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Análise: Until Dawn (PS4) — O medo em forma de diversão

Com a premissa de trazer a essência dos filmes de terror adolescente aos videogames, eis um jogo que supera as espectativas.


Nunca gostei muito de filmes no estilo de “Pânico” e “Sexta-Feira 13”. Enquanto a grande maior parte das pessoas se encolhem em cobertores e gritam até perder a voz, minhas reações ao assistir se alternavam entre tédio e gargalhadas. Until Dawn (PS4) foi, desde o início, apresentado como uma homenagem ao gênero, trazendo uma história extremamente repetitiva e comum: jovens passam um final de semana em uma mansão, com um assassino entre eles — talvez seja esse o motivo de nunca ter, de fato, me animado com a ideia.


Durante a Brasil Game Show de 2014 e a E3 2015 tive a oportunidade de experimentar uma demonstração do jogo, que me colocava em situações aleatórias em momentos específicos da história. Em todas as vezes, as sensações que tive eram as de assistir a uma animação, com poucos momentos interativos e cenas de susto forçadas. Até mesmo a Sony, que é famosa por fazer enormes campanhas publicitárias para os seus lançamentos, parecia não dar grande ênfase, e Until Dawn se perdia entre tantos lançamentos de peso. Ainda assim, decidi deixar tudo de lado e viver a experiência completa, com direito a pipoca e cobertor (e muito, muito medo).
Uma das cenas mais icônicas do jogo é também uma das mais belas: tanto o enquadramento quanto as luzes foram muito bem planejados. 

Segure o controle

De início, a primeira coisa que notamos é a qualidade gráfica. Os detalhes nas roupas e peles dos personagens fazem com que esqueçamos do jogo e pensemos estar assistindo a um filme, que também conta com animações muito bem trabalhadas. Porém, este também se torna um dos maiores problemas: há momentos em que a taxa de quadros por segundo cai drasticamente, sendo perceptível até por quem não entende do assunto. Isso não estraga a diversão, mas nos faz lembrar de que ainda não é possível aproveitar todo o potencial do console, que ainda está nos primeiros anos de vida.

Os controles se moldam de acordo com a vontade do jogador, o que é ótimo! Se você gosta da maneira tradicional de jogar, não terá dificuldade alguma em se acostumar com os comandos, que envolvem andar e apontar com os analógicos. Mas, caso queira experimentar novas formas de interagir, há um modo no qual é preciso mirar e apontar com o controle, girando-o nas direções desejadas. É um pouco complicado no início, mas depois de um tempo tudo fica intuitivo e imersivo.

Controlar o personagem com o analógico e a direção da lanterna com o movimento do controle nos deixa confusos no começo.

Não há muito segredo, e o jogo deixa claro que a sua proposta é a de que participemos de um filme, escolhendo as reações dos personagens e realizando algumas escolhas. A abertura serve como uma introdução aos comandos básicos e conta a história base: os jovens estavam se divertindo em uma mansão quando duas irmãs desapareceram, sem deixar vestígios. Todo o clima já está claro para o jogador, que começa a ficar tenso ao perceber que as coisas só vão piorar.

Clichês, estereótipos e pouca ação

A história começa, de fato, com a reunião dos oito jovens na mansão após o sumiço das irmãs. A ideia é a de que apaguem as más lembranças e criem novas, com muita diversão e pegação — há diversas piadas e referências a sexo entre vários personagens. Tudo se torna complicado conforme conhecemos cada um mais a fundo: os estereótipos se mostram muito presentes. Há o nerd esquisito, o popular garanhão, a patricinha sedutora, entre outros, e por conta de suas personalidades extremamente fortes é comum que haja muitas brigas.
Quando somos apresentados aos personagens, conhecemos um pouco deles através de adjetivos exibidos na tela.

Desde o momento em que começamos a acompanhar as aventuras durante o reencontro de amigos, ficamos aguardando por mortes e sustos. Infelizmente, o número de clichês se torna cada vez maior, colocando o jogador em momentos que tentam assustar, mas apenas nos fazem perceber que estamos acostumados com jogos muito mais assustadores — como P.T. (PS4) e Dead Space 2 (Multi), por exemplo.

Conforme progredimos, começamos a criar laços com personagens específicos. Eu, particularmente, criei grande afinidade com Chris, que tinha atitudes próximas do que eu faria em seu lugar. Como somos obrigados a controlar um de cada vez, acabamos optando por ajudar ou dificultar as suas vidas, desenvolvendo suas ligações e conexões uns com os outros. Para isso, temos que optar por respostas e ações com o pressionar de botões que aparecem na tela: é possível transformar alguém muito legal em odiado por todos ao ser grosso ou procurar brigas repetitivamente.
Os diálogos são dignos de filmes de terror: vazios e com piadas sem graça. Mas é justamente essa a graça do jogo!

Outra coisa comum em filmes do gênero, que nos acompanha até o fim do jogo. é a coragem excessiva que se confunde com estupidez por parte dos jovens. Mesmo sabendo que há um provável assassino ao redor, com duas jovens desaparecidas e praticamente nenhuma segurança no local, todos parecem calmos ao entrar em minas de trem abandonadas e sótãos com barulhos estranhos. Mesmo quando pessoas começam a morrer, muitos parecem não reagir de maneira realista.

Diferentemente de jogos que tinham propostas de ação, Until Dawn sempre deixou claro ser um jogo focado na experiência narrativa. Ainda assim, os momentos que exigem reflexo e velocidade do jogador são muito satisfatórios, capazes de me deixar focado na tela para não perder nenhum movimento. É angustiante quando somos obrigados a não mexer o controle durante alguns segundos, permanecendo imóveis junto aos personagens — até segurava a respiração! E essa foi apenas uma das muitas surpresas que o jogo trouxe.

