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Análise: Tokyo Xanadu (PS Vita) mostra a solidez da produção atual da Falcom

O título se baseia no legado de sua produtora e segue alguns padrões recentes. Mas também busca novos elementos e se sai bem como um Action RPG contemporâneo.

Tokyo Xanadu tem suas raízes na série Xanadu, iniciada com o segundo título da seminal série de Action RPG Dragon Slayer, criada também pela Nihon Falcom e de fundamental importância na história dos videogames. Isso, pois é conhecida como a fundadora da indústria dos RPGs japoneses, tendo sido uma influência indispensável para o surgimento de The Legend of Zelda. Infelizmente, a maior parte dos games da franquia não chegou ao Ocidente.


Falando do jogo em análise, ele se trata da nova aposta da companhia nipônica (e também da Aksys) para o PlayStation Vita. A primeira vista, a impressão que temos é que a ideia era trazer uma atmosfera diferente do temos visto em Legend of Heroes e Ys, já que a história se passa nos dias atuais, em um subúrbio fictício de Tóquio chamado de Morimiya City. De toda forma, a construção estrutural do game é feita a partir de elementos já conhecidos dessas consagradas franquias.

Atravessando um portal para outro mundo

A trama segue a vida de Kou Tokisaka, um adolescente que segue sua rotina entre as aulas no colégio Morimiya High e trabalhos de meio expediente. Certa noite, após sair do serviço, o jovem vê sua colega Asuka Hiragi ser seguida por dois rapazes que parecem ter intenções nada boas. Então, ele resolve ir atrás para ajudar a mocinha a se defender. Mas ao chegar no local ermo no qual ela está sendo assediada, um estranho portal se abre e suga todos para uma outra dimensão. Neste outro mundo, o protagonista vê sua colega usar uma estranha arma para derrotar monstros enquanto os dois marginais estão caídos no chão desacordados. Após isso, ele acorda em sua casa sem saber como chegou lá, teria sido um sonho?


Alguns dias se passam e o nosso herói acaba atravessando novamente um portal para a outra dimensão quando tenta ajudar sua amiga Shiori Kurashiki. Kou é seguido por Asuka, que tenta evitar que o rapaz se envolva com os perigos daquele lugar. Mas, na urgência de salvar sua amiga, o mocinho acaba despertando seu poder espiritual, fazendo com que uma arma com lâminas surja em sua mão. Hiragi resolve então explicar a situação para o rapaz: o local onde estão é conhecido como Other World, o fenômeno de surgimento desse portal chama-se Eclipse e ela faz parte de uma organização que investiga a aparição desses lugares e enfrenta os monstros que vêm deles desde a ocorrência de um terremoto em Tóquio há dez anos. Kou fica sabendo também através moça que somente poucos podem portar Soul Devices (essas armas especiais) e enxergar esse mundo paralelo. A partir daí, eles vão seguindo na missão de proteger as pessoas comuns dessa ameaça e novos integrantes vão se juntando à turma.

Vida de estudante e de herói também

Tokyo Xanadu tem uma estrutura de desenvolvimento semelhante à de Trails of Cold Steel. A narrativa é desenvolvida em capítulos que são encerrados ciclicamente. Com o passar dos dias, o protagonista vive sua rotina escolar, ajuda pessoas de Morimiya em side quests e desenvolve laços com outros personagens. Então, surge mais um portal para o outro mundo e ele seus aliados enfrentam a ameaça.


A parte da vida cotidiana de Kou tem todo um charme especial. Os diálogos são interessantes e o texto é rico. Cada personagem, inclusive os secundários, parece único e tem suas próprias complexidades. Há, inclusive, um acompanhamento em notas da história individual de cada um. Interagir com NPCs é algo muito prazeroso de se fazer. As ambientações também são bem caracterizadas e parecem orgânicas, o jogador sente que Morimiya é um cidade viva. Muito disso é herdado de Trails of Cold Steel, inclusive uma personagem idêntica chamada Towa, mas Tokyo Xanadu possui personalidade própria.


O outro lado do gameplay é a exploração de labirintos no outro mundo e as batalhas contra os Greeds (monstros que habitam o Other World). As dungeons do jogo são acessadas ao atravessar um eclipse e possuem aspecto labiríntico com puzzles de resolução bastante simples. Essa parte é bem semelhante à Old Schoolhouse de ToCS e infelizmente não há muita variação e nem mesmo um grande desafio na exploração.


Os combates, em si, são onde o game se aproxima de Ys, com ação direta e intensa. Se por um lado esse sistema pode desapontar alguns por não ser complexo e técnico como um Dark Souls, por outro ele também não é mero hack ‘n’ slash. O Soul Device de cada um dos personagens é baseado em um elemento que é mais ou menos eficaz dependendo da natureza elemental de cada inimigo. Por este motivo, temos que trocar constantemente o personagem que estamos controlando, o que é feito de forma ágil. Os ataques podem ser a distância (ranged) ou próximos (melee) e isso também tem eficácia variável de acordo com o inimigo. Há ainda especiais e novos elementos que vão sendo inseridos conforme a progressão.

Jeito de anime

A engine utilizada é muito provavelmente a mesma de Trails of Cold Steel, mas as texturas usadas são melhores e a aparência geral parece mais refinada, principalmente no tocante aos personagens. Os traços e a animação são muito bem feitos, chegando a passar a sensação de estarmos assistindo a um anime e diversos momentos. Isso reforça ideia de que cada personagem é único.


É interessante como as localidades de Morimiya tem um certo ar de familiaridade. Não que elas sejam assim por repetirem clichês dos JRPGs contemporâneos, como ambiente escolar ou algo do tipo, mas isso se deve ao trabalho que os designers tiveram de recriar lugares que existem realmente. A inspiração é Tachikawa City, onde se localiza o escritório principal da Falcom. O arco vermelho e a Yumine Department Store da praça Morimiya Station Plaza, por exemplo, são reproduções do monumento de arcos e da loja de departamentos Lumine que ficam na saída norte da estação de trem de Tachikawa. A representação do subúrbio japonês coincide com aquela que conhecemos ao assistir vídeos sobre a vida no Japão.


Na parte sonora, temos efeitos realizados competentemente e a trilha se adequa bem às circunstâncias de cada momento. As vozes dos personagens estão em japonês, não havendo a possibilidade de se escolher pela língua inglesa (e muito menos a portuguesa). Isso pode agradar uns e desagradar outros, mas só diálogos mais importantes para a história foram dublados, para os demais só há texto. No contexto específico deste jogo, a dublagem japonesa dá um certo charme e até ajuda na imersão.


Em suma, Tokyo Xanadu traz uma boa experiência tanto em história quanto em gameplay. Mostra ainda que, embora a Falcom tenha feito uma aposta segura por repetir alguns padrões de seus bem sucedidos trabalhos recentes, a obra possui identidade própria e agrada tanto aos fãs antigos de seus jogos quanto os novatos em seu universo de RPGs.

Prós

  • Personagens carismáticos e únicos;
  • Ambientação bem feita de Morimiya;
  • Combates interessantes baseados em elementos.

Contras

  • Dungeons um pouco genéricas e repetitivas;
  • Baixo desafio na exploração.


Tokyo Xanadu — PlayStation Vita — Nota: 8.5

Revisão: Ana Krishna Peixoto

Luiz Filipe Cremonezi do Valle é formado em Direito pela UFJF. Adora videogames desde que se entende por gente. Gosta de jogos antigos, mas está sempre ligado nos novos games e tecnologias. Pode ser encontrado no Facebook e no Twitter.

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