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Análise: World of Final Fantasy (PS4/PS Vita) é homenagem com cara própria

O jogo consegue digerir e traduzir diversos conceitos e elementos da série em algo próprio e muito competente.

Obras que celebram uma determinada série ou franquia costumam ser direcionadas ao grupo de fãs que já a acompanham. Essa foi a ideia de Theathrhythm Final Fantasy e sua sequência, por exemplo, mesmo que seja interessante ver como algumas pessoas que não são exatamente fãs da franquia gostaram desses títulos. World of Final Fantasy é uma homenagem à Final Fantasy, mas também busca cativar e introduzir um público novo.


WoFF está em constante diálogo com a série da qual deriva e que homenageia. Mas traz, também, uma experiência com ideias próprias e bem desenvolvidas. Se Theathrythm celebra as músicas da série, World of Final Fantasy celebra seus mundos, personagens e, sobretudo, seu icônico bestiário. Digere um pouco de tudo que apareceu ao longo dos anos e consegue traduzir isso para 2016 de uma maneira competente, mas bem peculiar e sua.

Seu enredo, por exemplo, busca não apenas personagens clássicos, mas também utiliza diversos conceitos que apareceram ao longo dos títulos. Isso não se dá só como repetição de algo que ocorreu em algum jogo da série, mas como ideias que guiam um pouco os acontecimentos.
Cornelia, a primeira cidade da série.
Pensar na ideia de digestão é uma boa metáfora, já que WoFF muitas vezes embaralha personagens e lugares para ir contando sua história. Em um dado momento acordamos em uma instalação que vem do Final Fantasy VIII que está diretamente conectada a um lugar do FF VII. Nesse capítulo encontramos uma personagem do universo expandido do VII e por fim entramos em contato com um herói e uma nova apresentação de um acontecimento do Final Fantasy IX. Tudo isso à mando de um dos guerreiros do FF VI.

Os mundos e lugares são livremente apresentados e embolados, e vemos caras muito conhecidas ao longo de toda a campanha. Felizmente ela não vive apenas de reciclar situações e dar uma nova roupagem a elas, mas também desenvolve uma história só sua, ainda que dialogando constantemente com ideias da série. Temos um império ligado ao uso de máquinas que vem dominando boa parte do mundo, mas existe muito mais por trás disso. Não parece algo distante de temáticas que já vimos, mas a história aqui tem uma identidade e um estilo próprio.
Alguns dos personagens da franquia podem ser invocados durante a batalha.
O mais palpável desse estilo é como o jogo puxa muito para o lado da palhaçada. Um dos personagens principais, o Lann, é tão bobo quanto diversos heróis de animações e não se cansa de fazer trocadilhos e não entender absolutamente nada que está acontecendo. Reynn, por sua vez, toma o lugar da pessoa mais centrada.

É claro que mesmo sendo algo absolutamente dentro da proposta, por muitas vezes tanta besteira irrita, mas é até surpreendente como algumas poucas vezes dá para rir das palhaçadas. A narrativa é feita para ser leve, bem-humorada e até mesmo boba, sempre usando de referências, piadas e de toda a fofura que encontramos nesse mundo chamado Grimório.

World of Final Fantasy é um jogo muito fofo. Alguém mais desatento às mecânicas e sistemas sólidos do game pode até presumir que isso é tudo que ele é: fofo e cheio de fanservice. Mas o título traz muitas boas ideias, e esses sistemas dialogam o tempo todo. A própria fofura, por exemplo, não tem só um apelo visual. Quando Lann e Reynn estão no modo chibi, o grupo de batalha que podemos formar é bem diferente de quando estão no tamanho normal (chamados de Jiants pelos habitantes desse mundo).

Além disso, em algumas cidades é possível apenas alcançar certos baús quando estamos como Jiants. Esse conceito me animou bastante, e foi um pouco desapontador quando percebi que trocar de tamanho não é algo levado em consideração pelos cenários e dungeons. Outros sistemas, no entanto, são.

