Blast from Japan

JoJo no Kimyou na Bouken: Ougon no Senpu (PS2) recria a obra original de maneira interativa

O game baseado no mangá de Hirohiko Araki é um dos vários produtos da série que nunca viram o sol nascer no ocidente.



Após o sucesso de Jojo’s Bizarre Adventure: Heritage for the Future (Multi), a Capcom deu continuidade na produção de novos jogos baseados na série concebida por Hirohiko Araki. Dessa vez, a escolhida foi a quinta parte da série, Vento Aureo, cujo anime estreia hoje na TV japonesa, quase vinte anos depois de ter seu último volume em mangá publicado.


JoJo no Kimyou na Bouken: Ougon no Senpu — conhecido também por Giogio’s Bizarre Adventure: Golden Wind —, então, foi lançado para o PlayStation 2 em 2002, logo no começo do ciclo de vida do aparelho. Ao contrário de seu antecessor, o título não é um jogo de luta 2D tradicional, e sim uma aventura interativa que segue fielmente a história do mangá em ambientação tridimensional.


Um mangá a ser jogado

Ougon no Senpu — Tornado Dourado — narra a saga de Giorno Giovanna em sua empreitada para se tornar um chefe da máfia italiana, ou melhor, um Gang-star, de acordo com a nomenclatura da própria série. Filho de Dio, o antagonista de partes anteriores — Phantom Blood e Stardust Crusaders, especificamente —, Giorno é um usuário de Stand que se infiltra na família Passione, comandada pelo vilão Diavolo, no intuito de subir nos rankings e se tornar o líder que tanto almeja.

A história é contada a partir da combinação das cinemáticas, competentemente elaboradas no intuito de reproduzir uma estética de história em quadrinhos e da própria jogabilidade. Assim, fases específicas têm gimmicks diferentes relacionados aos diversos poderes dos inimigos. As fases são jogadas com personagens pré-determinados e geralmente reproduzem certos acontecimentos do mangá com fidelidade no gameplay.




Além disso, cutscenes secretas e especiais chamadas Secret Factors são reveladas caso o jogador reproduza por conta própria algumas ações da obra original. Essas cinemáticas podem ser quatro para cada estágio e, quando descobertas, aumentam a pontuação no final e ajudam a desbloquear conteúdo extra na galeria.

No intuito de tentar aumentar o fator replay há uma modalidade alternativa liberada após o término da campanha principal. Ela permite que as fases sejam jogadas novamente com outros personagens, agora escolhidos pelo jogador dentro de uma lista oferecida pelo jogo para cada estágio. Não é nada realmente diferenciado, mas vale ser citado.

Sobre os Secret Factors, a principal questão não apenas deles, mas de todo o gameplay é justamente a fidelidade em relação à obra original que pode acabar frustrando um pouco aqueles que nunca tiveram contato com ela antes. Fases como a do Man in the Mirror, em que os controles são invertidos; Oasis, que transforma o solo em lama que impede a locomoção do jogador; ou Notorious B.I.G., que utiliza uma espécie de sensor de movimentos bruscos para atacar a personagem Trish e fazendo com que ela tenha que ser controlada com cautela podem mais causar nervosismo do que divertir.



Apesar disso, a jogabilidade do título funciona muito bem. Os personagens respondem bem aos controles e se movimentam com fluidez. É também interessante como cada novo personagem é controlado de uma forma diferente do anterior, maquiando um pouco o que poderia até se tornar repetitivo e dando mais diversidade ao game — e todos são bem fáceis de pegar o jeito.

Dessa forma, o jogador que consegue ser fisgado pelo game acaba passando algumas horas completando o modo história. Fase após fase, ele nem se dá conta do tempo passando até chegar ao final, uma vez que a campanha principal infelizmente acaba sendo bem curta. Umas cinco ou seis horas é suficiente para terminá-la. Na época, poderia inclusive se enquadrar na categoria dos chamados games de locadora, desses que eram alugados na sexta e zerados até domingo quando seriam devolvidos.

