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Relato sobre uma sobrevivente. Emocione-se com a história da valente e carismática Ellie.

Sim, mais uma matéria sobre The Last of Us , a mais nova estrelinha da Sony. Nada mais justo esse hype todo, afinal, o jogo é realmente ... (por Rayner Lacerda em 21/07/2013, via PlayStation Blast)


Sim, mais uma matéria sobre The Last of Us, a mais nova estrelinha da Sony. Nada mais justo esse hype todo, afinal, o jogo é realmente uma obra de arte, daquelas que só aparecem de vez em quando e servem como um verdadeiro divisor de águas, abrindo novos ramos para a indústria. Todo esse alvoroço é resultado da narrativa fantástica que o título possui. No entanto, esse estrondoso sucesso só foi possível com a construção de personagens igualmente geniais. Francamente, alguém ainda duvida que são eles os grandes responsáveis por isso? Ellie e Joel alcançaram um patamar que nem o fatídico Nathan Drake conseguiu. Se o mundo dos games fosse uma revista de fofocas, eles seriam aquele par da novela das 8 que todo mundo comenta na rua.

Aviso: Este texto contém spoilers sobre The Last of Us. Leia por sua conta e risco.

Mas essa comparação não é justa, pois eles são muito mais interessantes. Na matéria de hoje, vamos acompanhar a trajetória da carismática Ellie. Sério, é impossível não se render aos encantos dessa jovem sobrevivente. Vou além: é claro que os dois protagonistas possuem sua importância, mas The Last of Us não é sobre Joel. A grande estrela aqui é uma jovem de 14 anos que rouba a cena de todas as formas possíveis. Com uma complexidade enorme, a personagem possui facetas suficientes para todos os amantes de Freud explorarem. Vou me ater apenas aos que julgo serem os mais interessantes.

Muito além de uma "substituta"

Como avisado, não vou ficar me preocupando em soltar spoilers, até porque, se você está lendo isso provavelmente já finalizou o jogo. Confesso que, num primeiro momento, pensei seriamente em Ellie como uma mera substituta de Sarah, a filha de Joel que faleceu tragicamente no prefácio, mas felizmente eu cometi um erro gigantesco: Ellie não é uma mera substituta, ela vai muito mais além.

Talvez, em um primeiro momento, o vínculo emocional entre Joel e Ellie tenha se iniciado em decorrência disso. Após ter perdido a filha a tantos anos, Joel encontra-se novamente cumprindo o papel de responsável pela segurança de outra garota, com a mesma idade de sua primogênita. Ellie, por sua vez, após ter perdido sua família, vê-se perambulando pela vastidão dos EUA ao lado de um homem carrancudo e mal humorado, mas que está disposto a protegê-la.

Ao encontrarmos Ellie pela primeira vez, julgando-a apenas pela aparência, ficamos com a imagem de uma frágil garota que precisa de ajuda desesperadamente. Ledo engano. Apesar de realmente precisar de ajuda, a impressão de fragilidade se esvai logo nos primeiros diálogos, onde fica nítida a sua determinação e coragem. Essa foi apenas uma de inúmeras surpresas que a personagem me proporcionou. De fato, um dos aspectos mais interessantes do jogo, foi acompanhar a trajetória de Ellie, assim como o seu desenvolvimento emocional e psicológico.

Nascida em outros tempos

Um dos aspectos mais interessantes de Ellie é a sua ignorância do mundo anterior. Por ter nascido após a infecção, ela praticamente desconhece os principais aspectos que regiam aquela sociedade. E isso fica ainda mais nítido se levarmos em conta que ela não conhece muito o mundo para além da zona de quarentena. Por isso é perceptível sua obsessão em colecionar relíquias de um passado “feliz”, demonstrando interesses principalmente no ramo musical e nas ficções.

Nascer após a infecção fez com que a personagem tivesse um papel ainda mais importante, o de servir como ponte para o nosso conhecimento do antes e depois do mundo de The Last of Us. Os momentos em que ela conversa com Joel e outros personagens sobre como era o mundo anteriormente, são essenciais para entendermos como funciona aquele universo.


Por ter crescido em um mundo sem lei, onde cada um pensa apenas em sua sobrevivência, Ellie adota comportamentos pouco comuns para uma garota de apenas 14 anos. O principal deles é o uso desmedido do roubo e da violência, habilidades essenciais de sobrevivência nos tempos atuais. Apesar disso, Ellie ainda tem a inocência de uma adolescente que conhece pouco do mundo, e isso fica nítido quando ela se surpreende com alguns comportamentos violentos de Joel, julgando-o excessivos no início, ao menos até ela mesmo se dar conta de como tudo funciona.

Sua outra faceta, a da ignorância e curiosidade, é uma de suas características mais marcantes, que vai fazer você se apaixonar ainda mais por ela. Com um senso de humor peculiar, é simplesmente impossível não se divertir com a sua busca por um conhecimento perdido. Isso sem falar nos momentos em que ela tira sarro de Joel, fazendo-se de inocente. Vai me dizer que você não riu à beça com a cena do “por que essas páginas da revista estão grudadas”?


Talvez essa dualidade, um misto de inocência e selvageria, sejam os motivos responsáveis pela nossa identificação com a personagem. Todos esses sentimentos ficam ainda mais evidentes com a sua personalidade forte. É só prestar atenção no relacionamento da garota com Bill, ou mesmo com David (um excelente personagem, diga-se de passagem) que podemos perceber nitidamente o quando a garota tem postura.