Mas a diferença principal, para além do visual, em estar como chibi ou Jiant está nas diferentes maneiras que podemos compor nosso grupo, ou melhor, nosso empilhamento. O tal do stack é a forma como organizamos nossa equipe de luta. Existem três espaços: um para alguém pequeno (small), outro para um ser médio (medium) e um último para grande (large). Até pelo fato de que só eles podem capturar monstros, Lann e Reynn são fixos no time (sendo retiráveis da equipe só no conteúdo pós fim da campanha). E seus tamanhos variam entre L e M, quando estão como Jiants e chibi, repectivamente.

Sendo assim, a forma em que os heróis estão muda o empilhamento que entraremos na batalha. Em pouco tempo, porém, fica claro que é melhor usar o modo chibi, já que os monstros grandes são mais fortes e costumam possuir um bom número de habilidades, deixando o outro empilhamento para treinar outros companheiros de batalha.

O mais interessante é que o empilhamento dos personagens é também o empilhamento de atributos, resistências e habilidades. Isso abre uma boa possibilidade de estratégia na hora de montar o grupo. Não são apenas os atributos que se somam, mas também as habilidades. Se dois integrantes de seu grupo possuírem Cure, você poderá usar Cura, e por aí vai. Não só magias como habilidades em conjunto também são possíveis.


Também abre possibilidades na hora da batalha. Geralmente é melhor estar empilhado, mas existem situações que é bom separar a equipe. Existem também os casos em que os inimigos vão te desempilhar, o que gera alguns segundos de stun, o que atrasa o seu turno de ataque (é o atributo da agilidade que vai determinar a rapidez em que o stack pode agir novamente). Derrubar a pilha dos inimigos é tão importante quanto tomar cuidado com a sua pilha. Existem golpes e habilidades úteis tanto para quebrar um empilhamento quanto para proteger o seu.

E é nessa centralidade do empilhamento que WoFF começa a relacionar diretamente seus sistemas. Ao lado da forma como montamos nossa equipe, está a captura dos diversos monstros e a evolução deles.

Capturar os monstros é uma das tarefas mais importantes e mais divertidas do jogo. Cada ser possui um pré-requisito para que entre em estado de prismunity (quando pode ser capturado). Alguns entram quando apanham um pouco, outros apenas quando recebem algum status negativo, já existem aqueles que só entram levando um tipo específico de dano ou até mesmo só quando são contra-atacados. Existem diversos tipos, e é mandatório utilizar a habilidade Libra para saber o que tem que ser feito quando se encontra um novo monstro.

Ter mais monstros e mais habilidades é o que vai te fazer conseguir ter ainda mais monstros e mais habilidades. Cada companheiro pode ser aprimorado e até mesmo mudar de forma através de sua mirage board. Além de subir de níveis, o monstro vai ganhando novas habilidades e bônus conforme vamos preenchendo seu tabuleiro (algo muito semelhante ao que vimos em FF X). Também é nessas boards que conseguimos boas miraqjewels, itens que são alocados no Lann ou na Reynn para dar habilidades e bônus também a eles.

Possuir muitos monstros e habilidades também é central para nos movermos pelas dungeons e cenários. Alguns monstrinhos podem alterar o ambiente, ou nos ajudar a passar algum obstáculo. E só podem fazer isso se tivermos destravado a habilidade específica. Também existe um outro tipo de interação de nosso grupo com a exploração do cenário. Há grandes botões que pedem um empilhamento que seja maior que um determinado peso e que tenha um determinado valor de resistência à alguma coisa. Se formarmos uma equipe que atenda os pedidos, novos caminhos são abertos.

