Blast from the Trash

DragonHeart: Fire & Steel (PS) prova que dragões não salvam um jogo

Mate mais de um dragão por dia, caso consiga jogar esse péssimo beat’em up do PlayStation.

Dragões são poderosas e majestosas feras voadoras presentes tanto em histórias ocidentais quanto orientais. Eles chamam a atenção em qualquer mídia, normalmente aterrorizando e cuspindo fogo. Pode ser em jogos, como as feras selvagens que atacam o mundo de Elder Scrolls V: Skyrim (PS3), ou então personagens de uma série de TV, como o trio Drogon, Rhaegal e Viserion de Game of Thrones, intimidando os inimigos de sua “mãe”. Eles também são criaturas que cospem suas labaredas em livros, como fez o dragão Smaug em O Hobbit ao tomar a montanha dos anões, e nas telonas podem até ser divertidos como no Como Treinar seu Dragão, onde Soluço e Banguela demonstram que é possível velhos inimigos se tornarem amigos e lutarem lado a lado. São diversos os casos de sucessos com dragões como tema ou personagens. Em vista disso colocar um dragão nas histórias sempre ajuda, certo? No game DragonHeart: Fire & Steel (PS) não satisfeitos com um só, usaram oito dragões! Se um é bom, imagine oito! E junto com isso coloque cavaleiros medievais e uma guerra por um reino. Então temos uma receita de sucesso, correto? Não dessa vez...

Cavaleiros e dragões

Em 1996 houve o lançamento do filme de fantasia/aventura Coração de Dragão (Dragon Heart, no título original). Fez bastante sucesso na época, ao ponto de concorrer a um Oscar. Sua história é interessante: Draco, um sábio dragão, divide seu coração com um rei moribundo para salvá-lo. Diante disso, o rei fica praticamente imortal ao receber parte do coração de dragão e resolve ser um cara mal e opressor com o seu povo. Bowen era um cavaleiro do rei que resolveu matar todos os dragões do mundo com a esperança de que o rei morresse junto a eles. Bowen e Draco (o último dragão vivo) se unem para salvar o reino de sua dominação.

A desenvolvedora de DragonHeart: Fire & Steel pegou o roteiro do filme e resolveu colocar mais dragões. Afinal, quanto mais melhor, correto? Você joga como Bowen e vai matar esses dragões em um esquema de beat’em up 2D até salvar o reino. Mas é incrível como conseguiram transformar um bom filme em algo que até quem jogou não quer lembrar que existe! Deve ser uma norma de mercado escolher um filme e desenvolver jogos com péssima qualidade a partir de seu enredo. Até parece que se esforçaram para estragar!

Pior que a capa é chamativa. Eu compraria um jogo com uma caixa dessas nos anos 1990!

E o melhor ainda está por vir

Mas não prestaram atenção no personagem principal, não é mesmo? Tente lutar ou pular e também se sinta uma pedra! Joe e Mac na Idade da Pedra conseguiam se mover melhor do que Bowen. A animação detona a jogabilidade, sendo tão mal feita que acertar uma plataforma móvel com um pulo vai ser um enorme sacrifício. E tentar passar correndo por debaixo das plataformas também não adianta. A plataforma vai te empurrar para trás e, como a animação de levantar do personagem é muito devagar, no momento que Bowen ficar de pé vai ser empurrado denovo. Muito bem pensado!
Esse tronco sozinho consegue ser mais difícil que qualquer inimigo. Passar dele sem apanhar é tão difícil ao ponto de ter um power-up de invulnerabilidade ao lado.
Você drena uma barra de estamina para executar golpes. Mas não significa que seja possível executar um combo ou que os golpes tenham muita variação. Seu personagem tem um golpe de espada para frente, um com a espada para trás e um soco. O único jeito de lutar e ter certeza que você está controlando alguma coisa com as animações toscas é lutar agachado e bloqueando com seu escudo. O jogo se resume a agachar, bloquear, dar alguns golpes, bloquear de novo, até o inimigo morrer e poder seguir para o próximo. Repetir essa sequência em cerca de 20 inimigos por várias fases não vai ser nada entediante!