São os pequenos deslizes, como não apertar o botão na hora certa, que causam a morte de personagens.

Reviravoltas e (muitos) sustos

De maneira totalmente inesperada, a história começa a tomar outros rumos. Começamos a perceber que havia algo de diferente ocorrendo na mansão quando somos colocados diante de um psicólogo — entre uma cena e outra —, que nos faz diversas perguntas e começa a traçar o nosso perfil (aparentemente, isso serve para deduzir o nível de medo que sentimos com jogos de terror). Como tudo ocorre em primeira pessoa, não sabemos quem somos e onde estamos, presumindo que isso só seria solucionado no fim do jogo.

Alguns elementos pelo cenário também mostram que há algo de sobrenatural ocorrendo por ali: há totens que podem ser coletados, garantindo troféus e alguns benefícios ao jogador. Cada totem carrega um desenho de borboleta, e cada cor representa uma premonição diferente: morte, morte de um amigo, perigo, ajuda e boa sorte. Ao analisar o objeto, um pequeno vídeo exibe um possível futuro para um personagem, que pode ser evitado ou concretizado de acordo com as suas escolhas. Todos podem ser visualizados em um menu, em qualquer momento.

Os totens realmente são úteis, já que nos dão uma ideia sobre quais decisões tomar em determinados momentos.

Diversos outros objetos também podem ser visualizados e interagidos, contando um pouco mais da história do local. Há jornais, fitas cassetes, fotos… tudo nos faz entender sobre o provável assassino e seus motivos. Considerando o fato de nenhum dos filmes de terror adolescente carregar uma história surpreendente e profunda, estava preparado para jogar e tentar salvar os jovens de um único mal. Felizmente, eu estava errado.

Da metade do jogo em diante, diversas coisas ocorrem, fazendo com que não apenas lutemos pela sobrevivência, mas tentemos entender outra história que ocorria em paralelo. O jogo deixa de prender apenas pelo clima tenso e sustos aleatórios, mas também por uma narrativa inteligente e muito mais profunda do que o esperado. Se antes tudo parecia ser “Eu sei o que vocês fizeram no verão passado”, agora havia também um pouco de “Jogos Mortais” e “REC”. Os roteiristas merecem créditos por trazer diversos tipos de terror para um mesmo conteúdo.
Durante as visitas ao psicólogo, além de nos sentirmos pressionados, ficamos assustados com a realidade das suas expressões faciais.

Apesar de já ter falado que não me assusto facilmente, há diversas cenas que me fizeram jogar a pipoca para o alto (por sorte, o controle ficou intacto). Mesmo sendo óbvio que estão ali apenas para isso, esses momentos nos deixam apreensivos, aumentando a tensão que o jogo precisa para funcionar. Uma funcionalidade muito legal é a utilização da câmera do PlayStation 4, que filma os sustos e os disponibiliza para exibição em qualquer momento. Confira o vídeo abaixo, para entender o funcionamento:

Um novo mercado

Muitos podem dizer que Until Dawn não é jogo, mas isso pouco importa: ele é extremamente divertido. Com duração curta, de aproximadamente oito horas, sua história interativa e moldável é prazerosa e assustadora na dose certa. Infelizmente, ele conta com alguns problemas que reduzem a sua vida útil, principalmente quando consideramos o atual preço dos jogos no Brasil.
Assim como na maioria dos filmes do estilo, o final de Until Dawn deixa um pouco a desejar, e não explica muitos dos fenômenos que sondaram os personagens. Entretanto, é muito legal ver suas ações refletidas nas mortes dos personagens, que podem ou não sobreviver. 
Após finalizar o jogo, não há muito que valha a sua repetição. Mesmo sendo possível voltar em momentos específicos e modificá-los, não teremos os mesmos sustos e medos, e encontraremos cenas e diálogos entediantes e repetitivos. A busca por objetos não encontrados e totens pode render alguns troféus, mas não há mais incentivos — talvez valha mais a pena ver os possíveis desfechos pela internet, matando a curiosidade de maneira muito mais rápida.
Ler os documentos encontrados acrescenta detalhes à história, que se torna complexa com o tempo.

Diferentemente de outros grandes lançamentos, como The Order:1886 (PS4), Until Dawn consegue divertir em pouco tempo. É um grande título que mostra o poder de um novo mercado, mesclando diversas mídias para trazer conteúdos audiovisuais interativos, contando histórias únicas e individuais. Para todo grande fã dos antigos filmes de terror, é uma compra certa. Para os que gostam de uma boa história, vale a pena dar uma chance. Aos que preferem ação e aventura, é melhor passar longe.

Prós

  • História surpreendente;
  • Gráficos espetaculares;
  • Muitos sustos e clima de tensão;
  • Ótimo uso das funcionalidades do controle;
  • Dublagem americana e trilha sonora de excelente qualidade.

Contras

  • Poucos motivos para jogar novamente;
  • Momentos pouco convincentes;
  • Reações pouco expressivas ou muito exageradas;
  • Muitos clichês e estereótipos;
  • Dublagem brasileira deixa a desejar.
Until Dawn — PlayStation 4 — Nota: 8.5
Revisão: Vitor Tibério
Capa: Guilherme Kennio 
Leandro Rizzardi se aventura nas terras de redação de games, livros e roteiros de fantasia. Extremamente apaixonado por universos imaginários, descobriu nos videogames o lugar perfeito para viver — o que resultou no crescimento de sua barba. Pode ser encontrado em seu Facebook, quando não estiver jogando.

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