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Análise: Child of Light (PS4) é um lindo poema em forma de jogo

A nova criação da Ubisoft emociona ao contar a linda história de amadurecimento da pequena Aurora.


Dentre todas as grandes desenvolvedoras ocidentais atuais, a Ubisoft se destaca não apenas pela grande qualidade de suas super produções como também por ser uma das que mais se arrisca em novas ideias e conceitos que vão contra a corrente de desenvolvimento atual. Títulos como Beyond Good & Evil (Multi), a franquia Prince of Persia (Multi), Rayman Legends e Rayman Origins (Multi), o reboot da série de seu maior mascote são exemplos de como a empresa é capaz de se reinventar e de trazer jogos de extrema qualidade para um mercado saturado de shooters genéricos. Com o desenvolvimento da UbiArt, engine capaz de processar gráficos que mais parecem pinturas vivas do que cenários de videogames, a empresa francesa criou os novos jogos da franquia Rayman, mas também quis ir além. O primeiro jogo desta empreitada é Child of Light, um belíssimo RPG ao melhor estilo oriental que faz o jogador mergulhar em um belíssimo conto de fadas.


O melancólico mundo de Lemuria

Child of Light conta a história de Aurora, uma princesa austríaca do século XIX que é envenenada e, ao invés de morrer, é levada para um mundo encantado chamado Lemuria. Sem saber onde está e o que ocorrera, a garota começa a vagar por aquele mundo até descobrir que talvez nunca mais consiga voltar para seu pai, e que deve encarar seu destino como princesa de Lemuria para salvar o reino da escuridão trazida por Umbra, uma ditadora e rainha auto-proclamada, que roubara o Sol, a Lua e as estrelas, colocando o reino de Lemuria em uma situação delicada. Com a esperança de reencontrar seu pai e não se vendo com outra alternativa, Aurora aceita sua missão e parte em busca da salvação daquele reino distante, sem saber o tamanho do desafio que estava prestes a enfrentar.

Durante a sua jornada, Aurora encontrará diferentes povos de Lemuria, sendo que alguns seres até simpatizarão com a causa da princesa e a seguirão em sua jornada. Os parceiros da garota aos poucos deixam de ser apenas membros de uma equipe e passam a se tornar verdadeiros amigos da personagem, que com seu carisma, inocência e coragem acaba conquistando todos que cruzam o seu caminho. Contudo, a busca pela Rainha Umbra também é cheia de perigos e monstros cruéis dispostos a matar a garota a qualquer custo, o que dificultará bastante a jornada da heroína pelo decadente mundo do jogo.

Um RPG de respeito

Apesar de ter sido desenvolvido no ocidente, Child of Light exala o clima de RPGs orientais para todos os lados. Com uma jogabilidade simples e ainda assim cheia de nuances, o jogo é um deleite para os fãs do gênero, além de agradar qualquer jogador que curte uma boa aventura. Durante as passagens de exploração, o jogo é completamente bidimensional, e Aurora deve explorar cada canto dos cenários, seja por terra, caminhando, ou através do céu (já que logo no início da aventura a garota recebe a habilidade de voar) sempre em busca de baús enquanto ruma em direção ao seu próximo destino.

Ao contrário do que muitos possam imaginar, as batalhas de Child of Light não são em tempo real, mas sim em turnos, ao melhor estilo Final Fantasy. Com uma barra na parte de baixo da tela que funciona mais ou menos como uma barra de ATB unificada para todos os participantes da batalha, as estratégias sempre são formadas levando-a em consideração, já que é possível visualizar quem é o próximo a agir e, com isso, direcionar ataques e habilidades que possam atrasar ou cancelar ações inimigas. Apesar de muito simples, o sistema funciona e faz com que o jogador participe ativamente de cada momento da luta, seja para atacar seus inimigos ou mesmo para impedi-los de atacar. Além disso, de forma semelhante ao que ocorre em Final Fantasy X (PS2), é possível trocar de personagens durante a batalha, aumentando ainda mais o número de possibilidades estratégicas, já que cada um conta com habilidades exclusivas que quase sempre fazem diferença na hora de uma luta.

Como em quase todos os RPGs, há um sistema de aumento de níveis, que é ativado a partir dos pontos de experiência recebidos ao fim de cada luta e a partir dos pontos de habilidade, que permitem que os personagens aprendam novas técnicas ou melhorem as que já possuem. Para completar, ainda é possível encontrar Oculi, pedras preciosas que podem ser equipadas para aumentar atributos dos personagens, como ataque, resistência a um determinado elemento e até mesmo a obtenção de mais pontos de experiência ao final de cada luta.

Apesar de tantos elementos em sua jogabilidade, Child of Light é um jogo simples e gostoso de se jogar, tanto que dificilmente senti alguma dificuldade real para completar a jornada, que durou cerca de doze horas. Contudo, o jogo exige atenção total do jogador para que seja melhor aproveitado, seja para vencer as batalhas ou mesmo para explorar o mundo de Lemuria, que é cheio de passagens secretas e itens escondidos.

Um poema em forma de jogo

Com uma jogabilidade tão prazerosa e um mundo tão vasto e cheio de nuances, seria estranho se a qualidade da produção não acompanhasse o restante do pacote. Talvez os gráficos da aventura sejam o seu ponto de maior destaque, já que tudo parece feito à mão e cada novo cenário é capaz de deixar qualquer jogador de queixo caído, já que a direção artística é impecável. Lemuria se consagra desde já como um dos universos mais magníficos já criados para um jogo. A trilha sonora também não faz feio e completa o clima triste do jogo com seu arranjos calmos tocados apenas por um piano com a aparição ocasional de outros instrumentos em momentos mais oportunos.

Mas não é apenas isso que faz o jogo brilhar. Uma das coisas mais brilhantes da aventura é que praticamente todos os diálogos são rimados, o que aumenta ainda mais o clima de conto de fadas da jornada. E não pensem que tal privilégio só está disponível para os que dominam a língua inglesa, já que o jogo foi completamente localizado para a nossa língua, inclusive em suas rimas e diálogos engraçados. É claro que nem sempre as rimas são coerentes o bastante para dar consistência aos diálogos, mas é admirável como a grande maioria deles é incrivelmente bem escrita e divertida de ser lida.

Um clássico inesperado

Child of Light é facilmente um dos melhores jogos lançados neste ano. Com sua belíssima história e com seus personagens extremamente carismáticos e distintos entre si, o conto de fadas de Aurora é uma jornada inesquecível tanto para amantes do gênero RPG quanto para jogadores ávidos por uma boa aventura. A exploração dos cenários fará com que os jogadores continuem voltando para o jogo só para que eles descubram ainda mais passagens secretas, itens raros e chefes opcionais, um verdadeiro deleite e um sopro de novidade vindo de uma desenvolvedora que tem coragem suficiente para sair de sua zona de conforto.


Prós


  • Mundo encantador;
  • História simples, mas muito envolvente;
  • Gráficos espetaculares;
  • Batalhas divertidas e que exigem estratégias.

  • Contras


  • Termina muito rápido.

  • Child of Light – PlayStation 4 – Nota 9.5
    Revisão: Samuel Coelho
    Capa: Felipe Araújo
    Gabriel Vlatkovic é economista formado pela Unicamp. Trabalha como Analista de Finanças e joga videogames há quase vinte anos. Adora ouvir música, assistir a filmes e seriados e discutir a Timeline de Zelda. Quando não está trabalhando, está no Facebook.

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