Quando uma arte é tão característica que é necessário uma engine própria só para ela

Por ser um dos jogos logo do começo da era do PlayStation 2, JoJo no Kimyou na Bouken: Ougon no Senpu foi desenvolvido tendo em vista um hardware ainda pouco desbravado. Isso não significa que o título seja feio. Aliás, muito pelo contrário: apesar de contar com cenários relativamente simples, a maioria dos personagens foi modelada de maneira competente sem que o traço do mangá original seja perdido. Para tal, foi escolhido um visual cel-shaded que caiu muito bem nos personagens justamente por ser uma estética que torna fácil a reprodução de um estilo cartunesco. Na época, uma engine gráfica chamada “artistoon” foi criada especialmente para o título.

A trilha sonora também é exemplar, com músicas marcantes que conseguem criar variadas atmosferas dependendo de cada fase, como era de praxe da Capcom de um tempo não tão distante assim. Destaque, inclusive, para a preocupação em criar um novo arranjo para o tema de um personagem que esteve presente no Heritage for the Future e aparece nesse também.

JoJo e Ocidente, uma relação complicada

JoJo’s Bizarre Adventure sempre teve uma história conturbada sobre a sua presença no ocidente e com esse jogo não foi diferente. Depois de uma repercussão positiva do Heritage for the Future, a franquia acabou desenvolvendo uma comunidade de fãs por causa do próprio jogo e um lançamento ocidental de Ougon no Senpu até chegou a ser anunciado na E3 2002 para outubro daquele mesmo ano como GioGio’s Bizarre Adventure, simplesmente — uma capa ocidental chegou inclusive a ser divulgada.

Entretanto, por motivos desconhecidos até hoje, o título acabou sendo cancelado e nunca viu o sol nascer por essas bandas. Especula-se que a utilização de nomes protegidos por copyright seja a causa mais provável — assim como todo o resto da série que teve dificuldades de ser lançados aqui no oeste —, mas isso nunca foi oficialmente confirmado.

Ougon no Senpu foi o último jogo da franquia a ser produzido pela Capcom. A série só voltaria a dar as caras nos videogames em 2006 com JoJo no Kimyou na Bouken: Phantom Blood (PS2), produzido pela então Namco Bandai e baseado no filme de mesmo nome que retrata o primeiro arco de história da obra de Hirohiko Araki. Nota-se que tal iteração também ficaria restrita ao Japão. Foi só em 2014, um ano depois de seu lançamento original japonês, que JoJo’s Bizarre Adventure: All-Star Battle (PS3) recebeu uma localização para o ocidente e deu fim a um hiato de quase vinte anos sem um título da série no oeste.


Diversão descompromissada para os fãs curiosos

De um modo geral, o jeitão de Ougon no Senpu lembra bastante Jojo’s Bizarre Adventure: Eyes of Heaven, o mais recente título da franquia lançado para PlayStation 4 no ocidente. A questão é que ele, por conta de uma questão de anacronismo, isto é, analisando ele como um produto de sua época, acaba sendo dois dedos superior ao game do PS4, que parecia datado já em seu lançamento, enquanto o Ougon no Senpu era um exemplo de qualidade técnica no início do ciclo de vida do PlayStation 2 em 2002.

Entretanto, se observado sob um ponto de vista atual, é nítido que o game chegou a envelhecer e se classifica simplesmente como mais um produto licenciado, desses que agrada bastante aos fãs da série, mas capenga um pouco para se sustentar como uma experiência sólida que vá além do “jogo de anime”. Portanto, a recomendação é: se você for ligado na obra máxima de Hirohiko Araki, vale a pena correr atrás e experimentar, principalmente por conta da preocupação da Capcom em ser fiel ao material original. A experiência pode valer a pena, mesmo com a barreira do idioma — algo que aqui até faça uma diferença por ser um jogo que se justifica demais na própria narrativa.

Revisão: Marília Carvalho
João Pedro Boaventura é jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Não perde a chance de usar conceitos acadêmicos para discutir sobre videogame. Se você realmente gosta das groselhas que ele escreve, pode ler mais um pouco de suas asneiras em seu blog particular.

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