O fato é que mesmo tendo nascido em um mundo devastado, Ellie ainda resiste e busca esperança em um passado longínquo, afinal, o modus vivendi daquela época é uma válvula de escape perfeita para os horrores da atualidade.

Verdadeira protagonista

Não sei se com vocês foi a mesma coisa, mas eu me identifiquei muito mais com a Ellie do que com o Joel. E nesse ponto eu achei o trabalho da Naughty Dog fabuloso, afinal de contas, fazer o jogador se identificar com uma personagem que não é jogável em boa parte da aventura é uma grande conquista. Como eu disse no início, ela é a grande protagonista do jogo. Até porque, convenhamos, ela é muito mais interessante que Joel. Foi simplesmente lindo ver uma personagem roubando a cena em cada momento.

Em primeiro lugar, é incrível a produtora ter dado vida a uma personagem tão complexa, ainda mais sendo tão jovem. Ellie carrega uma bagagem emocional digna dos dramalhões da TV mexicana, mas aqui é no bom sentido. Logo após descobrirmos que ela é imune ao vírus que assola o planeta, fica nítida a impressão de que a jovem carrega o futuro do mundo nas costas.


O mais interessante, é que Ellie de forma alguma é avessa a isso, muito pelo contrário, pois a garota chama pra si a responsabilidade que carrega. Em muitos diálogos podemos perceber como é difícil lidar com esse fardo, afinal, é como se a esperança de milhões de pessoas estivesse em suas mãos. Antes de se afeiçoar a Joel, o grande propósito de vida da garota era chegar aos "Fireflies" e servi-los da maneira mais útil possível.

Mas ao longo da aventura podemos perceber a confusão que vai se formando em sua cabeça. Ao menos para mim, a jovem sabia desde o início que teria de se sacrificar para dar uma chance à humanidade, porém, foi surpreendida pelos seus próprios sentimentos depois de todos os desafios que passou ao lado do homem reclamão

A Ellie que antes considerava sua existência como um uso prático para o futuro da raça humana, passa a ser traída pelo seu desejo de viver uma vida normal ao lado de alguém que se importa com ela. Quer prova maior do que o perrengue pelo qual a garota passou no inverno? Não acho que alguém iria tão longe para salvar alguém apenas pela necessidade. Deixando mais claro: Ellie não salvou Joel porque precisava dele para chegar aos vaga-lumes, mas porque precisava dele como uma figura afetiva em sua vida.


Acredito que muitos jogadores deixaram passar um fato importante ao final da história. Ao decorrer de todo o caminho, as dúvidas foram se formando e crescendo, mas Ellie sabia que no final teria que tomar sua decisão: abandonar Joel e se entregar aos "Fireflies", ou continuar ao seu lado e acabar com a possível chance de uma cura. A questão é que ela nunca teve a chance de fazer sua escolha.

Vejam bem, quando Joel acorda no hospital após quase ter presenciado a morte de Ellie, ele fica sabendo que ela já está nos preparatórios para a operação. O jogo não nos deixa saber se após acordar, a menina decidiu por si mesma que queria isso. Nós sabemos a versão que Marlene conta a Joel. Ellie pode muito bem ter sido levada direto para a mesa de operação enquanto ainda estava inconsciente. E eu realmente acredito nesse hipótese.

E o desfecho do jogo só reforça isso. Após ter sido resgatada por Joel, Ellie manifesta sua última crise de consciência. Depois de contar sobre todos aqueles que morreram para que ela pudesse sobreviver, fica nítido o desejo de que a garota não quer que aquele sacrifício tenha sido em vão, logo, uma parte dela se sente na obrigação de fazer o máximo para ajudar a humanidade. Porém, ao perguntar a Joel se realmente havia outras pessoas imunes ao vírus no laboratório, vemos a manifestação da outra parte que deseja sobreviver e desfrutar dos prazeres de uma vida normal. 


É só após Joel jurar que está dizendo a verdade, que nós finalmente temos certeza que Ellie tomou sua decisão. É claro que ela sabia que o grandalhão estava mentindo descaradamente, mas resolveu acreditar nele mesmo assim. Foi através daquele “OK” que ela decidiu viver uma vida normal e feliz ao lado dele.

E mesmo que possa ser o maior dos clichês, eu nunca desejaria outro final a ela.

A felicidade está na incerteza

No fim das contas, o aspecto mais brilhante da narrativa é justamente a ponta de dúvida que ela suscita. Será que se Ellie tivesse tido o direito de escolha no laboratório, ela teria tomado a mesma decisão e ido junto com Joel? Seguindo essa lógica, será que Joel teria desistido após ter ouvido a resposta diretamente de Ellie? É provável que nunca saberemos. E convenhamos, é muito melhor assim. Dessa forma cada um de nós pode imaginar infinitas possibilidades, mantendo a história sempre viva.

E você, leitor, o que acha da Ellie? Compartilhe sua opinião e discuta com a gente.

Revisão: Ramon Oliveira de Souza
Capa: Vitor Nascimento
Rayner Lacerda é historiador, formado pela UFV. Eterno estudante e professor do mundo, se interessa por praticamente tudo, mas são os games a sua grande paixão. Tal fascínio o levou ao Blast, onde escreve atualmente. Encontre-o no Facebook

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