Blast Test

Uncharted: The Nathan Drake Collection (PS4) e o que ele pode mostrar em 2015

Jogamos a demo da coleção de Uncharted, e refletimos acerca da atual relevância da franquia.

A ideia deste texto não é reclamar da onda de remasterizações e coleções, tampouco apenas descrever a demo de Uncharted: The Nathan Drake Collection, afinal ela está disponível para os donos de um PS4, mas sim tentar refletir em que medida os jogos da série possuem relevância em 2015, considerando que já estamos há quase 4 anos do lançamento original de Uncharted 3: Drake’s Deception (PS3) e há 8 da publicação de Uncharted: Drake’s Fortune (PS3).

Ações épicas e impacto visual

Depois de duas passadas pela breve demonstração, parte de Uncharted 2: Among Thieves (PS3), cheguei a conclusão que Uncharted é mestre em fingir que o jogador é dono da ação. Não encarem a utilização do verbo “fingir” como um ataque, afinal, jogos como The Walking Dead (Multi) também conseguem usar de maneira exemplar a ilusão em seu design.


Explico melhor: no premiado jogo da Telltale, as inúmeras opções de ações e diálogo, a rapidez em que temos que agir ou responder, e o peso de nossas escolhas, do ponto de vista do enredo, fazem o jogador acreditar que, de fato, existem inúmeras diferenças nos episódios dependendo dos acontecimentos. Essa crença é muito importante para trabalhar com as emoções e respostas do jogador e, de certo modo, não faz do jogo menos competente quando descobrimos que não existem tantas diferenças assim de uma partida para a outra. Em Uncharted, sinto algo semelhante.

As ações e os caminhos de Drake são milimetricamente roteirizados e planejados, fazendo com que nos sintamos mais imersos na ação do que realmente estamos de um ponto de vista das opções que, de fato, temos. O helicóptero não vai nos matar quando lança os misseis e o prédio tomba, da mesma forma que não importa se matamos ou não os capangas que aparecem no meio desse fuzuê, e, ao fim, pulamos junto com a Chloe em direção ao outro prédio quer ela estivesse ao nosso lado antes ou não.


E aí chegamos ao próximo ponto, Uncharted é mais mestre ainda em nos brindar com um espetáculo visual. Quem jogou sabe que existem diversos momentos que deixam os jogadores boquiabertos. Não estou falando apenas de gráficos (embora os 1080p e 60fps fixos melhorem o desempenho visual do título), mas sobretudo do uso das cores, do posicionamento da câmera e do impacto das coisas que acontecem, que poderiam estar tranquilamente em um desses filmes exagerados, do tipo Missão Impossível. Não é à toa que a primeira cena de Uncharted 2 é aquela do trem.

Ritmo e narrativa

Fiquei com outra sensação, essa mais negativa, de que Uncharted também é competente em quebrar seu próprio ritmo de jogo. Em muitos momentos existem cenas que cortam a ação, quando como chegamos ao topo de uma construção e antes de podermos usar o fio para deslizar, existe uma cena. Ou então quando pulamos de uma plataforma para outra e o helicóptero reaparece, e ao invés de termos o controle direto durante toda essa ação, também vemos mais uma cena antes de correr novamente.


Entretanto, isso faz parte da proposta do jogo, já que essa progressão que se dá na alternância de trechos jogáveis e cenas é o que se esperava de um Uncharted. E são em muitas dessas cenas que ocorrem feitos épicos, explosões e piadinhas, algo muito em voga nas produções cinematográficas mais populares. O que faz que algumas pessoas vejam Uncharted como uma espécie de blockbuster jogável. Ao meu ver, um exemplo de aplicação melhor dessa alternância vem da própria Naughty Dog: The Last of Us. Já que o ritmo proposto para a saga de Joel e Ellie é mais condizente com a existência de cenas cortando a ação, além de que um dos aspectos centrais do título é justamente a aproximação entre os dois personagens, que se dá em grande parte em cenas (e não só nelas, felizmente).

Tiros e história

O que essa demo de Uncharted: The Nathan Drake Collection também me trouxe foi a impressão de que ele não se sobressai na qualidade da ação e de suas mecânicas em 2015. Seria desonesto dizer que elas são ruins apenas porque o tempo passou, porém elas dificilmente vão impressionar pessoas que jogaram muitos jogos do tipo ao longo dos anos, alguns títulos, inclusive, influenciados pela série Uncharted.


O sistema de cover não é tão refinado como eu me lembrava, assim como a movimentação do Drake não é bacana e realista como meu cérebro nostálgico me fazia crer. Além disso, as partes de tiro não trazem uma excelência em jogabilidade. E por mais que chegue a ser quase patético reclamar de algo por não trazer excelência, a ideia é justamente que nos perguntemos se vale a pena jogar a trilogia em nossos PS4 em 2015.

Mas, para além de qualquer outra coisa, Uncharted continua excelente naquilo que compõe o centro de sua experiência: essa ilusão de sermos donos da ação (e algumas vezes realmente sermos) em meio a espetáculos visuais. Ele continua sendo um dos melhores exemplos de jogo dentro de sua proposta de impactar visualmente e inebriar o jogador com ações perfeitamente roteirizadas. E é muito esperta a forma como Uncharted usa os segmentos de escalada e plataforma para usar da perspectiva e trazer belos cenários.


Fora isso, também há alguma importância histórica compreendida neste tipo de coleção. É possível, em um mesmo pacote, observar toda a progressão da série ao longo dos anos. E, neste caso, não de qualquer série, mas de uma das mais importantes da geração passada.

Então, se você nunca jogou a trilogia e tem algum interesse, jogue se possível. Se já jogou e é muito fã, a ponto de querer relembrar os momentos e analisar a progressão dela, jogue também. Em qualquer outra opção, talvez seja melhor olhar para outros jogos e lançamentos, de indies a AAAs.

Uncharted: The Nathan Drake Collection será lançado para PS4 no dia 09 de outubro de 2015.

Revisão: Alberto Canen
Capa: Diego Migueis
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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