a trilha sonora propicia momentos de beleza únicos.


Mesmo sendo extremamente fiel ao jogo original, esse remake de Shadow of the Colossus parece contar com algumas sutis adições que podem ou não trazer novos fatos sobre o universo do game. Dentro de cavernas e algumas arenas é possível encontrar moedas douradas que levam a um segredo exclusivo dessa versão: uma espada especial. Nota-se que tal segredo talvez não seja só único, pois alguns jogadores encontraram cabras (!!) desenhadas em pedras que não existiam no PS2. O que será que poderia ainda ser revelado?

Quem jogou o original deve se lembrar de toda a mística que envolvia o jardim secreto, que começou como uma lenda e aos poucos foi se provando real e, mesmo sem possuir nenhum atrativo adicional, só o fato de chegar lá se mostrava muito recompensador. A Bluepoint pegou esse espírito e parece ter adicionado novos segredos que seguem exatamente essa linha de pensamento.


Those Who Remain

Shadow of the Colossus está naquele grupo de títulos que mudou a forma como vemos videogames, seja por sua estética singular, seus inimigos gigantescos ou pela forma como contou sua história. Este remake honra o game original em todos os sentidos, melhorando partes técnicas mas mantendo a essência do jogo que foi lançado na década passada.

Tenha você jogado o original (ou o remaster) ou não, esse remake vale muito a pena. Jogadores novos poderão conhecer uma das obras mais emblemáticas da história dos videogames enquanto veteranos irão se maravilhar com os visuais deslumbrantes enquanto revisitam velhas memórias e desafios.

Prós

  • Gráficos deslumbrantes; 
  • A essência do original foi mantida; 
  • Trilha sonora; 
  • Novos segredos; 
  • Modo Fotografia 

Contras 

  • A câmera pode atrapalhar em alguns momentos; 

Shadow of the Colossus (2018) — PS4 — Nota: 9.5
Revisão:João Pedro Boaventura
Análise produzida com uma cópia física cedida pela Sony
Flávio Augusto Priori é formado em design de jogos e tenta ganhar a vida com esse negócio chamado video game. Para ele Metal Gear é a melhor série já feita e ainda acredita na volta da SEGA. Escrevia para o saudoso Minha Tia Joga LoL e hoje pode ser achado no Facebook e no Twitter.

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