As dungeons de World of Final Fantasy trazem muitos lugares da série, e tantos outros espaços clássicos de um jogo do gênero. Fiquei impressionado pela forma como cada lugar tem suas particularidades, e como sempre existe algo diferente para passarmos pelo local. Se em um lugar precisamos deslizar no gelo para seguir para a saída certa, em outro precisamos nos esconder de sentinelas. Existe uma diversidade boa de cenários e de ideias para esses locais, fazendo com que as áreas do jogo tragam sempre algo novo, mesmo quando são uma tradução direta de um lugar da série.


Mesmo com a boa batalha, o incentivo à captura e evolução dos monstros e essas interessantes mecânicas de se explorar os cenários, por muitas vezes as dungeons são cansativas, e duram um tempo maior do que conseguem manter o interesse, principalmente do meio do jogo para frente. E olha que não existe necessidade, já que o título traz muitas tarefas extras para evoluirmos e capturamos monstros, como o Coliseu e as intervenções (pequenas histórias paralelas que mostram mais dos personagens do jogo e que dão boas recompensas, inclusive novos monstros para capturar).

Os encontros são aleatórios, mas não pipocam em um pequeno intervalo, o que ajuda muito no deslocamento. É possível alterar com jóias essa incidência, aumentando ou a diminuindo.

Felizmente o jogo optou por incluir um botão de fast forward  tanto nas batalhas quanto nas cenas, o que ajuda muito a dinamizar os confrontos e as eventuais cutscenes longas ou desinteressantes.

WoFF consegue fazer com que todas as ações que você faz no jogo estejam sempre em sintonia. Você vai capturar, evoluir, montar equipes, conseguir habilidades, prosseguir no enredo, explorar as cidades e calabouços e ver histórias paralelas de uma forma fluída. E conjunta, sobretudo.

E com toda essa tradução de elementos e personagens da série sendo feita como uma ideia muito clara de quais são os pontos centrais do título, World of Final Fantasy consegue trazer uma experiência fechadinha, que ganha ainda mais com a utilização das músicas da franquia (com algumas novas versões interessantes) e de seu visual fofo e bem trabalhado.

O design dos monstros é algo que agrada muito. Seres grotescos e bestiais como Mimics, Ahrimans e Adamantoises aparecem aqui de uma forma muito simpática. Mais para frente no jogo podemos usar monstros realmente grandes e assustadores, mas mesmo eles são muito bem concebidos. Parte das invocações da série fazem presença aqui, e pode ter certeza que a escalação de todo o bestiário vai agradar os jogadores e suas memórias da série.


Algumas das entidades e monstros possuem o tamanho XL, e funcionam de forma parecida com as invocações de FF X. Eles ficam na batalha enquanto tiverem HP ou AP, e você pode optar por usar logo um golpe de muito custo ou segurar mais tempo dentro do confronto. O roster de monstros utilizáveis é vasto e agrada bastante.

De polvos tarados ao rei dos dragões, WoFF faz muito bem o fanservice, e também o faz através de cenários, piadas e referências. É uma homenagem sólida, bem pensada e cheia de boas ideias. Celebra os monstros e os coloca como pontos centrais tanto das batalhas, quanto da exploração e de boa parte do enredo. Mistura histórias e personagens e consegue dar uma cara sua a tudo isso. Faz qualquer fã repassar por momentos da memória de uma forma diferente, e espero que tenha um apelo para um novo público que será iniciado na franquia. O mundo de Final Fantasy é vasto e convidativo, e World of Final Fantasy também é.

Prós

  • Sistemas e mecânicas interessantes e que conversam a todo momento;
  • Mistura de conceitos, personagens e lugares que agrada;
  • Sistema de batalha e captura competentes, e um grupo de monstros variado;
  • Boas ideias na construção das dungeons;
  • Bastante conteúdo durante e pós-campanha;
  • Traduz os mundos da série da sua própria maneira.

Contras

  • Ainda que parte da proposta, muitas vezes os diálogos e cenas são bem bobos;
  • Mesmo com boas ideias e execução, muitos dos cenários fatigam.
World of Final Fantasy – PS4/PS Vita – Nota: 8.5
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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