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Cancelado, atrasado ou esquecido? Entenda o que aconteceu com The Last Guardian

Revelado em 2009, no início do ciclo de vida do PlayStation 3 , The Last Guardian — sucessor espiritual dos clássicos Ico e Shadow of t... (por Alex Campos em 05/02/2014, via PlayStation Blast)


Revelado em 2009, no início do ciclo de vida do PlayStation 3, The Last Guardian — sucessor espiritual dos clássicos Ico e Shadow of the Colossus, foi por muito tempo um dos maiores atrativos de venda do console. O título era aclamado como uma das maiores provas de todo potencial que o aparelho da Sony teria a oferecer, e, provavelmente, somente os trailers foram o suficiente para vender o console para muitos fãs entusiasmados. Contudo, com o passar dos anos, menos e menos notícias sobre o título foram sendo divulgadas, mais problemas de desenvolvimento foram sendo revelados e hoje, na alvorada da nova geração, uma das maiores promessas da era PS3 continua como um sonho distante. O que aconteceu?

Subindo nos ombros de gigantes

Com o perdão do trocadilho, é certo dizer que após sucessos como Ico e Shadow of the Colossus, The Last Guardian atraiu um hype possivelmente prejudicial. O peso de carregar dois clássicos sobre as costas, trazendo a série para uma nova geração de consoles fez com que o título, mesmo com as poucas cenas de gameplay disponíveis durante sua revelação já fosse considerado jogo do ano, ou mesmo jogo da geração pelos fãs mais assíduos.

Para a equipe de desenvolvimento, isso significa uma pressão extra. O jogo deveria ser superior a seus antepassados, em todos os aspectos. Segundo o diretor criativo do jogo Fumito Ueda, que se demitiu do estúdio (embora continue trabalhando no título como freelancer), o processo criativo do jogo já terminou há muito tempo, mas ele não tem como controlar a hora e os detalhes de quando ficará pronto, ainda mais levando em conta o perfeccionismo da equipe.

Mudanças de rumo

Neste ponto tudo trata-se de conjecturas com alguns detalhes fatuais. Quem acompanha o desenvolvimento da indústria, sabe: normalmente títulos são anunciados quando já se encontram em um estágio mais avançado de produção. São raros cancelamentos de títulos que já tiveram imagens divulgadas, não só pelo trabalho perdido mas também pela marca danificada. Cancelar um título que já teve um trailer apresentado significa tirar dos fãs algo pelo qual eles já anseiam, e pelo qual muitos já pagaram ao comprar o console.

No caso de The Last Guardian, pelas cenas mostradas nos trailers e o tratamento gráfico apresentado, o jogo provavelmente se encontrava em um estágio avançado de produção. Com uma equipe responsável por trás, parecia para os jogadores que o título seria lançado a qualquer momento, anunciado para alguma das grandes janelas de venda de 2010 como férias ou natal.


E era o que os representantes da Sony falavam, que o título estava sendo produzido a todo vapor e que estaria pronto a qualquer momento. Anos passaram, representantes pediram desculpas pelos atrasos, até que em 2013 o desenvolvimento foi oficialmente colocado em pausa, ou ao menos em segundo plano, enquanto a companhia focava suas atenções em Puppeter e Knack.

Ainda que o foco da companhia tenha mudado para esta etapa de transição entre os consoles, seria estranho colocar um blockbuster deste porte em pausa caso não existisse algum problema muito grande no desenvolvimento, e dado o desligamento de Ueda da equipe, podemos pensar que o desenvolvimento está passando por um processo definitivamente conturbado, seja por questões técnicas ou por empresários metendo o bedelho para tentar tornar o jogo mais comercial. O fato é que com tanto tempo de produção o jogo estaria obviamente pronto se tudo tivesse corrido como planejado.

O que mudou?

A indústria se modifica a cada geração. Gêneros que fizeram sucesso em uma época podem simplesmente desaparecer com a mudança de consoles. Os gostos do público se modificam e novos jogos aparecem, roubando a preferência do mercado. Se voltarmos lá atrás, Ico e Shadow of the Colossus eram espetaculares, para a época.

Não me levem a mal, os jogos são indiscutivelmente obras-primas, entretanto, o gênero de aventura no qual estes se encaixam não anda muito bem das pernas nesta geração. Enquanto de um lado temos os jogos de ação vendendo números cada vez mais exorbitantes, títulos mais introspectivos simplesmente não atraem os jovens, público alvo dos empresários. A grosso modo, as crianças de hoje consideram Ico chato e Shadow of the Colossus, lento.

Partindo disso, é fato amplamente conhecido que cada vez mais os empresários tentam empurrar suas visões de jogo para os desenvolvedores, deturpando as obras na tentativa de atrair o maior número de espectadores possível. Isso cria a onda de jogos com multiplayer despropositado, capas iguais e cenas de ação já repetidas à exaustão.


Com este perfil da geração, apostar num puzzle adventure como os títulos da Team Ico pode não ser muito atrativo, ainda mais visto que o volume de títulos de ação como GTA, Call of Duty e semelhantes pode ofuscar comercialmente um título com um investimento tão grande.

Será que lança?

Provavelmente. Boatos já correm por fora sobre a mudança do título para o PlayStation 4. Isso não só daria ao jogo melhores condições de competir com os títulos da nova geração como também uma folga no modelo de vendas. Mesmo que ainda tenha que competir com todos os Call of Duty e outros títulos sendo lançados, o jogo chegaria em um mercado muito mais "fresco", como uma novidade e não mais como um título atrasado que perdeu o bonde.

Resta para os fãs esperar. Esperar e rezar para que nosso protagonista não apareça empunhando uma doze para caçar criaturas nefastas em uma ação despropositada.

Revisão: Vitor Tibério
Capa: Felipe Araujo

Alex Campos é graduando em Produção Sonora pela UFPR. Trabalha como músico freelancer e participa ativamente no cenário de jogos indie nacionais. Estuda por diversão sobre a indústria de games e está no Facebook.

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