Perfil

Um personagem memorável. Arrepie-se com a trajetória do “vilão” David e entenda melhor suas escolhas.

É inegável, The Last of Us é a grande estrela da vez, roubando todos os holofotes que fazem parte do show que se transformou o mundo dos... (por Rayner Lacerda em 17/08/2013, via PlayStation Blast)


É inegável, The Last of Us é a grande estrela da vez, roubando todos os holofotes que fazem parte do show que se transformou o mundo dos games. E como eu já disse antes, além do roteiro magnífico, os personagens foram os grandes responsáveis por todo esse sucesso. Tanto Ellie quanto Joel já foram abordados aqui, mas eles não são os únicos que roubam a cena. O jogo possui uma safra excelente de personagens interessantes que não se restringem apenas aos protagonistas.


A matéria de hoje é sobre um cara tão instigante que chegou a ofuscar até mesmo o papel de Joel como o centro das atenções, ao menos no aspecto masculino. É importante deixar claro logo no início que as aspas na palavra vilão, que estão ali no título, têm uma importância tremenda nessa história, afinal, o mundo não é só preto e branco, não é mesmo? Tudo é uma questão de perspectiva. Talvez por isso David seja um personagem tão interessante, pois suas escolhas ao longo do jogo foram marcantes e me fizeram refletir muito.

Atenção: O texto contém spoilers.

Encontro inesperado

David entra na história em um momento crítico na vida de Joel e Ellie. Todos os que jogaram o título sabem o quanto o inverno é perigoso (já dizia Ned Stark). Fora o clima arrasador, sabemos que Joel encontrava-se em verdadeiros problemas, estando à beira da morte. Em contrapartida, Ellie chega ao seu ápice enquanto protagonista. Era a primeira vez no jogo que ela podia ser controlada, sendo responsável pela sua segurança e a de seu parceiro.


Ao controlarmos Ellie naquela caçada penosa atrás do alce, descobrimos que mais alguém estava procurando o jantar. Após finalmente ter matado o bicho, a menina não teve nem tempo de apreciar o seu feito, pois deu de cara com dois homens que, ao que tudo indica, também perseguiam-no. Esse, assim como inúmeros outros, foi um daqueles momentos que mexem com todos os seus sentidos, e te fazem entrar num dilema: confiar ou não?

Mostrando sua personalidade forte, vemos que Ellie adotou a postura de atirar primeiro e perguntar depois. É perceptível que ela estava em desvantagem, mas os dois acabam deixando que ela tomasse o controle da situação, tudo por causa da decisão específica de um deles, que acalmou tudo. Nesse ponto, ficamos sabendo que o homem se chama David, e temos contato com os primeiros indícios de sua personalidade calma e analista. O que só realça ainda mais a atmosfera de mistério que cerca o personagem.

Surpresa do destino

É claro que na primeira vez que eu vi o personagem, fiquei com aquela pulga atrás da orelha, afinal, ninguém é o que parece nesse jogo. Mas, após ver que o cara usou o seu revólver escondido para atirar no estalador que estava vindo para cima da Ellie, confesso que me deixei levar e dei um voto de confiança. A situação toda propiciava isso: o perrengue que os dois passaram na cabana é um acontecimento que fortaleceu o vínculo, mesmo que momentâneo, entre os dois personagens.

Eu comecei a me importar de verdade com o cara que estava ajudando a minha personagem favorita. Foi um trabalho em equipe quase tão bom quanto o feito por Ellie e Joel, mas a guria estava certa, eles tiveram sorte também. Ao finalmente passarem por toda aquela loucura, os dois voltam à cabana para checar o veado e esperar o companheiro de David trazer o remédio.

Não precisou nem de 30 minutos para The Last of Us me dar aquele chute no estômago novamente. E isso foi feito de forma primorosa, através de um diálogo marcante:

Não, não. Sorte não existe. Sabe, eu acho que tudo acontece por um motivo. Eu acho, e posso provar. Esse inverno foi especialmente cruel. Há algumas semanas, eu mandei um grupo de homens para a cidade procurar comida. Poucos voltaram. Eles disseram que os outros tinham sido, hã, assassinados por um louco. E veja, que esse cara louco estava acompanhado de uma garotinha. Tá vendo? Tudo acontece por uma razão.

