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Análise: Psychedelica of the Black Butterfly (PS Vita) conta um mistério intrigante

Visual novel otome apresenta um grupo de jovens presos em uma mansão habitada por monstros.

Desenvolvido pela Sting em parceria com a Idea Factory, Psychedelica of the Black Butterfly é uma visual novel que se enquadra no gênero otome, ou seja, foi desenvolvido com um público feminino (especificamente aquele interessado em namorar rapazes) em mente. No entanto, assim como os outros jogos do gênero traduzidos pela Aksys (Hakuoki, Collar x Malice), há vários elementos que podem prender o interesse de qualquer jogador. No caso específico de Psychedelica of the Black Butterfly, a narrativa intrigante é um prato cheio para os fãs de histórias misteriosas e sombrias.

Uma realidade sombria


Sem memórias, uma jovem de cabelos ruivos acorda em um lugar estranho: uma grande mansão repleta de imagens de borboletas. Ela escuta um barulho e descobre que monstros lá habitam. Após conhecer novas pessoas na mesma situação, a jovem passa a atender pelo nome Beniyuri e a lutar junto com seus companheiros para atender às exigências do mestre da mansão. De acordo com ele, a única forma de sair é completando um caleidoscópio. 

Perguntas como “onde eles estão?”, “quem são eles?”, “por que estão ali?”, “o que são esses monstros?”, entre outras, movem a narrativa. A atmosfera sombria e desolada é muito bem construída através do ambiente da mansão. Ela é escura, misteriosa e um pouco sufocante. No entanto, a jovem Beniyuri não está sozinha: seus companheiros servem de apoio emocional nos momentos difíceis que enfrentam em busca de uma forma para voltar para casa.

O principal a servir esse papel é Kagiha, um jovem gentil que parece ser o mais velho do grupo. É ele que mais escuta a personagem e oferece ombro e chocolate quente quando necessário. Por outro lado, a equipe também conta com os imaturos Yamato e Karasuba, que vivem em pé de guerra. O primeiro se faz de durão o tempo todo, é muito rude, mas tem um bom coração. Já o segundo gosta de implicar com todos e flertar o tempo todo com a protagonista. Temos também Hikage, o líder do grupo, que está sempre conduzindo os personagens com sua determinação (e uma pitada de sarcasmo). Há também outros personagens que habitam a mansão há mais tempo e usam máscaras de animais, mas a relação deles com os principais é mais ambígua. Em destaque, um misterioso rapaz com máscara de raposa e uma garota com máscara de coelho são bastante importantes para a resolução da história.

A princípio, nenhum deles se lembra muito bem do passado e todos assumem nomes que encontram em placas dos dormitórios da mansão. No entanto, conforme recobram suas memórias e desvendam partes do mistério, a realidade cruel ameaça arruinar a harmonia entre eles. É bastante interessante ver essas dinâmicas entre os personagens e, apesar de ser fácil antever algumas das reviravoltas, a narrativa é conduzida muito bem, tornando o mistério mais intrigante pelas consequências dramáticas das descobertas.

Borboletas que guiam as memórias

Apesar do jogo ser prioritariamente uma visual novel, existe também um elemento importante de gameplay que é a luta contra os monstros. Após aprenderem a utilizar uma arma de fogo especial, Beniyuri e seus companheiros passam a lutar ativamente contra os monstros em busca de fragmentos para completar o caleidoscópio. Com isso, em alguns momentos, o jogo abre um minigame de tiro em que é possível atirar nas borboletas que compõem os monstros.

Ao apertar sobre uma borboleta, é possível salvar uma mira sobre ela. Ao fazer isso em várias, é possível atirar em todas simultaneamente. Quanto maior o número de borboletas atingidas no combo, maior a pontuação. Esses pontos podem ser depois utilizados para abrir episódios curtos que contam histórias sobre a convivência dos personagens ou fragmentos do passado da protagonista. Dessa forma, existe certa liberdade para o jogador escolher como se aprofundar nas histórias paralelas. No meu caso, por exemplo, priorizei conhecer os eventos do passado em detrimento das histórias dentro da mansão. Com isso, consegui informações e indícios de reviravoltas antes delas acontecerem na história principal e pude depois visualizar as pistas mais sutis presentes nos trechos do cotidiano na mansão.

Apesar dessa liberdade, há também condições para prosseguir na história. Por exemplo, em alguns momentos é necessário “completar tantos episódios curtos” independentemente de quais são selecionados. Nesses momentos em que a história é travada, somos levados ao flowchart da história (que pode ser acessado a qualquer momento no menu). Nele, todos os eventos disponíveis estão dispostos, permitindo que o jogador pule para as áreas já abertas e abra novos trechos desbloqueáveis.
Vale ressaltar também que a progressão é um pouco não usual para jogos do gênero. Em otome games como o já mencionado Collar x Malice, o jogo começa em uma rota comum e em um dado momento, através das escolhas do jogador, entra em uma rota de personagem, ou seja, a história passa a se focar no relacionamento da protagonista com um personagem específico e as decisões irão modificar o final obtido com o interesse romântico. No entanto, em Psychedelica of the Black Butterfly, essas rotas de personagem são curtas ramificações da rota principal em vários momentos distintos.

Ou seja, a rota comum é muito maior, apresentando as rotas de relacionamento com os personagem como cenários alternativos. Isso implica também em mais tempo de desenvolvimento do mistério e menos romance, até porque, mesmo nos momentos românticos, o jogo revela novas informações sobre o mistério. Esse foco narrativo é uma escolha estranha para o gênero, mas que acaba compensando e se tornando um grande atrativo do jogo.

Um mistério intrigante

Ao longo do jogo, com as reviravoltas e as revelações do passado, o grande mistério se mostra muito bem construído. Mesmo momentos simples como conversas cotidianas podem apresentar detalhes relevantes do enredo de forma sutil e o resultado final é uma narrativa muito bem conduzida com vários elementos que contribuem para sua coerência. O jogo é certamente recomendado para fãs de visual novels, mesmo aqueles que normalmente não teriam interesse em otome games.

Prós

  • Narrativa do mistério muito bem conduzida;
  • Gameplay simples mas divertido de caçar borboletas;
  • Exploração da narrativa através do flowchart permite uma experiência não-linear, mesmo com uma história principal linear.

Contras

  • Os relacionamentos românticos são menos desenvolvidos do que o usual para o gênero;
  • Há alguns erros de escrita e textos repetidos de forma equivocada.
Psychedelica of the Black Butterfly – PS Vita – Nota: 9

Revisão:Renata Bottiglia
Ivanir Ignacchitti é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não esteja com um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.

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