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Análise: Detroit Become Human é uma jornada digital e filosófica

Crie sua própria história e decida o futuro dos androides em um mundo que não está pronto para eles.

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O que é a consciência? Seriam os humanos a única espécie capaz de sentir emoções como medo, ódio e amor? Os seres sintéticos também podem ser tão “vivos” quanto nós mesmos? Esses questionamentos que permeiam o mundo da ficção-científica desde que começamos a imaginar humanos artificiais (como andróides) muito em breve podem se tornar assuntos do nosso cotidiano com os recentes avanços tecnológicos. Mais do que explorar a velha disputa entre humano versus máquina, Detroit Become Human é uma história profunda que toca em assuntos delicados como ética, moral e como será o papel do humano em um futuro cada vez mais digital.

Um futuro não tão distante

A mais nova história da Quantic Dream - estúdio responsável por grandes sucessos no gênero de experiência narrativa digital como Heavy Rain e Beyond Two Souls - se passa em 2038, na cidade de Detroit, Estados Unidos. Mas apesar de a trama de Detroit Become Human se passar 20 anos no futuro, ela parece estar ocorrendo bem próxima de nossa realidade.

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Boa parte dos aplicativos de smartphones, por exemplo, utilizam algum tipo de inteligência artificial para aprender nossos gostos e preferências e proporcionar a melhor experiência possível para cada usuário. Os programas de compra e venda de produtos, as redes sociais, provedores de conteúdo de áudio e vídeo, enfim, quase todos os serviços digitais possuem uma certa “inteligência” para melhor se comunicarem conosco.

Para muitos pode ser que estejamos ainda longe do futuro que o game desenha, em que andróides que imitam humanos convivem junto com as pessoas, ajudando-nos em tarefas diárias, sendo nossas companhias e assumindo empregos mais perigosos. Porém, é inegável que quando atingirmos o ponto em que será impossível distinguir uma IA de uma pessoa (o famoso Teste de Turing), não poderemos voltar mais atrás. Nosso mundo e sociedade irão se transformar para sempre.

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No entanto, o game vai bem mais fundo do que apenas nos instigar a imaginar uma sociedade em que humanos têm de conviver lado a lado com andróides. A trama vai desde temas como éticas até racismo e segregação. Novamente assuntos que não estão tão distantes de nossa realidade, com os recentes casos de refugiados em diversos países europeus e as constantes cenas de xenofobia e racismo que ocorrem ao redor do mundo. A “alegoria” criada pelo contexto dos androides cai como uma luva para o momento que nossa sociedade atravessa.

Em 2038, a cidade de Detroit - ironicamente, pois ela é uma das piores metrópoles norte-americanas - é o pólo da produção de andróides pela empresa Cyber Life. Enquanto os Estados Unidos e outros países já adotam o uso de robôs humanóides no cotidiano com leis e estatutos, o Canadá, por exemplo, é um lugar proibido para as máquinas. Em Detroit, andróides são tratados como mercadoria: você pode comprá-los em lojas, trocá-los, vendê-los, quebrá-los. Enfim, você trata seu andróide da forma que quiser. Afinal, como se ouve repetidas vezes durante o game “eles são apenas pedaços de plástico”.

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Mesmo antes de a trama cercando os personagens principais começar é difícil ver a forma como os andróides são tratados sem sentir um certo nó no estômago. É como ver a história humana se repetindo, da mesma forma há apenas alguns séculos atrás tratávamos negros, índios e outras etnias consideradas “sub-raças”. Certos estabelecimentos não permitem a entrada de andróides, ônibus tem partes separadas para os robôs e até mesmo danificar seriamente um deles não é um problema, uma vez que é possível mandá-lo para o conserto e resetá-lo. Seria essa a “evolução” de nossa sociedade?

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A história repleta de temas polêmicos segue três personagens: ConnorMarkus e Kara, todos androides. Logo no início da trama, fica claro que a relação entre humanos e máquinas está por um fio. Sem se saber o motivo, muitos andróides estão se tornando rebeldes: eles desobedecem ordens humanas e estão até mesmo cometendo assassinatos. Nesse ponto, a trama do game infelizmente passa de forma superficial em um tema que outros livros e filmes aprofundaram, como a forma com a qual a inteligência artificial interage com humanos e que tipo de leis regem as máquinas (na história de Detroit, presume-se que os protocolos que os andróides quebram seriam baseados nas três leis da robótica, de Asimov).

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Novamente, como em outros games da Quantic Dream, a forma como a história irá se desenvolver fica completamente a cargo das decisões do jogador. Podendo controlar o enredo de três personagens diferentes, Detroit abre um leque de opções gigantesco de como a trama vai se construir. São tantas opções para o usuário escolher que, ao final de cada capítulo, um diagrama de fluxo é apresentado para se visualizar o caminho escolhido e quais as outras rotas que poderiam ser tomadas.