Pronto! Minha cabeça entrou em ebulição nessa hora. E eu realmente me dei conta do quanto a narrativa do jogo é brilhante. Durante todo percurso, acompanhamos Joel e Ellie lutando por suas  vidas, mas promovendo verdadeiros massacres. Lembram que eu disse que o mundo não é preto e branco? Pois é, vocês pensaram mesmo que todo aquele banho de sangue não teria consequência?

Eu pensei. Realmente acreditei que o jogo cairia no clichê onde os atos dos protagonistas não repercutem na vida dos outros. Que bom que eu estava redondamente enganado. Aquele verdadeiro massacre que aconteceu na Universidade foi necessário para que os dois pudessem sobreviver. Porém, do outro lado da história, também haviam personagens que lutavam desesperadamente por uma chance nesse mundo desolado.

Triste desfecho

A parte em que David prende Ellie na cela é uma das mais sombrias da jornada, mas também é importante para compreendermos os sentimentos do personagem. O cenário é assustador, onde a violência e o canibalismo são comuns.


Quando Ellie julga as ações de David, chamando-o de animal, ele responde de forma sagaz: “Você está me julgando muito rápido. Considerando que você e seu amigo mataram, quantos homens? (70). Você acha que tivemos escolha? Você mata para sobreviver, e nós também.”

Essa resposta é importante para percebermos um dos pontos fundamentais da trama: a sobrevivência. David não é um sádico psicopata que tem prazer com a morte humana, ele é um sobrevivente de um mundo arruinado, e lida com isso da forma que julga melhor. Como você agiria ao saber que mais da metade do seu grupo foi morto?

Essa multiplicidade de interpretações é o que faz o jogo ser tão bom. Como seguimos a trajetória de Ellie e Joel, é natural que encaremos David como um vilão que está atrapalhando os planos da dupla. Porém, para David, os dois é que são os “malvados” da história, aqueles que dizimaram o seu grupo.


Porém, mesmo depois de todos esses “inconvenientes”, David não parece ter ódio por Ellie, pelo contrário, ele mostra preocupação com a garota, oferecendo ajuda em diversos momentos, como se estivesse protegendo-a. E isso é o que o faz ser um personagem tão bem construído. Não sabemos quais são suas reais intenções, isso fica a cargo de nossa imaginação.

É só quando vemos Ellie na “mesa de abate” que podemos perceber o desfecho da história. Ao que parece, David não consegue convencer o grupo sobre a importância da garota e estava pronto para transformá-la em comida, quando descobre que ela estava infectada. Creio que essa é a hora em que acontece uma espécie de “surto psicótico” com o personagem.

Ele tem sentimentos de proteção com ela durante todo tempo, mas decide que tudo foi inútil, pois ela estava infectada. Quaisquer esperanças de que Ellie pudesse ser útil no futuro vão por água abaixo (isso porque ele não acredita que ela seja imune ao vírus). Talvez isso justifique o seu inesperado comportamento violento e assassino.

Todos somos "vilões"

Quem jogou, sabe que a morte de David foi brutal. O diálogo entre ele e Ellie nos momentos finais revelam toda a desilusão do personagem que, em um descuido momentâneo, acaba sendo surpreendido e morto. Nesse momento, temos contato com toda a selvageria escondida na garota.

No fim das contas, a morte de David é importante por vários motivos, mas o principal deles é mostrar que não existe o certo ou errado em um mundo pós-apocalíptico. Todos são passíveis de cometer atos que outrora eram considerados hediondos. A lição não poderia ser mais clara: é preciso “jogar o jogo” se você quiser sobreviver.

Revisão: Catarine Aurora
Capa: Daniel Machado
Rayner Lacerda é historiador, formado pela UFV. Eterno estudante e professor do mundo, se interessa por praticamente tudo, mas são os games a sua grande paixão. Tal fascínio o levou ao Blast, onde escreve atualmente. Encontre-o no Facebook

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