De vez em quando você cruza com alguns power-ups que nem sempre fazem sentido, como taças e espadas. Na maioria das vezes que você pegar outra espada não vai mudar absolutamente nada, já em raras vezes ela vai brilhar e você irá matar inimigos com um só golpe. Mas não dá pra saber o que vai ser sem testar. Já as taças são de ouro, prata e barro. A de ouro cura um pouco de vida, já a de prata cura bastante e as de barro curam tudo. Tem que ser humilde, né mano!

Após muito sofrimento em combates e pulos nas duas primeiras fases, você vai encontrar o fantasma de um cavaleiro. Seria um sinal? Pouco a frente você chega na cachoeira onde Draco mora. Finalmente um combate sério? Draco vai desferir diversas cusparadas de fogo (algumas com cores meio estranhas) que você vai ter de defender com um escudo... de madeira (?). Ainda bem que Bowen é um cara com prática em caçar dragões e sabe que madeira é resistente para lutar contra feras que cospem fogo.
Isso é uma baforada de fogo? Ou um golpe de lingua?
E agora? Bom, o dragão não morreu, mas resolveu que agora ele pode conversar com você depois de apanhar um bocado. Será que conversar antes de um combate era muito complicado? Ou então conhecemos o primeiro dragão masoquista? Voltando ao que o dragão tinha a dizer, ele conta-lhe que existem sete dragões malvados que trabalham para o rei e que você precisa matá-los para só depois enfrentar o rei que faz mal para seu reino. E que ele, como o dragão bondoso que é, vai lhe ajudar a matar todo o restante da própria espécie.

É nesse ponto que você vai experimentar outro estilo de jogabilidade de DragonHeart: voar nas costas de Draco com a câmera em primeira pessoa. O personagem fará isso algumas vezes, voando por um cenário sempre igual que desemboca em locais totalmente diferentes. É incrível como existem tantas variações da mesma coisa! Ah, um detalhe importante é que se você falhar, nada mudará no jogo. Simplesmente você irá voltar para o mapa do mundo e continuará sua aventura como se nada tivesse acontecido. Realmente uma parte bem importante do jogo.
Por que esse bicho não me leva direto para lutar com o rei em vez de ficar dando voltas por ai? Eu só quero salvar meu reino!

Gráficos e bleeps 

Visualmente DragonHeart é aceitável para 1996, com backgrounds bonitos e personagens humanos digitalizados. Com a Acclaim publicando tanto esse jogo como Mortal Kombat alguns anos antes, é de se imaginar que as animações dos personagens digitalizados seriam pelo menos próximas das usadas na série de luta. Mas ao cruzar com o primeiro inimigo se movimentando tão ágil feito uma pedra, você começa a perceber que tem algo errado com o jogo... Eu cheguei a comentar que o Oscar que o filme foi indicado era de efeitos especiais?

E durante sua aventura você será acompanhado pelos efeitos sonoros, claro. Ah, os sons do jogo. Jogos de NES fizeram melhor. Talvez até de Atari. Você ouvirá alguns efeitos, como barulho de espadas, alguns urros de dor e das cusparadas de fogo. Também podemos ouvir uma música de fundo bem chata e repetitiva, isso quando tem. Várias fases rolam sem um sonzinho de fundo pra animar.

Sete dragões fazem a diferença? Não aqui 

Do jeito que esse jogo foi mal feito, parece que pegaram os anos de experiência de clássicos jogos da era de ouro dos beat’em up nos consoles de 8 e 16-bits e jogaram tudo no lixo. Ainda bem que anos depois lançaram pérolas como Muramasa (Wii/PSVita) e Dragon’s Crown (PS3/PSVita) para salvar os beat’em ups do esquecimento. Porque nem as sete Esferas do Dragão tirariam esse jogo da lata do lixo!

Revisão: José Carlos Alves
Capa: Diego Migueis
Vinicius Eleno é formado em Administração de Empresas pela USP, e mestre em cultura inútil pelas experiências de vida. Desde 1993 gosta de explorar o mundo dos games em seu tempo livre. Pode ser encontrado reclamando da vida no Facebook e Twitter.

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