Independente da linha que estiver seguindo (seja de Connor, Markus ou Kara) não existe a definição de “certo” ou “errado”. Esses conceitos ficam por conta do critério do jogador em cada situação. Algo considerado por muitos como a decisão correta pode ter consequências terríveis em capítulos futuros. Além disso, mesmo que o jogador não escolha nenhuma opção dentro da janela de decisão que o game coloca, a omissão provocará alguma reação no futuro.

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Por causa desse motivo, fica estranho a Quantic Dream ter inserido eventos obrigatórios na história como tarefas domésticas ou mesmo ações banais, como tomar um drinque. Sem uma grande relevância para a construção da história, esses momentos não servem ao seu suposto propósito de imersão no game, fazendo o jogador se questionar se realizar aquela ação realmente é algo necessário.

Outra decisão estranha para a mecânica do game talvez tenha sido o uso do analógico direito do controle para realizar certas ações de movimento. São vários os momentos que esse estilo de jogabilidade fica confuso quando se quer controlar a câmera ao invés de realizar uma ação, e vice-versa. Uma vez que o gatilho R2 é utilizado para ativar uma espécie de modo detetive, que pausa o tempo no game e permite visualizar pontos de interesses em seu caminho, além de informar seus objetivos, poderia ter sido utilizado o outro gatilho para permitir o movimento livre da câmera.

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Certamente um detalhes mais interessantes do game é a interface do menu inicial do game, em que uma das androides da Cyber Life serve como sua guia e até mesmo "conversando" com o jogador. Essa funcionalidade do game é uma forma inteligente de conquistar o jogador, mostrando o quão "humanos" os androides podem ser e, quem sabe, até mesmo influenciando as decisões que serão tomadas ao longo da história. Aliás é bom o jogador ficar atento aos pontos que ele acumula após o final de cada capítulo - que dependem do número de caminhos desbloqueados no fluxograma de decisões - pois eles servem para desbloquear modelos, artes e outros conteúdos extras do game.

Mais do que apenas máquinas

Uma vez que a história de Detroit se inspira em grandes sucessos da ficção-científica como Blade Runner e Eu, Robô, seria fácil para que o game caísse no universo dos clichês. Felizmente, a ótima atuação dos personagens e os diálogos bem construídos cativam o jogador desde o primeiro momento. A mecânica de escolhas trabalha em conjunto com isso, criando uma relação profunda com o usuário que permanece mesmo depois de concluída a história.

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Sem revelar muitos spoilers sobre a trama, mas uma das partes mais dramáticas do game (e que conseguiu realmente me “conectar” ao personagem) é quando Markus desperta no lixão de andróides, tendo que lutar para sobreviver em meio a centenas de outras máquinas aos pedaços, na escuridão e no frio da noite. Nesse momento, fica claro ao jogador a forma como os androides são tratados nesse mundo do futuro: como simples pedaços de plástico que podem ser descartados a qualquer momento e de qualquer forma.

É impressionante poder testemunhar a evolução de cada personagem graças às escolhas que você realiza. De máquinas subservientes, podemos acompanhar o nascimento do que podemos chamar de “consciência” de cada máquina. Tanto Connor, Markus e Kara começam a se questionar sobre sua realidade e condição de vida. Por que eles não merecem ser tratados de forma igual ou terem os mesmos direitos que humanos? Eles podem ser seres artificiais, mas cada um possui uma mente própria, com um programa que evoluiu de forma surpreendente para adquirir independência.

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Aliás, esse é um aspecto que Detroit faz com excelência: instigar questionamentos aos jogadores. Mesmo assim, uma pergunta crucial fica pairando no ar depois que você conclui o jogo: como a rebeldia nasceu nos androides? Seria ela uma evolução natural da inteligência artificial, uma vez que os androides aprendem o suficiente sobre nosso mundo e sociedade ou tudo não passaria de um simples erro de programa - quem sabe um vírus? Qualquer que seja a resposta, uma certeza fica clara: é preciso pensar em como iremos lidar com a questão da IA em futuro próximo, tanto ética quanto socialmente.

“Eu estou vivo”

O que significa “estar vivo”? Ser capaz de pensar, sentir e até mesmo amar basta para definir um ser como vivo, mesmo que ele seja artificial? Talvez ao jogar Detroit você consiga responder essa pergunta, ou talvez não. Mesmo com alguns inevitáveis tropeços, em Detroit Become Human, a Quantic Dream conseguiu levar o enredo da ficção-científica existencialista dos androides a um patamar além do que já havíamos visto, proporcionando uma experiência narrativa única com personagens inesquecíveis e um espetáculo gráfico que se aproxima tanto de nossa realidade que chega a causar um certo temor ao jogador mais atento.

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Prós

  • História clichê, mas bem desenvolvida;
  • Personagens cativantes e ótima atuação;
  • Modo investigação ajuda orientação na trama.

Contras

  • Interações desnecessárias;
  • Detalhes mal explicados.

Detroit Become Human - PS4 - Nota: 9.0

Análise produzida com cópia física cedida pela Sony Brasil

Luis Antonio Costa escreve para o PlayStation Blast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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